
O brasileiro já tem uma dificuldade documentada para ler rótulos. Uma comparação feita em nove países pela associação Consumers International mostrou, em maio, que apenas 28% dos brasileiros entendem a tabela nutricional tradicional. Mas o quadro piora quando se soma isso ao fato de a legibilidade dos rótulos de produtos à venda no país serem alvos recorrentes de críticas.
A questão surgiu em um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), divulgado em agosto, que aponta que, além de informações importantes sobre os produtos, faltam aos rótulos contraste entre as cores do texto e da embalagem, fontes maiores e até nitidez e durabilidade da impressão.
O estudo do Idec focou a avaliação de alimentos, mas as embalagens problemáticas armazenam os mais variados produtos de repelentes de insetos a ração para gatos e bolachas. Um exemplo: a advogada Cristiane Bueno Maccari conta que chegou a procurar o serviço de atendimento ao cliente da fábrica Mondeléz/Kraft ao tentar participar de uma promoção em que era necessário informar códigos que vinha impressos na embalagem.
Cristiane acumulou embalagens de biscoito para concorrer, mas simplesmente não conseguia ler o código. "Não dava para saber se era um 0 ou um o que estava impresso, por exemplo", conta. Então estudante de Direito, Cristiane fez a "experiência" de consultar o SAC da marca para ver como seria atendida. "Pediram que eu enviasse fotografias das embalagens, fizeram várias exigências. Acabei me incomodando demais e nem participei da promoção", conta. A empresa decidiu não se manifestar sobre a situação, argumentando não ter porta-voz disponível sobre o assunto entre os dias 4 e 11.
Regras
As normas brasileiras que tratam da legibilidade dos rótulos são esparsas e dependem da categoria do produto. O Inmetro define a posição de informações nos rótulos de certos produtos, como potes de maionese. No caso de alimentos, remédios, materiais de limpeza e cosméticos, valem também as recomendações técnicas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A reguladora dispõe de normas para rotulação de água mineral, carnes e ovos, além de obrigar que se informe a presença de glúten e de um corante, a tartrazina.
Mas realmente faltam especificações sobre a qualidade do rótulo, avalia Ana Paula Bortoletto, do Idec. "Apoiamos a criação de um grupo de trabalho para rever as regras sobre embalagens de alimentos [o pedido foi feito pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) à Anvisa na semana passada]. O problema é que qualquer decisão brasileira precisa ser alinhada com os países do Mercosul, o que torna o processo demorado", explica.



