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INOVAÇÃO

Sem revolução, renda sobe pouco

O rendimento das famílias avança lentamente há décadas. E o motivo pode estar na falta de novas tecnologias verdadeiramente revolucionárias

As principais inovações decorrentes da Revolução Industrial, como o carro... | Divulgação
As principais inovações decorrentes da Revolução Industrial, como o carro... (Foto: Divulgação)
...geraram muito mais emprego e renda que produtos como o smartphone |

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...geraram muito mais emprego e renda que produtos como o smartphone

Nova York - Minha avó, nascida em 1905, costumava falar das imensas mudanças que havia testemunhado ao longo da vida, como a popularização do uso da eletricidade, do automóvel, da descarga de banheiro, dos antibióticos e de uma série de eletrodomésticos que nos trouxeram comodidade. Desde o meu nascimento, em 1962, me parece, não houve avanços comparáveis.

É claro que o computador pessoal e o seu primo smartphone nos concederam alguns benefícios significativos. Muitos produtos e serviços também estão hoje mais disponíveis e oferecem qualidade superior aos de anos atrás. Mas, comparado ao que minha avó presenciou, os utensílios básicos do nosso dia a dia permaneceram praticamente os mesmos.

A renda dos norte-americanos reflete essa morosidade. De 1947 a 1973 – um período de apenas 26 anos – o rendimento médio ajustado pela inflação mais que dobrou nos Estados Unidos. Mas, nos 31 anos que separam 1973 de 2004, ele cresceu apenas 22%. Na verdade, durante a última década, os salários recuaram no país.

Platô tecnológico

Na maioria das nações ricas, a população experimenta uma desaceleração no aumento da renda desde o início da década de 1970. É provável, portanto, que a seguinte causa esteja atravessando fronteiras: as sociedades atingiram um platô tecnológico. Os números sugerem que, durante 40 anos, houve a disseminação quase universal das principais inovações decorrentes da Revolução Industrial, muitas das quais combinavam máquinas eficientes com a queima de combustíveis fósseis. Hoje, não se vê no horizonte um grande avanço para o automóvel ou para o avião. Os esforços estão voltados para reduzir a poluição emitida por esses equipamentos, e não para aumentar substancialmente as suas capacidades.

Benefícios concentrados

Ainda que os EUA sejam responsáveis por muitas inovações, a maioria delas não serve para melhorar significativamente o padrão de vida das pessoas. Em comparação com o amplo progresso obtido em décadas passadas, quando o mundo moderno foi de fato construído, as ideias atuais parecem beneficiar um número relativamente pequeno de indivíduos. Se a alta nos rendimentos continuasse no ritmo anterior a 1973, por exemplo, a renda familiar média do norte-americano seria de US$ 90 mil ao ano, contra os atuais US$ 50 mil.

Será que a internet proporcionará uma nova explosão de crescimento econômico? Muito provavelmente, mas a rede não exibiu uma boa performance macroeconômica nos últimos dez anos. A maior parte dos avanços da internet é divertida – jogos, salas de bate-papo, Twitter –, porém nada disso é uma grande fonte de receita. Quando surgem ganhos monetários mensuráveis no ambiente on-line, eles geralmente estão concentrados em um pequeno número de fundadores de empresas, como, por exemplo, no caso do Facebook. Quanto aos usuários, a internet traz benefícios desproporcionais aos curiosos e à boa educação, mas aparentemente não re­­força a renda média das pessoas.

Além da desaceleração nos rendimentos, existe outra preocupação: uma fatia crescente da economia está atrelada à educação e à saúde. Essa tendência não é necessariamente ruim, mas os resultados efetivos dos dois setores são de difícil medição. Por exemplo, se o custo da saúde crescer 6% em um ano, esse aumento será contado como um avanço do PIB. Porém, qual será o real progresso da saúde? A pergunta continua sem respostas. Os EUA gastam mais com saúde do que outros países, mas essas despesas não parecem trazer resultados consistentemente superiores. E, ainda que tenham ocorrido avanços no tratamento médico, eles podem estar sendo supervalorizados. Também gastamos cada vez mais com educação, mas as notas dos alunos estão estagnadas há décadas, o número de formandos está em queda e as piores escolas do país são um desastre.

Há um problema ainda maior. Quando se trata de mensurar a renda nacional, costumamos listar despesas como custo, em vez de monitorar a produtividade em termos de resultados. Em outras palavras, nossas estatísticas podem estar nos enganando – por exemplo, ao tomarmos as despesas com saúde e educação pelo valor de face. Esse tema tem sido enfatizado em palestras, pelo co-fundador do PayPal Peter Thiel, e em textos, pelo economista Michael Mandel. Eu mesmo toquei no assunto em um livro recente, The Great Stagnation ("A Grande Estagnação", inédito no Brasil).

Política não resolve

Mais cedo ou mais tarde, novas revoluções tecnológicas irão ocorrer – talvez nas biociências, por meio do sequenciamento do código genético, ou na produção energética, com a viabilização da energia solar. Mas essas transformações não virão da noite para o dia. Enquanto isso, teremos de nos virar. Em vez de enfrentar a escassez, os políticos promovem reduções de impostos e medidas de distribuição de renda que beneficiam seu grupo favorito de eleitores. Esses ajustes, no entanto, são pontuais e, com o tempo, não são capazes de reverter o ritmo cada vez menor do crescimento no padrão de vida médio.

Não está claro se os norte-americanos têm perfil para aceitar uma transição suave na direção de uma economia mais estagnada. Afinal, sempre imaginamos nosso país como a terra das oportunidades infinitas. Na prática, esse otimismo resultou no contínuo crescimento dos gastos governamentais, mesmo que não pudéssemos arcar com a conta.

Em linhas mais específicas, a solução para vencer a estagnação da renda não será política. E um dos pontos mais difíceis de serem compreendidos no atual dilema é o fato de que ninguém é culpado. O progresso científico nunca se deu de forma equilibrada ou previsível, mesmo que durante parte do século 20 isso parecesse possível.

A ciência precisa de incentivos: subsídios para pesquisas básicas, filantropia privada, reforma educacional, uma cultura de negócios voltada para a comercialização de invenções e que o público reconheça mais o valor dos esforços científicos. Menos restrições legais e regulatórias também poderiam facilitar o caminho das inovações.

Mesmo assim, o avanço das descobertas não é um objetivo que possa ser alcançado por mera vontade. Exatamente por não ter um inimigo claro nem uma resolução simples, e por causa dos inúmeros fatores complexos que estão por trás dos sucessos, a ciência não desempenha um papel importante no discurso político norte-americano. Quando queremos tratar da atual situação macroeconômica, nós geralmente erramos no rumo das discussões.

Enquanto a ciência não retomar o impacto que costumava ter no padrão de vida médio, a questão política permanecerá limitada à busca pela sobrevivência dentro das possibilidades presentes. Uma vez que nenhum dos grandes partidos apresenta um caminho plausível para o equilíbrio fiscal, nem reconhece como os políticos têm pouco controle sobre o crescimento da renda, nós continuamos, anticientificamente, vivendo na era da negação. Tyler Cowen é professor de Economia da Universidade George Mason.

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