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Na década de 80, uma reportagem da Rede Globo registrou um menino de 10 anos catando papelão nas ruas de Londrina, no norte do Paraná. Enquanto adultos relatavam as dificuldades da vida, o pequeno Sérgio Fagundes sorria para a câmera e já alimentava uma convicção: seus futuros filhos não passariam pelas mesmas privações que ele enfrentava.
Mais de 40 anos depois, o notebook quebrado com que ele fundou a Insight Energy deu lugar a uma operação que projeta faturar R$ 100 milhões em 2026. A empresa atua em um nicho tecnológico restrito, fabricando e reparando grandes geradores para hidrelétricas e termelétricas, como as de Itaipu e Tucuruí, e atende gigantes como Petrobras e Copel.
Hoje, aos 54 anos, ao rever as imagens daquela entrevista, Sérgio identifica o que chama de "ponto de virada" em sua mentalidade. Na mesma reportagem, um senhor também era entrevistado enquanto catava papelão, mas sua postura era o oposto da de Sérgio. "Ele parecia atropelado pela vida, murmurando e arrasado", recorda o empresário.
"Ali eu entendi a diferença entre quem se vitimiza e quem encara a situação como um desafio passageiro", diz.
** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.
Do mingau de fubá à engenharia
A vida de Sérgio Fagundes mudou drasticamente em 1975, quando a "geada negra" destruiu os cafezais paranaenses e empurrou sua família do campo para as incertezas da cidade. Filho mais velho de sete irmãos, ele conheceu a fome de perto. Em muitos dias o jantar se resumia a um mingau de fubá com água. Aos oito anos, começou a catar papelão para ajudar os pais no sustento da família.
Enquanto outras crianças brincavam, Sérgio trabalhava e observava o padrão de vida de vizinhos cujos pais eram eletricistas. Foi então que decidiu que aquela profissão seria sua porta de saída da pobreza e passou a investir no aprendizado de um ofício que enxergava como uma oportunidade real de ascensão social.
Ao longo dos anos, concluiu diversos cursos profissionalizantes, a maioria deles no Senai. Trabalhou 20 anos em uma única empresa, onde entrou como auxiliar e saiu como engenheiro elétrico.
O empresário lembra que a sua graduação também foi uma prova de perseverança. Durante sete anos, ele destinou metade do salário ao pagamento das mensalidades da faculdade, enquanto dividia com a esposa e os filhos uma casa de apenas 40 metros quadrados. Diante das dificuldades, repetia uma promessa que se tornou seu mantra nesse período: “Vamos viver de pão e água, mas eu vou me formar”.
Dessa trajetória, Sérgio carrega histórias como a de Romildo, que começou como auxiliar de oficina no mesmo dia que ele, em 1990, e hoje é um bobinador qualificado – e um dos mais comprometidos – de sua empresa.

Furando a bolha das multinacionais
Em 2010, Sérgio Fagundes deu o salto mais arriscado: deixou a estabilidade do emprego para fundar a Insight Energy. Com um notebook velho e um plano de negócios de apenas duas páginas, ele decidiu entrar em um nicho tecnológico extremamente restrito, dominado por gigantes globais como Andritz, GE e Voith.
A Insight Energy especializou-se em grandes máquinas geradoras de energia, atendendo clientes do porte de Petrobras, Copel e diversas siderúrgicas. Hoje, a empresa é a única brasileira com capacidade técnica para competir nesse mercado.
O sucesso despertou o interesse da WEG, a maior empresa do setor no Brasil, que tentou adquirir a Insight em 2024 para acessar esse nicho específico. O negócio não foi fechado porque, apesar do crescimento explosivo, a empresa de Sérgio ainda não possuía a estrutura de governança exigida para uma auditoria internacional — um "erro" de gestão que ele está corrigindo agora.
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"Custo Brasil" trava o país no terceiro mundo
Para o empresário, empreender no Brasil é como tentar atravessar um rio de correnteza forte sem saber nadar. Ele critica duramente a falta de educação administrativa e financeira nas escolas brasileiras, o que leva muitos talentos ao fracasso por desconhecerem as áreas jurídica e tributária.
Apesar de ter movimentado cerca de R$ 300 milhões nos últimos cinco anos, Sérgio Fagundes faz questão de enfatizar que faturamento não se confunde com lucro. Segundo ele, boa parte dos recursos apenas transitou pelas contas da empresa para custear impostos, fornecedores e uma folha salarial milionária.
O empresário classifica o sistema tributário como um "manicômio" que sufoca o crescimento. Entre os desafios enfrentados pelas empresas, ele destaca as multas aplicadas em caso de atraso no pagamento de parcelamentos tributários. Segundo Sérgio, uma cobrança de 20% sobre o valor devido é suficiente para desequilibrar o caixa e comprometer a sustentabilidade financeira de muitos negócios.
Além disso, a precariedade da infraestrutura nacional impõe custos logísticos elevados. Sérgio compara o Brasil com potências como China e EUA, onde já visitou fábricas como a da Tesla. Para ele, a tecnologia brasileira é competitiva, mas o "custo Brasil" trava o país no terceiro mundo.
Lucro, emprego e responsabilidade empresarial
Sérgio também combate a visão cultural brasileira que demoniza o empresário. "O lucro significa estabilidade para o profissional. Se a empresa é sólida, o funcionário trabalha com segurança", defende.
Com uma folha de pagamento de R$ 2 milhões mensais, ele ressalta que seu sucesso não é individual: "No fim das contas, não são 300 funcionários, são no mínimo 300 famílias que dependem da nossa gestão".
Atualmente, o empresário conduz um processo de transformação interna para tornar a Insight Energy uma empresa alinhada às melhores práticas de governança e apta a passar por auditorias independentes.
Ele entende que para o Brasil se tornar um país de primeiro mundo, o Estado precisa pavimentar o acesso com infraestrutura e educação, mas o empresário não pode esperar. Sua mensagem para quem deseja seguir seus passos tem a ver com sua própria essência, de quem começou com nada e construiu uma empresa de alcance nacional: "Acredite nos seus sonhos, descubra sua vocação e aprenda para empreender".




