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O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central no Distrito Federal (Sinal-DF) pagou R$ 300 mil à atriz Luana Piovani para divulgar, nas redes sociais, um vídeo contra a PEC que amplia a autonomia administrativa e financeira da autoridade monetária.
A informação veio à tona após a divulgação, pela Folha de S. Paulo, da ata da reunião que autorizou a contratação. Até então, a publicação circulava como um manifesto da atriz sobre um tema de forte repercussão no Congresso.
O vídeo alcançou cerca de 30 mil curtidas e mais de 4 mil comentários na conta da atriz no Instagram, com 5,6 milhões de seguidores.
Após a divulgação do pagamento, o debate, que inicialmente estava concentrado nas críticas de Piovani à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65/2023, passou a incluir questionamentos sobre o uso de recursos sindicais para impulsionar uma campanha política em meio à tramitação da proposta no Senado.
Atriz disse, em vídeo, que gratuidade do Pix estaria sob risco
Publicado no último dia 9, o vídeo mostra Luana Piovani explicando aos seguidores os "riscos" que, segundo ela, a PEC representaria.
Ao longo de pouco mais de três minutos, a atriz afirma que a proposta tornaria o Banco Central independente do governo e vulnerável à influência do mercado financeiro, além de colocar em risco a gratuidade do Pix, as reservas internacionais e o controle estatal sobre a autoridade monetária.
Na publicação, identificada com a hashtag #publi, a atriz marcou os perfis nacional e regional do sindicato que custeou a ação.
Economista rebate Piovani: "informações imprecisas"
Entre as respostas que ganharam maior repercussão esteve um vídeo publicado pela economista Marília Fontes, da Nord Investimentos. Ela contestou as afirmações feitas pela atriz e afirmou que a autonomia do Banco Central existe justamente para permitir que a instituição adote medidas impopulares de controle da inflação sem ficar subordinada aos interesses de governos.
Segundo ela, um banco central autônomo funciona como "guardião do poder de compra" da população ao preservar o controle da inflação.
A influenciadora também criticou a associação feita por Piovani entre a PEC e a gratuidade do Pix ou as reservas internacionais, afirmando que os temas não possuem relação direta com o conteúdo da proposta. Para ela, a atriz misturou assuntos distintos e transmitiu informações imprecisas aos seguidores.
Sindicato pagou R$ 250 mil para elaborar uma nota técnica
A contratação da atriz foi aprovada durante reunião virtual do conselho regional do Sinal-DF realizada no próprio dia da publicação do vídeo. Conforme a ata, a presidente da entidade, Edna Velho, defendeu uma atuação "mais incisiva" nas redes sociais diante do avanço da PEC no Senado e sugeriu a contratação de Luana Piovani por sua atuação pública em temas sociais.
O documento registra que a dirigente já havia conversado previamente com a atriz sobre a campanha e os valores da contratação. A proposta foi aprovada por cinco votos favoráveis e uma abstenção.
Segundo a ata da reunião, o investimento integra uma estratégia mais ampla de comunicação. Em fevereiro, o sindicato autorizou R$ 250 mil para a elaboração de uma nota técnica sobre a PEC. Já em maio, aprovou outros R$ 250 mil para ampliar a campanha nas redes sociais após concluir que as primeiras ações haviam alcançado "excelente receptividade" e elevado engajamento.
Somados ao contrato de Luana Piovani, os investimentos chegam a R$ 800 mil.
O que muda com a PEC que fortalece o Banco Central
Aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 10 de junho, a PEC aguarda votação em plenário. A proposta transforma o Banco Central em uma entidade pública de natureza especial, conferindo autonomia técnica, administrativa, financeira e orçamentária.
Na prática, a instituição deixaria de depender diretamente do Orçamento Geral da União para custear suas atividades e passaria a administrar receitas próprias.
Defensores da proposta afirmam que a medida fortalece a capacidade operacional do BC, reduz interferências políticas e amplia as condições de fiscalização do sistema financeiro.
O presidente da instituição, Gabriel Galípolo, argumentou no Senado que a crise envolvendo o Banco Master evidenciou limitações estruturais e de pessoal que poderiam ser enfrentadas com maior autonomia administrativa.
Parlamentares contrários afirmam que a mudança altera a natureza jurídica do Banco Central e pode abrir espaço para maior influência do mercado financeiro sobre uma instituição que exerce funções típicas de Estado.
A disputa extrapolou o Congresso e dividiu os próprios servidores do Banco Central. O Sinal afirma que representa a posição aprovada pela maioria da categoria em assembleias realizadas antes da tramitação da proposta e vê na PEC uma mudança que pode comprometer a natureza pública da instituição.
Já outro sindicato – a Associação Nacional dos Auditores e Procuradores do Banco Central (ANBCB), favorável à PEC – afirma que o texto foi profundamente alterado ao longo da tramitação e acusa o Sinal de manter críticas baseadas em versões já superadas da proposta.
Outro lado
Procurada pela Gazeta do Povo por meio de sua assessoria e de mensagens enviadas às redes sociais, Luana Piovani não respondeu até a publicação desta reportagem.
Em nota, a presidência do Sinal-DF afirmou que sua posição sobre a PEC está amparada no "mandato concedido pela maioria dos servidores" que representa.
A entidade sustentou que, por possuir personalidade jurídica própria e autonomia administrativa, financeira e patrimonial, tem legitimidade para contratar estudos e desenvolver ações institucionais em defesa da categoria, sempre com aprovação dos órgãos competentes.
O sindicato também reafirmou que a campanha busca dar visibilidade aos riscos que identifica na proposta em discussão no Senado.








