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O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) chega à reunião desta quarta-feira (18) diante de um dilema para a taxa Selic.
De um lado, inflação acelerada graças à alta do petróleo provocada pelo conflito no Irã; do outro, economia aquecida por estímulos do governo, que cresce acima do esperado e reduz o espaço para juros elevados por muito mais tempo.
Qualquer que seja a decisão do Copom — manutenção, corte de 0,25 ou 0,50 ponto percentual — o Banco Central (BC) terá que escolher entre ceder à inflação ou sufocar a economia.
A atual taxa Selic está em 15%, a maior em quase duas décadas. A convicção de redução de meio ponto percentual, sinalizada na reunião de janeiro, foi se esvaindo. Dois dias antes do início do conflito, a probabilidade de uma redução de meio ponto percentual na taxa Selic era de 83%, segundo os contratos de opções do Copom negociados na B3.
Na última sexta-feira (12), tinha caído para 23%, inferior às chances de manutenção (25%) e de um corte de 0,25 ponto percentual (53%).
Analistas apontam que o que se desenha para a reunião do Copom não é apenas uma decisão técnica sobre juros, mas um teste relevante para a credibilidade do Banco Central. Para investidores e empresários brasileiros, o recado é de cautela: o custo do capital pode permanecer elevado por muito mais tempo do que o desejado.
Dilemas do Copom: três cenários para a taxa Selic
Diante desse quadro, o consenso do mercado se fragmentou, e o BC vê ameaçado seu "plano de voo" de redução da taxa Selic, traçado em janeiro. Veja os principais cenários estimados por analistas de mercado:
Manutenção dos juros em 15%
Cenário defendido principalmente pela XP Investimentos. Caio Megale, economista-chefe da corretora, argumenta que o cenário esperado em janeiro não se confirmou e que o Banco Central deveria adotar uma postura de "esperar para ver". Para ele, o salto no petróleo é um "relevante choque negativo de oferta sobre uma economia sem capacidade ociosa".
Corte de 0,25 p.p.
Tornou-se a aposta majoritária de instituições como Itaú, BTG Pactual e da Associação Nacional das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, afirma que a conjuntura requer um ajuste "mais comedido".
Fernando Honorato, coordenador do grupo consultivo macroeconômico da Anbima, vê espaço para um corte inicial modesto, dado que a atividade ainda dá sinais de desaceleração gradual.
Corte mais expressivo
Bradesco e Warren Rena ainda mantêm essa projeção, embora reconheçam o aumento da probabilidade de um passo mais cauteloso. Luis Felipe Vital, estrategista da Warren Rena, sustenta que a Selic em 15% é "inquestionavelmente restritiva" e que o BC tem espaço para iniciar o ajuste.
Mateus Ozinholi, economista da equipe de macroeconomia do Safra, aponta que: "o cenário não evoluiu exatamente como o Banco Central achava". "Então o BC pode usar isso para falar: 'Olha, o plano era tal, agora eu vou reduzir mais devagar'", diz.
O cenário que dificulta a queda da taxa Selic
A escalada do conflito no Irã elevou os preços do petróleo e levou o Brent acima de US$ 100 por barril, com o fechamento do Estreito de Ormuz.
No Brasil, o impacto chega ao frete. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel e a gasolina estão cerca de 47% e 42% abaixo dos preços internacionais, respectivamente — o que pode pressionar reajustes. O frete pode subir até 15%, com efeito sobre os alimentos.
Ao mesmo tempo, o choque externo encontra uma economia aquecida. Medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o reajuste do salário mínimo impulsionaram o consumo em um cenário de baixa ociosidade. O IBC-Br avançou 0,78% em janeiro, e o mercado projeta crescimento forte no primeiro trimestre.
Esse ambiente dificulta o controle da inflação. O IPCA, índice oficial de inflação, subiu 0,70% em fevereiro, acima do esperado, e os núcleos voltaram a acelerar. As projeções para 2026 também avançaram e já superam o teto da meta.
Medidas para conter o impacto dos combustíveis, como o subsídio ao diesel, ajudam a suavizar a inflação no curto prazo, mas mantêm a demanda aquecida e reduzem o espaço para queda dos juros.
É nesse cenário, de inflação pressionada e economia aquecida, que o Banco Central tende a, segundo analistas, manter a Selic elevada por mais tempo do que o mercado previa.
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