
Apenas 30 quilômetros separam os municípios de Araucária e Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Em comum, as cidades dividem os 120 anos de história completados no início de 2010 e a localização geográfica, na área que concentra quase a metade das riquezas produzidas no Paraná. As semelhanças, no entanto, acabam por aí. Apesar da proximidade, um abismo separa os dois municípios, que representam os extremos opostos do desenvolvimento econômico paranaense. Araucária é a cidade com o maior PIB per capita do estado, com R$ 86.736, valor cerca de 20 vezes maior que o da vizinha Piraquara, que detém o pior valor dentre os 399 municípios do Paraná: R$ 4.423. Essa disparidade reflete um problema crônico do desenvolvimento econômico brasileiro: a concentração da atividade econômica em poucos centros urbanos, o que aprofunda as desigualdades regionais. No caso paranaense, o fenômeno é reflexo de mais de duas décadas de políticas governamentais que, através de incentivos fiscais, estimulou a instalação de indústrias em algumas cidades em detrimento de outras.
"Com isso, as cidades que não contavam com uma boa infraestrutura nem mão de obra especializada acabaram ficando de fora do ciclo do desenvolvimento", explica a professora de Desenvolvimento Econômico e Economia Paranaense da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Raquel Virmond Rauen Dalla Vecchia.
Com um parque industrial altamente desenvolvido que se destaca como importante polo petroquímico, siderúrgico e metal-mecânico, Araucária ocupa a 13ª posição no ranking de cidades com maior PIB per capita do país. Sozinha, a cidade contribui com 0,36% da produção anual de riquezas brasileiras. Uma das principais responsáveis por esse desempenho é a Refinaria Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, sediada no município.
Morador de Wenceslau Braz, município do Norte Pioneiro, o montador industrial Maurício de Jesus chegou a Araucária na última semana trazendo nas mãos uma mochila com algumas peças de roupa, a carteira de trabalho e a certeza de que arrumaria um emprego. Essa é a terceira vez que ele chega à cidade para trabalhar. "Na minha região não tem empresa grande, então tenho que vir para onde estão as oportunidades", diz. Com dez anos de experiência na área de montagem, Jesus começará a trabalhar logo depois do carnaval nas obras de ampliação da Repar, e deve receber um salário de R$ 1,4 mil. Parte do dinheiro deve circular na economia local para cobrir seus custos com alimentação e alojamento; o restante será enviado para sustentar sua mulher e a filha de 4 anos em Wenceslau Braz. "Aqui é bom para trabalhar e sempre tem emprego. Dá para juntar um dinheirinho e voltar para casa", diz. Piraquara depende de repasses
Piraquara, município com o menor PIB per capita do estado, sobrevive com um parque industrial pequeno, com empresas concentradas em atividades de baixo valor agregado, como mineração, madeira, mobiliário e gráfica. Questões ambientais limitam a instalação de novos empreendimentos, prejudicando a atração de investimentos. Isso cria uma situação de dependência econômica. Hoje, cerca de 70% dos recursos da cidade vêm de repasses federais com o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e do repasse do ICMS pelo governo estadual.
O IPTU, que poderia gerar recursos para a prefeitura, tem um índice de inadimplência de quase 60%. Isso porque boa parte da população da cidade mora no bairro Guarituba, um bolsão de pobreza considerado a maior área de invasão do Paraná. E é a construção de 800 casas populares no Guarituba que tem criado vagas de trabalho. Foi ali que o servente de pedreiro Cristiano do Rosário Vieira conseguiu um emprego.
Morador do bairro, ele conta que vinha trabalhando "por conta" em reformas de casas de veraneio no litoral paranaense. Na última segunda-feira, no entanto, conseguiu um emprego com carteira assinada na obra. O salário é o piso da categoria: R$ 653,40, mais um auxílio alimentação de R$ 140 por mês. É com esse dinheiro que Vieira vai manter a esposa e três filhos.
Como mora próximo à obra, ele vai ao trabalho de bicicleta para economizar o dinheiro do vale-transporte R$ 39,20 por mês , e complementar a renda. "Não é muito, mas dá um troquinho", afirma. Questionado se deixaria Piraquara em busca de uma oportunidade em outras cidades, ele diz que não. "A situação já foi pior, mas de uns tempos para cá melhorou um pouco. Hoje tem escola para as crianças, tem postinho de saúde. Dá pra ir tocando a vida", garante.
Colaborou Carla Bueno Comarella




