
Um investidor que tivesse colocado R$ 100 em um fundo que segue a valorização do Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) no fim de outubro do ano passado, teria hoje R$ 220. Valor semelhante ao que teria se tivesse comprado R$ 100 em petróleo em março deste ano. Se tivesse feito o mesmo com o Dow Jones, índice da Bolsa de Nova Iorque, em março, teria no bolso R$ 150. Esses exemplos de recuperação rápida dos mercados são, para alguns analistas, sinais de que os preços dos ativos subiram muito mais do que sustenta a fragilizada economia real.Quem vê excessos nos índices de ações e nos preços de commodities tem como principal argumento a previsão de que o crescimento das economias avançadas será lento, acompanhado de desemprego alto e de uma combinação de contas públicas deterioradas e pressões inflacionárias que terá efeitos imprevisíveis. No jargão econômico anglo-saxão, esses analistas são chamados de "ursos" na Bolsa de Londres já no século 19 se usava o termo "bear market" (mercado urso, em uma tradução livre) para descrever momentos de queda acentuada nos preços das ações, aparentemente em referência a um ditado que dizia que não se pode contar com a pele do animal antes de pegá-lo.Na semana passada, o economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova Iorque, um conhecido "urso", deu entrevistas em que chamou a atenção para o fato de as economias dos países ricos, em especial Estados Unidos e Inglaterra, estarem longe de ga- nhar velocidade. Para ele, os consumidores vão continuar reduzindo as compras para economizar e pagar as contas acumuladas durante os anos de bolha imobiliária. Sua opinião é compartilhada por outros pessimistas, entre eles o estrategista do banco Société Générale, Albert Edwards, para quem os preços saíram da realidade.A visão dos "ursos" contrasta com a euforia dos "touros" animal que simboliza os mercados em alta em uma discussão crucial para quem quer entender o rumo da economia. Há otimismo exagerado, ou a recuperação é de fato vigorosa? "Os sinais ainda estão misturados", diz o economista Ricardo Almeida, professor do Laboratório de Finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA). "Se houve operações eufóricas nas últimas semanas, elas vão levar a uma nova onda de desvalorização de ativos. Vamos conferir isso logo que os juros começarem a subir, provavelmente no começo de 2010."
A elevação dos juros pode revelar altas excessivas porque hoje há bilhões de dólares girando na economia global em busca de retorno maior do que o permitido por aplicações conservadoras, como os títulos do governo dos EUA. Taxas mais altas tirariam fôlego de aplicações de risco. A Bovespa foi um dos destinos preferidos dessa liquidez e seu principal índice dobrou de valor desde que chegou ao fundo do poço, há quase um ano.
Para a economista Ana Paula Mussi Cherobim, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Ibovespa subiu mais rápido do que o esperado. "Provavelmente estamos em um momento de euforia. Ainda não se sabe se os fundamentos, como crescimento do PIB e da indústria, estão consolidados para manter essa valorização", explica. Uma correção no rumo da bolsa, portanto, não pode ser descartada.
Rogério Betti, sócio da consultoria Beta Advisors, é mais otimista. Ele diz que os preços dos ativos estão subindo com base em um cenário provável de crescimento global de 4% no ano que vem. "É claro que há riscos, como o desemprego alto nos EUA e a possibilidade de haver inflação mais à frente. Mas temos de levar em conta também que os emergentes, como China e Brasil, estão se saindo muito bem", comenta. Para Betti, não existe uma bolha na Bovespa, embora os preços estejam altos, e os materiais básicos, como minérios e alimentos, têm espaço para subir.
"Houve uma recuperação rápida, puxada por uma demanda real. Vale lembrar que os preços das commodities ainda não voltaram para perto da máxima que ocorreu antes da crise e o mesmo vale para as ações", destaca Wagner Salaverry, sócio-diretor do Banco Geração Futuro de Investimentos. Segundo ele, a demanda chinesa e o mercado interno do Brasil têm dado força para previsões mais otimistas, pelo menos para a bolsa e os produtos exportados pelas empresas brasileiras. "Não podemos dizer que estamos desconectados do que acontece nas economias desenvolvidas, mas é fato que estamos melhores neste momento", diz.



