Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Mercado de trabalho

Boa notícia para Venezuela pode virar dor de cabeça para frigoríficos brasileiros

Fila de imigrantes venezuelanos entrando no Brasil pela fronteira de Pacaraima, em Roraima, atendidos pela Operação Acolhida.
Porta de entrada: os imigrantes que cruzaram a fronteira em Roraima (foto) foram essenciais para suprir a escassez de mão de obra nos frigoríficos do Sul, que agora temem o fluxo reverso (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

A possibilidade de mudança de regime na Venezuela, a partir da captura do ditador Nicolás Maduro no sábado (3) por tropas de elite norte-americanas e com a apresentação de um plano de transição rumo a um regime democrático, coloca a indústria brasileira de proteína animal em alerta.

Mais de 7 mil venezuelanos trabalham hoje em frigoríficos no país — 19% de toda a mão de obra imigrante venezuelana empregada formalmente no Brasil. Se retornarem, deixarão vagas abertas em um setor que já sofre com escassez de trabalhadores e enfrenta demanda recorde da China.

Desses trabalhadores, 4 mil atuam no abate de aves, 2,2 mil em frigoríficos de suínos e 1 mil no processamento de bovinos, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). A concentração é maior justamente nos segmentos que mais exportam para a China e enfrentam dificuldades crônicas de contratação.

VEJA TAMBÉM:

Exportações em alta e risco de apagão de mão de obra

O momento não poderia ser mais crítico. Com a desqualificação de centenas de frigoríficos americanos para exportar à China em 2025, o Brasil ampliou sua participação no mercado asiático e já fornece mais da metade de toda a carne bovina importada pelo país.

As exportações de carne e miudezas para a China foram de US$ 9,8 bilhões no ano passado, 25,8% a mais do que em 2024 — interrompendo dois anos de quedas e marcando o segundo melhor desempenho da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

"Novos produtos aprovados, como pato, peru e miúdos de frango, podem gerar receitas adicionais superiores a R$ 1 bilhão", afirma Theo Paul Santana, especialista em negócios Brasil-China e fundador da consultoria Destino China.

Franciele Pompeo de Mattos, da Fundação Gaúcha do Trabalho e da Ação Social (FGTAS), que auxilia na contratação de imigrantes venezuelanos no Rio Grande do Sul, alerta para o risco. "Se muitos desses trabalhadores retornarem à Venezuela, a indústria enfrentará dificuldades sérias. Já há vagas sem preencher", afirma.

Segundo Franciele, os venezuelanos se concentram nas regiões onde estão os frigoríficos gaúchos e têm rotatividade menor que os brasileiros, o que reduz custos das empresas com recrutamento e treinamento. A eventual saída em massa desses profissionais forçaria o setor a buscar substitutos em um mercado já escasso.

Sul concentra 73% das vagas ocupadas por venezuelanos

O Rio Grande do Sul não é exceção. A região Sul concentra o maior número de vagas ocupadas por venezuelanos no Brasil: dos 38 mil postos de trabalho criados para essa mão de obra entre janeiro e novembro de 2025, cerca de 28 mil estão nos três estados do Sul — 73% do total.

Santa Catarina lidera, com 11,7 mil vagas, seguida pelo Paraná, com 10 mil, e pelo Rio Grande do Sul, com 6 mil. Embora os frigoríficos concentrem a maior parte da mão de obra venezuelana, outros setores também dependem desses profissionais. Há 3,2 mil venezuelanos empregados em supermercados e hipermercados, 1,3 mil na construção de edifícios e 902 em restaurantes — setores que, como a indústria de abate, enfrentam dificuldades crônicas de contratação.

Operação Acolhida e a interiorização

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), há cerca de 700 mil venezuelanos vivendo no Brasil atualmente. Desse total, 155 mil foram interiorizados pela Operação Acolhida — programa do governo federal que identifica e realoca migrantes que entram pela fronteira com Roraima — e estão espalhados por mais de 1.100 municípios brasileiros.

A região Sul também concentra a maior parte dos interiorizados: Santa Catarina recebeu 34,3 mil venezuelanos, o Paraná, 29,7 mil, e o Rio Grande do Sul, 23,5 mil — juntos, 87,5 mil ou 56% do total.

Entre as cidades, Curitiba (PR) é a que mais conta com venezuelanos interiorizados — 8,9 mil —, seguida por São Paulo (SP), com 6,2 mil, e Chapecó (SC), com 6,1 mil.

Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida do Acnur, explica que a realocação prioriza regiões com ofertas de emprego e melhores condições de acomodação, o que explica a concentração no Sul.

Qualificação desperdiçada e oportunidades futuras

Apesar da importância para a indústria, muitos venezuelanos estão subaproveitados. Paulo Sérgio Almeida, do Acnur, afirma que profissionais com formação superior — engenheiros, contadores, médicos — frequentemente ocupam cargos operacionais em frigoríficos e na construção civil. "Isso se deve ao gargalo na validação de diplomas e currículos de migrantes que entram no Brasil", explica.

Theo Paul Santana, da Destino China, vê oportunidade nessa qualificação desperdiçada. "As empresas brasileiras que souberem integrar esses profissionais terão acesso a talentos com conhecimento de mercado venezuelano e domínio do espanhol", afirma. Segundo ele, isso será especialmente valioso se companhias nacionais participarem da eventual reconstrução da economia venezuelana — em setores como petróleo e infraestrutura.

Incerteza e busca por estabilidade

Por enquanto, a maioria dos venezuelanos não planeja retornar. Pompeo, da FGTAS, explica que a busca por estabilidade é forte: muitos trazem familiares da Venezuela depois de se firmarem no Brasil e preferem empregos formais com carteira assinada. "A incerteza sobre os rumos do país ainda é dominante. Ainda é cedo para pensarem em voltar", afirma.

Almeida, do Acnur, reforça: "A experiência mostra que esses profissionais têm menor rotatividade que os brasileiros, justamente pela busca de segurança e permanência". Empresas que colaboram com a Acnur relatam que venezuelanos permanecem mais tempo nos postos — o que reduz custos com recrutamento e treinamento.

Mas o risco existe. Se a transição política na Venezuela se consolidar e a economia se estabilizar, o retorno pode se tornar atraente — especialmente para profissionais qualificados que hoje trabalham abaixo de sua formação. Para a indústria brasileira, que já enfrenta escassez de mão de obra e demanda crescente, a boa notícia para a Venezuela poderia, de fato, virar dor de cabeça.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.