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entrevista

Abaixo as provas: exames não devem ser base da avaliação, diz educador finlandês

Em entrevista à Gazeta do Povo, Lauri Tuomi fala sobre as lições do modelo finlandês que podem inspirar mudanças globais na educação

  • Andressa Muniz, especial para a Gazeta do Povo
Lauri Tuomi e Viviane Senna durante assinatura de acordo entre a Finlândia e o Instituto Ayrton Senna. | Ricardo Matsukawa
Lauri Tuomi e Viviane Senna durante assinatura de acordo entre a Finlândia e o Instituto Ayrton Senna. Ricardo Matsukawa
 
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Colocar o estudante no centro da experiência educacional e pensar no currículo escolar para atender as necessidades de desenvolvimento dos alunos são o eixo central de inovações que garantem à Finlândia posição de destaque na educação mundial. 

Na vanguarda dessas inovações, Lauri Tuomi, diretor de programas na Agência Nacional de Educação Finlandesa, Education Finland, defende mudanças no padrão de avaliação de alunos, reestruturação da arquitetura das escolas e a adoção de um modelo de educação holística para melhor aproveitar o potencial de cada estudante. 

Tuomi esteve no Brasil em maio para um ciclo de debates sobre o tema, realizado pela Fundação Itaú Social e pelo Instituto Ayrton Senna, e para assinar, como representante da Finlândia, um acordo com o próprio Instituto Ayrton Senna que visa à adoção de práticas inovadoras na educação, especialmente relacionadas ao treinamento de educadores e implementação de novas tecnologias educacionais. 

Em entrevista à Gazeta do Povo, Tuomi fala sobre as lições do modelo finlandês que podem inspirar mudanças globais. 

A Finlândia é um dos países líderes nos rankings do Pisa e seu sistema educacional é considerado um modelo de sucesso. Você acha que esse tipo de avaliação influencia seu sistema educacional? Até que ponto orienta políticas e mudanças em seu país? 

Em geral, é importante participar dos esforços internacionais para o desenvolvimento do sistema educacional em seu próprio país, mas também internacionalmente. O PISA é provavelmente o melhor ranking e, claro, seus resultados são seguidos na Finlândia.

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No entanto, é importante não confiar apenas em uma classificação, mas criar o sistema nacional de garantia da qualidade e também acompanhar os resultados educacionais – e combinar os resultados das diferentes avaliações para a base da discussão política. Portanto, o PISA tem seu efeito na discussão política, mas é importante conhecer as limitações (por exemplo, o foco e a faixa etária do PISA) e, assim, colocá-lo em seu contexto.  

Provas e exames são o padrão para avaliações de estudantes na maioria dos países, apesar das limitações desse modelo. Como as avaliações devem mudar para uma melhor aferição da aprendizagem? 

Na Finlândia, provas não são a base da avaliação. Provas contínuas podem até impedir o aprendizado sustentável e a inspiração para o aprendizado. Nosso foco está em mais do que os conteúdos. 

A avaliação e provas devem ser repensadas – o processo de aprendizagem também deve ser avaliado, para entender como alunos aprendem e como professores são capazes de apoiar a aprendizagem individual dos alunos. O aspecto individual é mais importante do que classificar os alunos.  

A Finlândia adota um modelo de educação holística. Como esse modelo funciona? Quais são os benefícios para o desenvolvimento do aluno? 

Sim, o modelo holístico é implementado em nossa educação. Por exemplo, a visão da Agência Nacional Finlandesa de Educação afirma: “Todos podem crescer para o seu próprio potencial”. Isso significa que necessidades individuais são levadas em conta na educação e, também, a escola é mais como uma comunidade na qual as partes interessadas têm um papel específico no fornecimento de oportunidades de aprendizagem, inclusive fora das salas de aula. 

Além disso, em nosso currículo nacional, apresentamos várias competências para as habilidades do século XXI. Estas são competências de base ampla que apoiam o crescimento de todos os alunos para a cidadania e para o seu próprio potencial.  

Até onde a visão holística é aplicada na gestão escolar? Quais são os papéis dos pais, alunos e comunidade para a gestão escolar? 

As escolas são incentivadas a criarem suas próprias comunidades. Hoje, por exemplo, incentivamos elas a abrirem suas portas para inovar com empresários, startups e empresas, a fim de criar algo novo juntos (principalmente soluções de tecnologia educacional: robótica, 3D, realidade virtual imersiva, etc.). 

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Em relação aos pais, eles têm um papel específico: as escolas ouvem e colaboram de perto com as associações de pais. No ensino médio, é claro, as associações e comunidades estudantis têm seu papel específico. 

A abordagem participativa também é apoiada por ferramentas digitais, proporcionando oportunidades para a comunidade participar, por exemplo, do desenvolvimento de currículos em nível de escola ou de município – de vez em quando também em nível nacional.  

A Finlândia passa por um período de mudança na arquitetura das escolas e no layout das salas de aula. Quais são essas mudanças e como elas pretendem melhorar o aprendizado? No caso de salas de aula tradicionais com lousa e escrivaninhas, como elas podem se tornar ambientes mais favoráveis ao aprendizado? 

Este é um tópico muito importante – um dos meus favoritos. O espaço é importante. A arquitetura da escola passou por uma mudança drástica durante as últimas décadas na Finlândia. A ideia de comunidade é aplicada no design mais recente: os edifícios escolares não são mais entidades separadas, mas podem envolver muitas atividades comunitárias (biblioteca, educação da primeira infância e de idosos, etc.). 

É bom que o ambiente de aprendizagem seja projetado pedagogicamente e leve em conta as necessidades de diferentes alunos. A escola deve ser vista como um espaço virtual e social de apoio aos currículos – ou seja, a aprendizagem de todos os indivíduos e o trabalho dos professores e de todos os funcionários. 

Tecnicamente, é importante ter em conta todos os elementos que suportam a aprendizagem: ar fresco e saudável, cores, luz.  

Com mais e mais novas tecnologias no cotidiano dos alunos, surge a necessidade de uma educação para a era digital. Existem etapas específicas necessárias para isso? Como as escolas podem incorporar isso no currículo? 

O multiletramento e a digitalização são mencionados como competências do século XXI nos currículos comuns finlandeses. É importante que as novas tecnologias sejam implementadas na educação – para todas as disciplinas. 

Para promover a digitalização, é necessária a colaboração mencionada anteriormente com empresas de tecnologia educacional. Mas isso não é suficiente. Os professores precisam de apoio. Portanto, na Finlândia, o governo declarou que cada escola precisa nomear um a dois professores como “tutores digitais”. 

A aprendizagem entre pares é vista como a solução para a mudança da cultura de trabalho nas escolas. Estes tutores digitais receberam recursos adicionais e formação para a função. A digitalização abrange diferentes níveis: de aplicações específicas individuais ou jogos à administração escolar e apoio aos professores e diretores – bem como às autoridades educacionais.  

Considerando a incompatibilidade entre o modelo educacional e as necessidades dos alunos de hoje, quais são os desafios principais para a modernização das escolas? Como deve ser a escola de hoje e como será a escola do futuro? 

A mudança fundamental é a mudança contínua e rápida do conhecimento. A digitalização desafia todos os aspectos da vida. O trabalho como tal precisa ser redefinido. Os desafios do nosso mundo precisam ser resolvidos. E assim por diante... 

A questão da escola do futuro é importante. E, provavelmente, ninguém tem uma resposta clara. Assim, o desenvolvimento contínuo, a interação contínua é necessária no nível da escola. O papel dos professores não é mais apenas ensinar, mas guiar os caminhos de aprendizagem de cada aluno e ser um participante ativo das comunidades escolares. 

Este é um desafio para as autoridades escolares e governos: como manter vivo o fluxo contínuo da orientação futura. Uma das respostas é a capacidade de orientar os processos de reformas educacionais. Temos sido bastante ativos em assegurar que as reformas sejam ativamente discutidas à luz dos cenários futuros – e que as reformas tenham sido totalmente implementadas na prática.  

Qual o papel do professor nesse cenário de mudanças? Como deve mudar o treinamento de professores para alcançar essas novas demandas do século XXI? 

O professor é um desenvolvedor ativo de uma comunidade escolar. O professor é um guia para o caminho de aprendizado de todos os alunos, a fim de garantir que ele cresça em seu potencial. Para garantir isso, os diretores também precisam garantir suas habilidades e competências para liderar e administrar a escola de maneira sustentável e orientada para o futuro.

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