
Oferecer R$ 50 em vale-presente para alunos assistirem a aulas de reforço é o caminho para o sistema educacional brasileiro? Inspirada na cultura da recompensa, a proposta surgiu no estado de São Paulo, gerou polêmica e acabou engavetada temporariamente. Porém, não deixou de instalar um debate no meio educacional.
Considerado uma forma de incentivo aos alunos com baixo desempenho escolar, o projeto do vale-presente, que faz parte de um programa chamado Multiplicando o Saber, visa oferecer bolsas de R$ 50 para estudantes do ensino fundamental, da 6.ª e 7.ª séries, frequentarem aulas de reforço da disciplina de Matemática. As aulas seriam ministradas por alunos do 2.º e do 3.º anos do ensino médio, com desempenho excelente na disciplina, que receberiam R$ 115 pela atividade. O vale teria de ser trocado por cadernos, livros, CDs ou materiais semelhantes.
O projeto é resultado da parceria da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Os investimentos previstos são de US$ 663 mil (cerca de R$ 1,1 milhão), dos quais US$ 130 mil da Secretaria de Educação, US$ 200 mil do BID e US$ 333 mil de outros parceiros.
Formatada e lançada no início de agosto, a proposta gerou reações entre educadores. Menos de uma semana após o projeto ser lançado, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo resolveu suspendê-lo para o início do ano letivo de 2011, sob alegação de que é preciso discutir a ideia junto à comunidade acadêmica e à população.
As críticas
Uma das entidades já consultadas, o Sindicato de Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), desaprova a iniciativa. Para a presidente da entidade, Maria Izabel Azevedo Noronha, o projeto poderia surtir efeito contrário por desestimular o aluno a estudar. "Ele pode pensar em ficar de recuperação porque ganha R$ 50." Para a professora isso poderia até criar um sentimento de chantagem nas escolas. Outro ponto do projeto criticado pela presidente da Apeoesp é em relação aos efeitos. Para ela, a proposta não ataca a estrutura do problema pelo qual a educação passa hoje, ou seja, professores mal remunerados e salas de aulas superlotadas.
Pró-diretora de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão do Grupo Uninter, a professora-doutora Shiderlene de Almeida critica vários pontos do projeto. O primeiro deles é a limitação à disciplina de Matemática. Segundo ela, seria preciso pensar não apenas nessa disciplina, mas também em outras pelo fato de hoje se falar muito em interdisciplinaridade nas escolas. Ela também questiona a necessidade de remuneração.
Para a professora, a escola deveria ser local de educação integral, que envolveria não só o aluno, mas também a família. "Se a família não está envolvida, não adianta só colocar a criança para fazer aula de reforço. A família é essencial e precisa estar presente. Só o dinheiro não vai sanar as dificuldades de aprendizagem, pode ser uma solução paliativa", afirma.
A professora cita um projeto de pesquisa na área de psicopedagogia desenvolvido por meio de parceria entre o Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão, o Instituto Pelé Pequeno Príncipe e a prefeitura de Curitiba. Cerca de 60 crianças de 7 a 12 anos da rede municipal frequentam de forma voluntária, uma vez por semana, oficinas psicopedagógicas, com base interdisciplinar na leitura, escrita e Matemática, que também priorizam o envolvimento dos pais. Atividades também são propostas para os alunos fazerem em casa. "Geralmente eles tomam consciência que os filhos precisam de ajuda", diz Shiderlene. São cedidos apenas vales-transportes e lanches.



