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Inovação

Brasileiro entra para uma ‘universidade dos sonhos’

Programa norte-americano que mistura ensino a distância e intercâmbio promete, com o tempo, revolucionar o ensino superior no mundo

Guilherme Nazareth de Souza, 19 anos, é o primeiro brasileiro no programa | Lauro Alves/Agência RBS
Guilherme Nazareth de Souza, 19 anos, é o primeiro brasileiro no programa (Foto: Lauro Alves/Agência RBS)

A sala de aula é virtual: está na tela de um computador instalado no quarto. Os professores não ficam falando por horas enquanto os alunos, em silêncio, absorvem (ou não) o conteúdo. As provas não são o principal método de avaliação. Para completar, a cada semestre, os estudantes mudam de país. São predicados como esses que deram ao projeto Minerva – modelo norte-americano de reinvenção do ensino superior – o carinhoso apelido de "universidade dos sonhos".

A aprovação de um jovem gaúcho – o único brasileiro, aliás – na turma inaugural, cujas aulas começaram no mês passado, na Califórnia, assopra aos vestibulandos a ideia de que chegar lá não é impossível. Fácil também não é: o processo seletivo pelo qual passou Guilherme Nazareth de Souza, 19 anos, é no mínimo duas vezes mais concorrido que os das universidades norte-americanas tradicionais, como Harvard. A Minerva aprovou, neste ano, apenas 2,5% dos inscritos (de 1.794 candidatos, apenas 44 foram aceitos – 33 se matricularam), enquanto em Stanford, outra reconhecida instituição de ensino nos Estados Unidos, este porcentual fica entre 5% e 7%.

Guilherme e seus colegas, representantes de 13 países, estreiam uma experiência de ensino considerada promissora. A Universidade Minerva, reconhecida pelo governo norte-americano, pretende remodelar o jeito de formar seus alunos – a começar pelas salas de aula, inexistentes.

Os universitários acompanham as atividades letivas em tempo real, a partir de computadores, microfones e webcams instalados nos próprios quartos. Parece confortável, mas exige atenção: para além das provas de fim de semestre, o aluno é constantemente avaliado pela sua participação nos debates. Na Minerva, o aluno recebe nota não só pelo que argumentou nas discussões, mas também pela maneira como se expressou.

"As aulas são conduzidas a partir de uma plataforma digital e interativa, concebida para maximizar as interações entre alunos e professores. O software disponibiliza à faculdade todas as participações do estudante, permitindo um retorno mais rápido sobre seu aproveitamento", explica o diretor da Minerva na América Latina, Alex Aberg Cobo.

Líderes

O currículo da Uni­ver­sidade é baseado em exercícios de motivação e memória. De acordo com Cobo, o processo de aprendizagem inclui ensinar o aluno a desenvolver "hábitos mentais" que vão capacitá-lo a encarar desafios futuros.

Em resumo, a ideia é transformá-los em líderes – pessoas inovadoras, que "pensam fora da caixa" (diz o diretor que são essas as habilidades mais requeridas pelos empregadores da atualidade). E como isso não aconteceria se eles vissem a vida passar apenas pela janela do dormitório estudantil, a Minerva elaborou a melhor parte do seu plano de ensino, aquela que a maioria dos jovens em idade universitária imagina como ideal: viajar pelo mundo estudando.

Mais em conta que as escolas consagradas

Depois de um ano em San Francisco, onde transcorre a primeira parte do curso, os "minérvicos" vão mudar de país seis vezes em três anos – um destino por semestre. Outros destinos ainda estão incertos (cogita-se Hong Kong, Mumbai, Londres e Nova York), mas Guilherme, aprovado no curso de Economia e Matemática, já sabe que terá de levar mala e cuia para Buenos Aires, na Argentina, e Berlim, capital alem㠖 expectativas no céu para um guri que nunca havia morado fora do Brasil antes de partir para os Estados Unidos.

– Estudar dentro de realidades socioeconômicas tão diferentes é muito interessante. Espero que isso contribua para que a gente desenvolva uma visão mais global das coisas – afirma o jovem, que, assim como todas as "cobaias", vai receber bolsa integral de estudos durante o primeiro ano, cerca de R$ 50 mil, o que inclui as quatro taxas anuais do curso e garante, durante um ano, hospedagem e alimentação.

Aliás, como a Universidade Minerva não tem uma grande estrutura física, o custo para os alunos das próximas turmas, caso não obtenham bolsa, é quase 60% menor do que o cobrado nas típicas instituições universitárias americanas, que dispõem de campi megalomaníacos com centenas de salas de aula e dezenas de quadras esportivas.

Da UFRGS para San Francisco

Guilherme Nazareth de Souza sempre foi estimulado pelos pais a estudar no exterior, mas, ao ser aprovado no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2013, acabou gostando da ideia de cursar a graduação em Ciências Econômicas no Brasil. Já nos primeiros dias de aula, no entanto, sentiu que não se adaptaria à faculdade.

"Eu estava sendo muito pouco exigido. Havia muitas aulas de recapitulação de conteúdos que todo mundo já deveria saber. Perdia-se muito tempo", lembra.

Decidiu trancar a matrícula e se dedicar à seleção na Minerva, cujos processos de admissão passam longe do simples: preenchimento de formulário, análise de notas do período escolar, observação de atividades extraclasse (trabalho voluntário e participação em olimpíadas, por exemplo), teste de QI, provas de matemática, proficiência em inglês e, por fim (ufa!), entrevista.

Uma das vantagens que Guilherme vê no modelo proposto pela universidade norte-americana é a multilateralidade, ao incentivar as trocas de ideias entre professores e alunos e entre os próprios estudantes. Monólogo de professor não tem vez.

"O estudante é questionado a todo momento sobre o tema da discussão. Na Minerva as leituras devem ser feitas antes da aula, para que a gente esteja mais bem preparado", relata.

Outro ponto que ele destaca é o fato de a instituição ser muito amigável a estudantes internacionais: 70% dos alunos são estrangeiros (em outras universidades dos Estados Unidos, como a Ivy League, esse índice é de 10%). Colocar em contato diferentes realidades e culturas faz parte do conceito da Minerva, conforme explica o diretor Alex Cobo. "Além dos seis intercâmbios, essa convivência heterogênea também contribui para que os jovens ampliem sua visão de mundo."

Desenvolver a capacidade de análise crítica nos alunos, estimulando o pensamento criativo e as habilidades de comunicação, é uma estratégia para posicioná-los em um mercado de trabalho que, ao apontar para o futuro, ainda é um pouco incerto: de acordo com Cobo, pesquisas sinalizam que 65% dos estudantes, quando se formarem, irão exercer funções que hoje não existem.

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