| Reprodução / Unsplash
| Foto: Reprodução / Unsplash

As ações afirmativas que já se apoderaram das ciências humanas e sociais nos campi americanos agora estão tomando conta das ciências exatas. Os cursos “STEM” – sigla em inglês para ScienceTechnologyEngineeringMathematics (ciências, tecnologia, engenharia e matemática) – estão sob ataque por serem insuficientemente “diversos”. 

A pressão para aumentar a representatividade de mulheres, negros e hispânicos vem do Governo Federal, dos administradores das universidades e das próprias sociedades científicas. Essa pressão está mudando a forma como a ciência é ensinada e como as qualificações científicas são avaliadas. Os resultados serão desastrosos para a inovação científica e para a competitividade americana.

Um cientista da Universidade da California em Los Angeles relata: “Em todo o país, a grande questão agora nos STEM é: como podemos promover mais minorias ‘mudando’ (isto é, diminuindo) as exigências que tínhamos estabelecido para estudos de nível universitário?”. 

Leia também: ‘Horóscopo para combater o machismo’: pegadinha revela falta de rigor dos estudos acadêmicos

A resolução de problemas matemáticos está sendo relegada em favor de projetos de grupo mais qualitativos; o ritmo do ensino de física na graduação está sendo diminuído para que ninguém seja deixado para trás. 

A Fundação Nacional de Ciência (NSF), uma agência federal que financia pesquisas universitárias, está consumida pela ideologia da diversidade. O progresso na ciência, argumenta a agência, requer uma “força de trabalho diversa nos STEM”. 

Programas para aumentar a diversidade nos STEM fazem os cofres da Fundação vazarem em abundância. A NSF iniciou a “indústria da parcialidade implícita” nos anos 90 ao garantir o desenvolvimento do teste de associação implícita (IAT). 

(O IAT pretende revelar a parcialidade inconsciente de um sujeito medindo a velocidade com que ele associa rostos das minorias com palavras positivas ou negativas). 

Desde então, a NSF continua despejando milhões de dólares em ativismo sobre parcialidade implícita. Em julho de 2017, concedeu um milhão de dólares para a Universidade de New Hampshire e para outras duas instituições para desenvolver uma “ferramenta de intervenção na conscientização da parcialidade”. Outros dois milhões no mesmo mês foram para o Departamento de Engenharia Aeroespacial da Universidade Texas A&M para “remediar micro agressões e parcialidades implícitas” em salas de aula de Engenharia. 

A iniciativa com a denominação tortuosa de “Inclusão de comunidades de aprendizes de descobridores sub-representados na Engenharia e na Ciência em todo o país” (conhecida pela sigla INCLUDES) banca “pesquisas fundamentais na ciência de ampla participação”. 

Não existe tal “ciência”, apenas um enorme gasto de recursos que evita os problemas fundamentais de habilidades básicas e de atitudes com relação a conquistas acadêmicas. Um típico subsídio do INCLUDES, de outubro de 2017, direcionou 300 mil dólares para aumentar o envolvimento nativo americano em matemática ao incorporar “sistemas de conhecimento indígena” nos Círculos Matemáticos da Nação Navajo (povo indígena da América do Norte). 

Leia também: Bolsonaro ‘dá cartão vermelho’ a chefe do Enem

A iniciativa INCLUDES já gerou o seu próprio empreendimento parasita, o “Subsídios de Conceito Inicial para Pesquisa Exploratória” (cuja sigla é EAGER). O propósito dos fundos do EAGER é avaliar subsídios do INCLUDES e pressionar bolsistas atuais a incorporar considerações da diversidade nas suas pesquisas. O objetivo final de tais programas é mudar a cultura dos cursos STEM para que “inclusão e igualdade” estejam no seu núcleo

De alguma forma, cientistas apoiados pela NSF conseguiram conquistar mais de 200 prêmios Nobel antes da agência perceber que o progresso científico depende da “diversidade”. Cientistas “não diversos” descobriram as partículas fundamentais da matéria e quebraram a genética dos vírus. Agora que o vitimismo acadêmico estabeleceu uma base na agência, contudo, é esperar para ver se o ritmo de tais avanços vai continuar. 

A NSF está conduzindo um estudo de meio milhão de dólares sobre “interseccionalidade” nos cursos STEM. Interseccionalidade se refere ao aumento da opressão supostamente sofrida por indivíduos que podem assinalar diversas categorias de vitimização – ser mulher, negro, e trans, por exemplo. A teoria do estudo do NSF é que tal interseccionalidade é resultado da falta de diversidade nos cursos STEM. Dois sociólogos estão pesquisando mais de dez mil cientistas e engenheiros em nove organizações profissionais sobre as “variáveis sociais e culturais” que produzem “desvantagem e marginalização” nos locais de trabalho relacionados aos STEM. 

Um dos diretores do estudo é um sociólogo da Universidade de Michigan que está se especializando em gênero e sexualidade. Erin Cech recebeu vários subsídios da NSF; sua última publicação é “Meritocratas Resistentes: O Papel da Parcialidade Explícita e da Ideologia Meritocrata na Oposição dos Seguidores de Trump aos Esforços de Justiça Social”. 

O outro pesquisador líder, Tiom Waidzunas, é um sociólogo na Universidade Temple; ele estuda as “dinâmicas de gênero e sexualidade” dentro dos STEM, e também como “cientistas vêm a conhecer, e então compreender, sexualidade e desejo sexual”. Uma pesquisa de justiça social tão politicamente constituída provavelmente não era prevista pelo Congresso em 1950 quando ele criou o NSF para “promover o progresso da ciência”. 

Leia também: Universidade no Japão prejudica mulheres no vestibular de medicina

Compulsão por diversidade na Medicina

Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) são outros financiadores da ciência que estão obcecados pela diversidade. Escolas de Medicina recebem auxílio para treinamentos do NIH para dar apoio a médicos pós-doutorandos que desejam seguir a carreira de pesquisadores em campos como oncologia e cardiologia. O NIH ameaça retirar qualquer auxílio para treinamento que solicitar renovação se a verba não tiver dado apoio a um número suficiente de “minorias sub-representadas” (URMs). 

Um problema: frequentemente não há médicos negros ou hispânicos para serem avaliados para inclusão nos auxílios de treinamento. Se houver um potencial candidato URM, os investigadores principais vão se aprofundar no arquivo dele na esperança de convencerem a si mesmos de que ele é adequadamente qualificado. No meio tempo, o doutor indiano evidentemente qualificado vai para o fim da pilha de currículos. Por enquanto, as escolas de medicina podem reivindicar argentinos e os filhos dos proprietários de plantações ganesas como minorias sub-representadas, mas se os responsáveis pelo NIH tornarem suas “métricas da diversidade” mais escrupulosas, esse aspecto da pesquisa biomédica chegará a um impasse. 

A mania de diversidade também determina a maneira com que a pesquisa médica é conduzida. O NIH tem requisitos onerosos que os testes clínicos patrocinados pelo Governo devem incluir a mesma proporção de mulheres e pacientes que pertencem às minorias como são encontrados na zona geográfica de estudo da escola de medicina. Se algumas dessas populações saírem dos testes médicos em taxas desproporcionais ou forem difíceis de recrutar, que pena. Se esses URM e cotas de matrícula de mulheres não são atingidos, a escola de medicina deve “investir esforços apropriados para corrigir os números insuficientes”, nas palavras do guia da NIH. 

Esse “esforço apropriado” pode custar uma fortuna. Escolas como a Mayo Clinic, localizada em áreas predominantemente brancas, ainda devem atingir uma cota de diversidade. Câncer de pulmão e doença da artéria coronária afetam adultos. Se um grupo de imigrantes em particular em uma área de pesquisa contém uma fatia desproporcional de pessoas jovens comparada com a população branca idosa, esse grupo de imigrantes será menos suscetível àquelas doenças dos adultos. Entretanto, pesquisadores de drogas para câncer e doenças cardíacas devem recrutar da comunidade de imigrantes um número proporcional a sua fatia da população em geral. 

Órgãos de certificação reforçam a compulsão pela diversidade. O “Conselho de Certificação para Graduação em Escolas Médicas” requer que a as escolas de medicina mantenham métricas detalhadas sobre diversidade em seus esforços para entrevistar e contratar docentes que façam parte de minorias sub-representadas. Os comitês de busca das escolas médicas passam por longas sessões de treinamento sobre parcialidade implícita e despendem uma quantidade enorme de esforços procurando por uma coisa que eles normalmente sabem que a priori não existe: candidatos a docente URM qualificados. 

A própria definição de diversidade usada pelos painéis de revisão acadêmica está se tornando cada vez mais exigente. Um painel de 2015 avaliando a força acadêmica do departamento de biologia da Universidade de San Diego State reclamou que os docentes, apesar de representarem relativamente os tradicionais “grupos desamparados”, mesmo assim falharam em refletir a “diversidade dos povos do sul da Califórnia”. O uso das redondezas de uma escola como uma referência demográfica para seus docentes é um significativo agravamento da guerra entre os “diversocratas” e os padrões acadêmicos. Naturalmente, os painéis de certificação não fizeram esforços para determinar se esses povos do sul da Califórnia – incluindo Hmong, Salvadorenhos e Somalis – estão produzindo PhDs em biologia em números proporcionais à sua população no sul da Califórnia. 

Muitas fundações privadas financiam treinamento científico apenas sobre gênero e raça; outros que financiam pesquisas básicas, como o Instituto médico Howard Hughes, mesmo assim redirecionam somas enormes para a diversidade. 

As principais sociedades científicas empurram a ideia que a parcialidade implícita está impedindo as carreiras de cientistas competitivos. Em fevereiro de 2018, Erin Cech apresentou descobertas preliminares do estudo sobre interseccionalidade da NSF no encontro anual da “Sociedade Americana para o Avanço da Ciência” (AAAS); naturalmente, esses resultados mostraram “parcialidades sistêmicas anti-LGBTQ na indústria STEM e nas universidades”. Outra sessão da AAAS abordou como a “natureza hierárquica” da ciência exacerba parcialidades de gênero e estereótipos, e pediu pela “representação igualitária de mulheres” nos STEM. 

Leia também: Quer estudar em Portugal porque não sabe inglês? Pense melhor

Instituições aparelhadas

Departamentos STEM estão criando seus próprios aplicadores internos da diversidade. A escola de engenharia da UCLA nomeou seu primeiro diretor assistente para diversidade e inclusão em 2017, apesar de já estar sujeito a enormes pressões do fantasticamente remunerado Vice Chanceler para Igualdade, Diversidade e Inclusão e de outros burocratas. “Um dos meus trabalhos”, o novo “diversocrata” da engenharia, Scorr Brandenberg, disse ao jornal dos estudantes da UCLA, é “evitar parcialidade implícita no processo de contratação”. 

A charada da ciência da diversidade desperdiça uma extraordinária quantidade de tempo e dinheiro que poderia estar indo para pesquisas básicas e suas aplicações no mundo real. Se essa fosse sua única consequência, o custo já seria alto o suficiente. Mas as políticas de identidade agora estão alterando os padrões para a competência científica e a maneira com que os futuros cientistas são treinados. 

“Diversidade” agora é uma qualificação profissional explícita nos campos dos STEM. Uma oferta de trabalho para lecionar biologia na Universidade de Massachusetts em Amherst anuncia que, já que diversidade é “fundamental para os objetivos da universidade em alcançar excelência em todas as áreas”, o departamento de biologia avalia os candidatos “holisticamente” e “considera favoravelmente experiências em superar barreiras” – experiências presumidamente universais entre os URMs. 

O departamento de física da Universidade da Califórnia em San Diego divulgou uma vaga de professor assistente alguns anos atrás com uma “ênfase específica em contribuições para a diversidade”, como a “consciência de um candidato das desigualdades enfrentadas por grupos sub-representados”. Preocupações com a justiça social aparentemente triunfam na busca para desvendar os mistérios da energia escura. Todos os cinco candidatos na pequena lista da UC San Diego eram mulheres, o que levou um candidato homem com especialidade em física extragaláctica a imaginar por que a faculdade solicitou candidatos asiáticos e homens brancos. 

Requisitos para a entrada na pós-graduação estão sendo revisados. A Sociedade Americana de Astronomia recomendou que programas de PhD em astronomia eliminem o requisito de que os candidatos façam o Exame do Histórico da Graduação (GRE) em física, já que ele tem um impacto discrepante para mulheres e URMs e supostamente não prevê resultados em pesquisas futuras. Harvard e outros departamentos têm cumprido a regra, mesmo que um teste objetivo como o GRE possa destacar talentos de escolas com menos prestígio. O Programa de Bolsas de Pesquisa em Graduação da NSF desistiu de todos os GREs em ciências para candidatos de todos os campos. 

Facilitar, facilitar, facilitar

As expectativas estão mudando também no nível da graduação. A Universidade de Oxford estendeu o tempo nos exames de matemática e ciências da computação no ano passado, esperando aumentar o número de mulheres com notas altas; os resultados foram modestos. Apesar disso, é esperado que a extensão de tempo nos testes se espalhe para os Estados Unidos. 

Administradores de escolas de medicinas pressionam comitês de admissão para fazer vistas grossas para as notas do Teste de Admissão em Escolas de Medicina (MCAT) de estudantes negros e hispânicos e empregam a “revisão holística” para construir uma turma com diversidade. O resultado é uma vasta lacuna nas qualificações de entrada. 

De 2013 a 2016, escolas de medicina admitiram nacionalmente 57% de candidatos negros com notas baixas no MCAT, de 24 a 26, mas apenas 8% dos brancos e 6% dos asiáticos com as mesmas notas baixas, de acordo com o professor Frederick Lynch da Universidade Claremont McKenna. Faculdades individuais têm disparidades de notas maiores. Essa diferença de realizações não se encerra no curso de medicina, mas os estudantes URM que chegam a completar o treinamento médico serão fanaticamente procurados de qualquer forma. Acrescenta aos problemas de diversidade das escolas médicas o fato de que o número de candidatos a alunos do sexo masculino que fazem parte das URM tem diminuído nos anos recentes, tornando ainda mais difícil encontrar candidatos qualificados. 

Preferências raciais em programas de escolas de medicina são às vezes justificadas sob o argumento de que as minorias querem doutores que “parecem com elas”. Possivelmente, porém, pacientes com doenças sérias que fazem parte das minorias querem a mesma coisa que qualquer outra pessoa: domínio do assunto. 

O empurrão para a proporcionalidade de gênero na educação e na pesquisa médica não é tão quixotesco como a cruzada por proporcionalidade das minorias sub-representadas, mas também distorce as tomadas de decisão. Dois terços dos candidatos a bolsas de estudo em oncologia em uma escola médica de prestígio são homens. No entanto, metade das escolhas do departamento de oncologia para bolsas é de mulheres, apesar de elas não fazerem parte do topo do grupo de candidatos. 

Uma rede de assim chamados centros de ensino e aprendizagem em universidades em todo o país está buscando tornar as salas de aula de ciência mais “inclusivas” ao mudar a pedagogia e as expectativas para o aprendizado dos alunos. O docente STEM é muito branco, homem, e heteronormativo, de acordo com esses centros, tornado difícil para mulheres, negros, hispânicos e para a população LGBTQ aprender. Conferências e exames objetivos deveriam ser desenfatizados em favor de “pedagogias culturalmente sensitivas que prestam atenção às identidades sociais dos alunos”, nas palavras da Associação Americana de Universidades. 

O ensino nos STEM deveria ser mais “aberto do que fechado”, mais “reflexivo do que prescritivo”, de acordo com a associação. Na Universidade de Michigan, o programa Mulheres na Ciência e Engenharia (WISE) colabora com o Centro para Aprendizagem e ensino para desenvolver “abordagens inclusivas e igualitárias para construção de currículos, tarefas escritas, notas, e discussões”. 

Ciência sem procurar as respostas certas?

Yale criou um laboratório especial para a graduação, com financiamento do Instituto Médico Howard Hughes, que pretende reforçar os “sentimentos de se identificar como um cientista” de estudantes URM. Faz isso ao ser “não prescritivo” no que os alunos pesquisam; eles desenvolvem suas próprias questões de pesquisa. Mas “sentimentos” vão te levar apenas até certo ponto se não houver domínio da construção do conhecimento científico. 

Dominar essa construção envolve a memorização de fatos, entre outras habilidades. Avaliar o conhecimento dos alunos sobre esses fatos pode produzir resultados discrepantes. A solução é mudar o teste ou, idealmente, eliminá-lo. Um supervisor de uma escola de medicina recentemente aconselhou um professor a escrever um exame que fosse menos “baseado em fatos” do que o outro que ele tinha proposto, apesar do conhecimento de patofisiologia e do funcionamento de drogas, por exemplo, implicar conhecer fatos. 

O sistema de notas em curvas é outra prática difamada por aqueles interessados em construir salas de aula “inclusivas” nos cursos STEM. Um aspecto surpreendente dessa difamação é que ela reconhece um dos aspectos mais contraproducentes das culturas negras e hispânicas: o estigma contra o “agir como branco”. 

Minorias sub-representadas podem “rejeitar a competitividade como um motivador acadêmico”, explica um relatório de 2015 da UCLA sobre as lacunas nas realizações acadêmicas na graduação. Ao contrário, os URMs “retiram força da aceitação dos pares, alento e cooperação”. 

Tradução: ao invés de passarem noites estudando para um exame de álgebra linear, eles podem estar propensos a passar o tempo em centros negros ou latinos. Essa rejeição da competitividade acadêmica é um “mecanismo de enfrentamento”, diz o relatório de inclusividade da UCLA, que permite aos indivíduos “desvalorizar” coisas que ameaçam seus sensos de bem estar, como expectativas acadêmicas altas. 

Um sistema de notas em curva contribui para a competição acadêmica ao ranquear objetivamente os alunos. Como resultado, os URMs estarão mais alienados e recusarão os esforços acadêmicos. A solução, de acordo com os defensores da diversidade, é jogar fora o sistema de curvas e dar notas aos alunos se eles atingirem os resultados de aprendizagem esperados. Parece irrepreensível; mas na prática o sistema de notas em curva é a única defesa confiável contra a violenta inflação de notas. 

Um curso introdutório de química na Universidade de Berkeley na Califórnia exemplifica a “pedagogia culturalmente sensível”. Seus criadores descreveram o curso em um seminário via web realizado em janeiro de 2018 para professores STEM, patrocinado pela Comunidade de Aprendizado para Docentes STEM da Universidade da California. Um objetivo principal do curso, de acordo com os professores Erin Palmer e Sabriya Rosemund, é romper com a “construção racializada e sexista do brilhantismo científico”, que define “boa ciência” como a que obtém as respostas certas. Pelo contrário, o curso sustenta que “todos os alunos são cientificamente brilhantes”. 

A ciência é uma prática de construção de senso coletivo que faz existir “maneiras inclusivas” de ser brilhante. Alunos desse curso “inclusivo” de química trabalham em grupos organizando cartões de dados na sequência correta para representar processos químicos, entre outras tarefas. Termos químicos são evitados sempre que possível para acomodar os diferentes históricos acadêmicos dos alunos. Os instrutores fazem os times serem “responsáveis pelo pensamento em grupo”; um time não pode questionar um instrutor ao menos que tenha chegado coletivamente à questão e a coloque na linguagem do “nós”. 

A pedagogia progressiva tem há muito tempo abraçado a ideia de que os alunos deveriam trabalhar exclusivamente em grupos como forma de modelar a democracia coletivista. Essa agenda política é um simples pretexto para mascarar diferenças individuais em realizações que podem reforçar estereótipos de grupo.

Aqui, o raciocínio para a organização em grupo é que os estudantes estão modelando a “prática química coletiva”. Eles são pensadores e realizadores competentes da química? É difícil dizer. O sistema de notas do curso é idiossincrático e dessa forma não é comparável com outros cursos introdutórios de química. A nota final é baseada em tarefas de casa (notoriamente fáceis de plagiar), um exame final (que os professores desejariam poder dispensar), e uma apresentação informal para amigos ou família sobre os compostos químicos. O uso de gírias e de línguas diferentes do inglês é encorajado. 

Um desses esforços apresentou a foto do personagem Joey, da série de TV “Friends”, vestido com diversas camadas de roupas que não combinam umas com as outras com o objetivo de sugerir o relacionamento entre cargas positivas e negativas. Os professores não têm feito avaliações continuadas para ver como os estudantes se portaram em seus cursos subsequentes, nem determinaram se a taxa de atrito das URMs é mais baixa do que em classes tradicionais de química. O que eles sabem é que os estudantes mostraram uma mudança positiva em acreditar que eram bons em ciência. A autoestima científica agora é um objetivo acadêmico. 

Os líderes da indústria STEM estão completamente a bordo da carreta da diversidade, tendo absorvido essa identidade política acadêmica. As companhias gigantes do Vale do Silício oferecem programas de mentoria exclusivos para sexos e raças específicos e dão consideração especial para mulheres e URMs em contratações e promoções. Gerentes passam pelo mesmo custoso treinamento de parcialidade implícita pelos quais os comitês de docentes passam. 

Em agosto de 2017, o Google demitiu o engenheiro da computação James Damore por questionar as premissas do treinamento e das políticas de diversidade da empresa. O processo por discriminação com que ele subsequentemente entrou contra a gigante do Vale do Silício revela uma cultura de trabalho injetada de vitimologia acadêmica. Empregados denunciam o ativismo de políticas de cegueira racial e de gênero como uma “microagressão” e como produto de “racismo” e “misoginia”. 

Gerentes se desculpam por promover homens, mesmo quando mulheres estão sendo promovidas em um ritmo muito maior. Times de pesquisa apenas masculinos são ridicularizados; empregados falsamente se oferecem para proteger mulheres e URMs oprimidos da estreita e totalmente ignorante opinião conservadora. Um gerente repreende alguém por apontar que homens brancos estão na verdade sub-representados no Google em comparação com a população geral. O gerente informa ao funcionário errante que se preocupar com fatos pode parecer uma característica de engenheiros, porém “ser completamente correto é inapropriado” quando o assunto é “discussões sobre raça e justiça”. Fatos são especialmente inapropriados “no contexto da ameaça” que as minorias e mulheres enfrentam no Google. Não é necessário dizer que nenhuma mulher ou minoria sub-representada enfrenta ameaças no Google. 

Em janeiro de 2018, um ex-recrutador do YouTube e do Google abriu um novo processo contra o Google, alegando ter sido equivocadamente demitido por obedecer às atribuições da empresa para gênero e raça. Ele e outros recrutadores supostamente receberam ordens para eliminar todos os candidatos e engenheiros de software que não fossem mulheres, negros, hispânicos da porta de entrada para contratações

Em resposta, o Google alegou que encontrar um “grupo diverso” de candidatos qualificados o permite “contratar as melhores pessoas”. Mas adicionar qualquer critério irrelevante como raça ou gênero a especificações de um emprego inevitavelmente diminui o calibre da base de candidatos por excluir candidatos com qualificações potencialmente superiores. 

A ideia de que mulheres e minorias sub-representadas estão sofrendo discriminação nos STEM é demonstravelmente falsa. Um médico cientista no topo da escola de medicina descreve o ambiente em que ele trabalha: 

“O absoluto esforço que é gasto em completa boa-fé na graduação, pós-graduação e docência buscando uma população cada vez menor de candidatos das minorias é surpreendente. URMs são encorajados a se candidatar, na verdade imploram para que se candidatem, para escolas de medicina e programas de treinamento médico de pós-graduação. Todos nesse nível estão tentando incrivelmente ser justos, generosos, misericordiosos, atenciosos, gentis e motivadores para esses candidatos. Mas se o grupo de candidatos na verdade está diminuindo, nenhuma quantidade de esforço, exortação, ou ameaça vai chegar à diversidade. Uma coisa é ir mal no MCAT; outra é não se dar nem ao trabalho de fazê-lo. Esse é agora o maior problema porque a academia já relaxou seus padrões e surge com todos os tipos de maneiras de desmentir a necessidade de se sair bem nesses testes.” 

Mecanismo de obrigar à diversidade não funciona

Quando se trata de URMs, os déficits matemáticos aparecem nas idades mais jovens. É apenas lá que a lacuna nas realizações pode ser superada, através de salas de aula mais rigorosas, estruturadas, e através de uma mudança na cultura familiar para dar mais valor para conquistas acadêmicas. A resposta institucional para a lacuna nas realizações, no entanto, é preferência racial. Calouros na faculdade são trazidos para ambientes de elite acadêmica para os quais não estão preparados, especialmente nos cursos STEM, para satisfazer o desejo dos administradores de olhar para um corpo de estudantes “diverso”. Os que são inadequadamente nomeados “beneficiários” de preferência desistem de seus estudos nos STEM em taxas altas, apesar da disponibilidade de numerosos programas de tutoria e de mentoria. Essa experiência de falha acadêmica apenas exacerba a síndrome do anti-agir como branco, percebida pelo estudo da UCLA. Você pode ler relatório após relatório sobre atingir a diversidade nos STEM, contudo sem se deparar com qualquer reconhecimento da lacuna de habilidades acadêmicas

Quanto às mulheres, elas, também, são o alvo de constantes esforços para aumentar sua representação nos ambientes STEM. Ainda não conseguimos acreditar que líderes de times de pesquisa altamente capacitados são tão incultos que se recusam a contratar ou promover cientistas cujas qualificações superiores aumentariam a chance do laboratório de conseguir uma descoberta científica, apenas porque esses cientistas são mulheres. A cruzada da diversidade se apoia na reivindicação de que se a discriminação estiver ausente todo o campo científico mostraria paridade de gênero

Essa crença é infundada. Homens têm performance melhores do que mulheres nos mais altos alcances do raciocínio matemático (e são sobre-representados no nível mais baixo da incompetência matemática). Diferenças na precocidade matemática entre meninos e meninas aparecem logo no jardim da infância. 

Por décadas, homens em todos os grupos étnicos obtiveram notas mais altas do que as mulheres do mesmo grupo étnico no teste de matemática do SAT. Em 2016, a porcentagem de homens com notas acima de 700 (em uma escala que vai até 800) foi aproximadamente o dobro da porcentagem de mulheres na mesma faixa. Há 2,5 homens nos Estados Unidos entre os 0,01% com maiores habilidades matemáticas para cada mulher, de acordo com um artigo publicado em fevereiro de 2018 no jornal Intelligence. 

Mas mulheres com notas altas têm mais possibilidades do que homens com notas altas de possuir habilidades verbais fortes ao mesmo tempo, de acordo com os autores Jonathan Wai, Jared Hodges a Matthew Makel, dando a elas uma gama maior de opções de carreira. Tradicionalmente, indivíduos que têm boas notas tanto em matemática quanto em capacidade verbal estão menos propensos a perseguir uma carreira nos STEM. 

Além disso, mulheres em média têm mais interesse em trabalhos centrados em pessoas do que trabalhos abstratos, o que ajuda a explicar por que mulheres representam 75% dos trabalhadores relacionados a cuidados de saúde, mas apenas 14% dos engenheiros e 25% dos que trabalham com computadores. Em 2016, aproximadamente 82% dos obstetras e ginecologistas residentes eram mulheres. A ginecologia é discrimina homens ou as mulheres estão escolhendo onde elas querem trabalhar? 

As conquistas extraordinárias da ciência ocidental foram conseguidas sem considerar a complexidade de seus criadores. Agora, entretanto, financiadores, líderes de indústria e administradores acadêmicos sustentam que o progresso científico vai estagnar a não ser que prestemos bastante atenção para identidade e tentemos construir representação proporcional em escolas e laboratórios

A verdade é exatamente o oposto: diminuir os padrões e desviar a energia dos cientistas para combater o fantasma do sexismo e do racismo é imprudente em um mercado global competitivo, impiedoso e implacável. Movida por uma meritocracia não apologética, a China está se aproximando rapidamente dos Estados Unidos em ciência e tecnologia. A política de identidade na ciência americana é uma política de autoindulgência com a qual não podemos arcar

©2018 City Journal. Publicado com permissão. Original em inglês. Tradução: Carlos Eduardo Carvalho.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]