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Pesquisa

Ensinar como o outro aprende

Entrevista com a professora do mestrado em Educação da PUCPR Evelise Portilho

“O professor deve usar um mínimo de estratégias para que o aluno seja capaz de resolver uma mesma situação problema, mas de várias formas. O ensino fica bem mais flexível assim”. Evelise Portilho, educadora | Albari Rosa/Gazeta do Povo
“O professor deve usar um mínimo de estratégias para que o aluno seja capaz de resolver uma mesma situação problema, mas de várias formas. O ensino fica bem mais flexível assim”. Evelise Portilho, educadora (Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo)

Qual a maneira mais fácil de aprender? Certamente não será a mesma para todos. Há pessoas com facilidade para assimilar conhecimento apenas ouvindo. Outras necessitam anotar o tempo todo o que o professor fala em sala de aula. Tem também aqueles que observam tudo, nos mínimos detalhes. A doutora em Educação Evelise Portilho, professora do mestrado em Educação e coordenadora da especialização em Psicopedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) defende que os professores devem estar conectados com os diferentes estilos de aprender de seus alunos.

No livro Como se Aprende? Estratégias, Estilos e Metacognição (Editora Wak), lançado no mês passado, Evelise ressalta que o modelo tradicional ainda contempla que a aprendizagem ocorre sempre do mesmo jeito. "Quando toma consciência sobre a maneira de aprender o indivíduo obtém melhores resultados", diz.

A obra, que também é fruto da tese de doutorado, concluído em 2003 na Universidade Complutense, de Madri, na Espanha, mostra que o aprendizado não está restrito à escola. "A aprendizagem é um processo que deve estar ‘vivo’ ao longo da vida, acontece sempre, em qualquer lugar e com qualquer pessoa."

Em entrevista à Gazeta do Povo, a pesquisadora fala sobre esses diferentes estilos de aprendizagem e reforça a necessidade de mudança de mentalidade por parte dos professores. Leia abaixo trechos da entrevista.

As pessoas são inteligentes ou a inteligência é algo que se adquire?

Antigamente, a inteligência era vista como uma coisa única. Ou a pessoa era inteligente, ou não era. Não existia outro nível de possibilidade. Havia aqueles testes de inteligências (QI), que atualmente foram abolidos. As pesquisas demonstram que existem vários tipos de inteligência e várias maneiras de aprender. Não existe pessoa que seja competente em tudo.

O professor tem de mudar seu jeito de ensinar?

Sim. Viemos de uma formação de onde o professor detinha o conhecimento. Se algum aluno tinha um estilo diferente de aprender daquele ensinado pelo professor, na maioria das vezes era classificado como incompetente. Ou seja, não batia com o estilo de ensinar do professor. A proposta é trabalhar com outra perspectiva. O professor deve usar um mínimo de estratégias para que o aluno seja capaz de resolver uma mesma situação problema, mas de várias formas.

Como perceber as diferentes maneiras de aprender? É possível que os pais entendam o estilo de aprender de seus filhos?

Desde muito pequeno é possível identificar o estilo de aprendizagem de uma pessoa. Temos os chamados canais de inteligência e alguns são mais fáceis de aprender para uns em comparação com outros. Por exemplo, tem aqueles com uma discriminação visual mais elaborada do que a auditiva. Os caminhos são diferentes para cada um de nós. Estar junto e perguntar para o aluno ou para a criança é um bom exercício para perceber. As crianças pequenas demonstram pela maneira como selecionam os brinquedos, as revistinhas para ler e até mesmo nas atividades que escolhem. As características vão sendo construídas desde cedo.

Por que essas características não eram contempladas antes pelas escolas?

A preocupação estava e ainda está focada no conteúdo. O professor é especialista numa área e se preocupa na elaboração da aula. Penso que o maior desafio está mais relacionado com a aprendizagem do aluno. Não que o professor tenha que deixar de ser competente na área em que atua, mas precisa estar preocupado na forma como seus alunos vão aprender a partir desse conteúdo.

Os professores estão sendo preparados nas faculdades com esse novo foco?

Não deixa de ser algo que já venha sendo dito. Há algum tempo a diversidade é tema de discussão entre esses tipos de profissionais. A questão da formação do professor é emergente. Penso que a transformação não ocorre do dia para a noite. Temo algumas mudanças e bons exemplos.

Qual o principal problema da escola brasileira?

Está muito presa ao modelo de ensino tradicional. É preciso dar outro enfoque. A proposta é interagir o aluno e o professor. Falo de um triângulo entre o professor, aluno e conhecimento. Quando esses três itens forem levados em conta juntos, as aulas ganharão outra dimensão. O professor precisa tirar da cabeça a ideia de que tem condições de dar todas as respostas possíveis. Quando ele passar a perguntar para o aluno, também oferece o desafio de aprender e alcançar outros resultados.

Como seria uma aula nessa concepção?

A mudança não está no espaço físico, em coisas visíveis, mas nas atitudes e na relação entre professor e aluno. Um dos desafios para o professor é selecionar a informação adequada para aquele aluno ou grupo de alunos. Ele precisa dar um significado dessa informação ao aluno, que não precisa ser igual ao de quem ensina. Tive um exemplo quando fiz uma pesquisa de aprendizagem e conhecimento, junto com a Ação Educativa. Fazia um acompanhamento diário com as crianças e pedia que elas desenhassem o que a professora ensinou e o que elas aprenderam. Comparávamos com o relatório de aulas das professoras. Uma das aulas era sobre os dinossauros. Um menino de 5 anos desenhou um dinossauro parado, representando o que a professora ensinou. No outro desenho, ele escreveu da maneira que sabia a palavra "extinção" e não desenhou nada. Se a professora está atenta a esse aluno, perceberá a criatividade e argumentação fantástica que ele deu. Não ajudaria nada se a professora chamasse a atenção e dissesse que deveria ter desenhado alguma coisa.

Mas a realidade das escolas brasileiras hoje é de superlotação, professores estressados, alunos desmotivados, indisciplina e violência. Como conseguir driblar tudo isso e alcançar o sucesso de aprendizagem?

Temos problemas sérios de formação, superlotação, trabalhadores com baixa remuneração, entre outros. Mas nada disso justifica. O professor tem um compromisso com aquilo que ele escolheu como profissão. É responsável pela formação de várias pessoas que merecem total atenção em seu processo de aprendizagem. É possível bons resultados mesmo numa sala de aula grande. Os alunos com estilos de aprendizagem semelhantes podem ser agrupados, assim como aqueles mais rápidos podem ajudar outros colegas de turma. O ensino pode ser cooperativo, não precisa ficar só voltado e preso no professor o tempo todo.

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