
Acreditar no potencial da educação como forma de ascensão social e econômica e, ao mesmo tempo, afirmar que diplomas do ensino superior são desnecessários. A contradição está expressa em dados da pesquisa Retratos da Grande Curitiba do Instituto Ethos, encomendada pela Gazeta do Povo. Enquanto 38% dos entrevistados disseram que diplomas não servem para nada ou quase nada, 82% acreditam que a educação é a única forma de subir na vida.
Para a professora da área de Sociologia da Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Sonia Landini, a própria instituição escolar passa por um momento de contradição, em que suas funções não estão totalmente definidas. Educar para o mercado de trabalho ou possibilitar a aquisição de conhecimentos científicos? "O papel principal da escola seria fornecer conhecimento científico e trabalhar a formação integral da pessoa, mas acaba não fazendo isso porque a pressão para atender aos interesses do mercado de trabalho é muito grande. Existe uma ideologia dominante em relação a isso", diz.
A escola pode até formar para o mercado, mas isso não quer dizer que há uma garantia de emprego. "As pessoas procuram a educação e nem sempre conseguem atingir seus objetivos, porque não há trabalho para todas. É o reflexo de uma sociedade desigual", afirma Sonia. Isso gera uma descrença na instituição escolar, que, na visão da pesqui-sadora, não cumpre bem nenhum de seus papéis.
O descrédito também está relacionado com o grande número de atividades informais presentes na sociedade brasileira. Todo mundo conhece exemplos de pessoas que conseguiram sucesso profissional sem estudar. Em contrapartida, todos lembram de histórias daqueles que estudaram e não conseguiram se inserir no mercado. "Vemos pessoas sem diploma exercendo muitas profissões. Isso inclui a questão da regulamentação profissional. Até que ponto um diploma tem valor se outra pessoa pode exercer a mesma função sem ele?", questiona Tânia Stoltz, professora do setor de Educação da UFPR.
Segundo Tânia, a educação não pode deixar de atender o mercado de trabalho, mas, ao mesmo tempo, tem de ser crítica. "Não deve simplesmente ir atrás do movimento da sociedade, também precisa apontar novas direções, apresentar uma reflexão sobre ele e pensar criticamente sobre o que está acontecendo", afirma a professora.
Na prática
A esteticista e hoje professora universitária Beatriz Andreguetto Orasmo, 53 anos, começou sua carreira formando-se em administração, profissão que nunca chegou a exercer. No fim dos anos 1980, ela procurou a formação em tratamentos estéticos e começou a trabalhar na área. Ter um curso universitário ajudou Beatriz a começar a dar aulas no ensino superior. Agora a esteticista já tem uma pós-graduação e reconhece que foi graças à formação que ela conseguiu crescer profissionalmente. "O diploma é fundamental, mas não é só ele que resolve. Se não colocarmos em prática tudo o que aprendemos e pararmos de estudar, ficamos desatualizados. O mercado se renova e, se você não se renovar, está fora", diz Beatriz.
Formação continuada, busca de oportunidades e até mesmo sorte. Tudo isso conta na hora de encontrar um bom emprego. Mesmo que o diploma não seja uma garantia, é impossível negar a importância da educação para o crescimento pro-fissional. E isso pode ser expressado nos 82% dos entrevistados que disseram que a educação é a única forma de subir na vida. Em muitos casos, o ensino superior é considerado pré-requisito para concorrer a determinadas vagas. "A sociedade exige pessoas cada vez mais qualificadas e capacitadas. Ter uma formação sólida passa obrigatoriamente pelo ensino superior. Uma pessoa com graduação vai além daquelas que optaram em permanecer somente com a educação fundamental ou com o ensino médio", explica Carlos Magno Bittencourt, professor do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Interatividade
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Conteúdo on-line
Conheça mais sobre a pesquisa Retrato da Grande Curitiba no site da Gazeta do Povo http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/retratocuritiba/



