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Educação

Minha professora é transexual

Projeto pretende discutir a homofobia nas escolas e implementar ações de respeito à diversidade

Marina passou a ser mais bem aceita após a cirurgia de transformação sexual | Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
Marina passou a ser mais bem aceita após a cirurgia de transformação sexual (Foto: Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo)

Ao passar por uma cirurgia de transformação sexual, há pouco mais de seis anos, a professora Marina Reidel ficou apreensiva quando teve de retornar às salas de aula. Com experiência de 18 anos em docência, Marina temia não ser aceita pelos seus alunos de 5ª a 8ª série da Escola Estadual Rio de Janeiro, no bairro da Cidade Baixa, em Porto Alegre. "Para a minha surpresa fui mais bem aceita do que antes. A receptividade é boa, sou muito respeitada", diz.

Mas a realidade nem sempre é semelhante da contada por Marina. Casos de homofobia envolvendo alunos e professores são cada vez mais comuns no ambiente escolar. Um estudo realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (Unesco) em 13 capitais brasileiras, em 2004, revela que 40% dos adolescentes não gostariam de estudar com homossexuais e 60% dos professores não sabem lidar com a situação. Para tentar combater a discriminação entre gêneros, o primeiro de uma série de cinco encontros regionais do projeto Escola sem Homofobia começou ontem e encerra hoje em Curitiba.

O encontro reúne educadores ligados a movimentos sociais do LGBT (lésbicas, gays, simpatizantes, travestis e transexuais), acadêmicos, pesquisadores, representantes das secretaria estaduais e municipais de educação, saúde e direitos humanos dos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Integra uma série de ações a serem implementadas pelo projeto Escola sem Homofobia, que ocorre na rede pública de ensino, a partir da 5ª série do ensino fundamental. Na opinião da coordenadora geral de Direitos Humanos do MEC, Danielly Queirós, o projeto será um importante instrumento na busca de subsídios para a implementação de políticas públicas. "A discriminação e o preconceito estão dentro e fora das escolas. Não culpamos o professor pois a homofobia está na sociedade. Temos de dar instrumentos para que ele saiba lidar com essa questão", diz.

Além das discussões regionais, o projeto irá desenvolver uma pesquisa sobre a homofobia no ambiente escolar em dez capitais brasileiras, que deve ser divulgada até outubro deste ano. A meta é identificar as percepções e atitudes sobre a diversidade sexual. Vão fazer parte do levantamento escolas de Manaus, Porto Velho, Recife, Natal, Goiânia, Cuiabá, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Outras ações como capacitação de professores e entrega de 6 mil kits com materiais direcionados para professores, gestores de escolas e alunos estão previstas.

O projeto é ousado e trata de um assunto delicado, mas na opinião do presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais (ABGLT), Toni Reis, iniciar o debate é necessário porque muitos adolescentes deixam as escolas, principalmente os travestis e transexuais. "São os mais afetados porque não há como disfarçar. A maioria acaba na prostituição. Não estamos fazendo apologia à homossexualidade, mas iremos em busca do respeito e da não exclusão da comunidade do ambiente escolar", diz.

O diretor da Pathfinder do Brasil, Carlos Laudari, instituição que gerencia o projeto, ressalta a importância de dar o primeiro passo no debate da diversidade de gêneros. "A homofobia está em todas as áreas, parte do professor, do aluno, da família e é reflexo do estereótipo criado na sociedade. Não vai ser fácil. Mas estamos lançando a semente para que nenhum jovem deixe de ir à escola por conta de sua orientação sexual", diz.

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