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Paraíso? Brasileiros relatam histórias de preconceito em universidades portuguesas

Com a crise no Brasil, aumentou a procura de estudantes por cursos universitários em Portugal; a recepção, porém, está longe do esperado

  • Lisboa
  • Bruna Borelli, especial para a Gazeta do Povo
Estudantes brasileiros protestam contra o preconceito na Universidade de Coimbra  em 2014. | Reprodução/Facebook.
Estudantes brasileiros protestam contra o preconceito na Universidade de Coimbra em 2014. Reprodução/Facebook.
 
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Portugal virou tendência entre os brasileiros. Destino turístico em voga, o país também se tornou uma das principais escolhas para quem deseja fugir da crise no Brasil e obter maior qualidade de vida, mas sem abrir mão da mesma língua, dos preços baixos e do clima ameno. Só que nem tudo são flores para quem está neste lado do Atlântico. “Eu romantizei a minha ida para Portugal, achei que eles seriam receptivos, mas passei por situações de preconceito que nunca imaginei que viveria”, conta a professora paulistana de Educação Física Maria Cristina Simões Viviani, de 29 anos, que em 2009 fez um semestre da sua graduação na antiga Universidade Técnica de Lisboa. 

Assim como Maria Cristina, vários brasileiros foram (ou pretendem ir) rumo ao país devido às ofertas de cursos de ensino superior. Segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência de Portugal, a procura de estudantes do Brasil por instituições universitárias portuguesas cresceu 38% nos últimos três anos. São cerca de 14 mil alunos atualmente, mais que a soma de todos os estudantes provenientes dos outros quatro países do top 5 (Angola, Espanha, Cabo Verde e Itália). Já o número de vistos estudantis emitidos pelo Consulado de Portugal em São Paulo aumentou 35% só no último ano. 

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Referência no Brasil, a Universidade de Coimbra (UC) é uma das que mais atraem esses estudantes. Atualmente, são cerca de 2,4 mil alunos de nacionalidade brasileira nos cursos de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado, um crescimento de quase 40% em relação a 2014, segundo dados da instituição. O montante representa mais do que a metade dos estudantes internacionais de 104 nacionalidades diversas matriculados na instituição. Ainda assim, há relatos de discriminações contra brasileiros. 

Ao frequentar dois anos do curso de Biologia da UC entre 2013 e 2015, o paulistano Henrique Stornioli, de 24 anos, teve que lidar com um estereótipo recorrente na vida de um brasileiro em Portugal: o de ser “malandro” ou “ladrão”. “Fui comprar um moletom no diretório acadêmico da faculdade e, quando peguei a carteira para pagar, vi não tinha dinheiro trocado. Como eles não aceitavam cartão, eu disse que tiraria dinheiro no caixa eletrônico no térreo e voltaria, mas nem percebi que ainda estava segurando o moletom. Quando virei as costas, a garota que estava atendendo me disse: ‘Você pode deixar o moletom aqui? Você é brasileiro...’”, conta. 

Por essas e outras histórias, alunos de uma chapa estudantil da Universidade de Coimbra se juntaram em 2014 para fazer uma campanha no Facebook com o intuito de denunciar os preconceitos vivenciados ali. Para isso, tiraram fotografias anônimas com as frases discriminatórias ouvidas no ambiente acadêmico. Entre elas, muitas relacionadas diretamente com a vida dos brasileiros em Portugal: “Os brasileiros e os pretos deviam todos morrer”, “A vós o que cabe é voltarem para o vosso país” e “Burro! Aprenda a falar/escrever o português direito”. 

O belga Kevin*, de 29 anos, que apoiou a campanha na época, afirma nunca ter sofrido preconceito por sua nacionalidade. No entanto, diz ter presenciado várias discriminações em relação aos seus amigos brasileiros. “Lembro-me de falar que estava a viver com dois rapazes do Brasil e ouvir se eu tinha certeza que queria morar com eles porque eu poderia ser roubado em casa.” 

Sobre a campanha que chamou a atenção da mídia em 2014 e voltou a circular recentemente nas redes sociais do Brasil, a assessoria de imprensa da UC alega que o crescimento de estudantes brasileiros atesta que a instituição “fornece um ambiente acolhedor e estimulante” e que “apesar da existência de múltiplos canais para veicular essas situações, as queixas específicas e concretas [sobre comportamentos xenófobos] são extremamente raras”. 

O problema é que, por medo de retaliações no ambiente acadêmico, muitos estudantes no momento em que ainda frequentam instituições portuguesas não vão em frente com as denúncias e preferem falar apenas no anonimato, inclusive para esta reportagem. Isso porque, segundo Beatriz Padilla, pesquisadora principal do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), as relações entre professores e alunos em Portugal são, por via de regra, desiguais. “Como um aluno, que é o elo mais fraco, vai fazer uma queixa se todos os outros professores são portugueses e não se fala abertamente sobre essas questões nas universidades?” 

Kevin, que vive em Coimbra desde então, acredita que a Universidade de Coimbra quis apaziguar a situação em 2014, mas na prática nada aconteceu. “Tínhamos reivindicações para que fizessem uma campanha generalizada na universidade para conscientizar os professores sobre essas discriminações, mas o mesmo tipo de história e atitude ocorre hoje em dia”, comenta. 

“A Universidade de Coimbra tem investido muito em trazer estudantes brasileiros porque Portugal está em regressão demográfica, com um índice de natalidade baixo, uma população idosa e emigração de jovens para outros países europeus por causa da limitação do mercado de trabalho do país. Mas, ao mesmo tempo, não há ações afirmativas para evitar discriminações”, afirma Luciana Carmo, presidente da Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra. 

Com a recente criação do “Semestre Pré-Universitário” pela Universidade Nova de Lisboa, os estudantes brasileiros agora também podem experimentar o ambiente do ensino superior português antes mesmo que o ano letivo comece em setembro.

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“Mas o que adianta as universidades portuguesas criarem estratégias para atrair estudantes brasileiros se não há uma política de sensibilidade dentro daquele ambiente? Mudar estereótipos presentes em um imaginário social de um país não é algo que aconteça do dia pra noite e se não houver debate as pessoas vão continuar tirando sarro dos brasileiros”, diz Thais França, pesquisadora associada do CIES-IUL do ISCTE. 

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“Maneira que os brasileiros são vistos em Portugal surge de um imaginário colonial que ainda é muito presente, especialmente em relação aos povos colonizados pelos portugueses”, explica a socióloga Beatriz Padilla. Robson Vilalba / Thapcom

Dentro e fora da sala de aula 

Branca e da classe média de São Paulo, Maria Cristina não costumava sofrer discriminação no Brasil. “Aquelas experiências me chocaram. Comecei a perceber os privilégios que tinha na minha terra natal”, diz. Entre os episódios vividos em Portugal, a professora de educação física lembra particularmente da dificuldade em fazer amizades e trabalhos em grupo, além das discussões com os colegas em sala de aula ao ouvir comentários preconceituosos sobre seu país. “Eu não tinha nome, era conhecida como ‘a brasileira’”, relata Maria Cristina. 

Mestre em Engenharia pela Universidade do Minho em 2016, a mineira Marina Paschoalino, de 38 anos, diz que as discriminações que vivenciou enquanto brasileira em Portugal ocorreram de maneiras sutis, principalmente por meio de brincadeiras. “A pior foi no dia da minha defesa pois o presidente da banca fez várias piadinhas desagradáveis com brasileiros”, conta. 

“Ele já começou a cerimônia dizendo ‘não sei no Brasil, mas aqui em Portugal a gente costuma ser pontual, então vamos começar os trabalhos’. Como eu estava preocupada em fazer uma boa defesa, não me recordo bem de tudo o que ele disse, mas meus amigos brasileiros saíram bufando de raiva.” 

Por vezes disfarçados de piada, os estereótipos em relação aos brasileiros relatados nesta reportagem podem representar mais do que xenofobia. “A maneira que os brasileiros são vistos em Portugal surge de um imaginário colonial que ainda é muito presente e que apresenta a sociedade portuguesa como aberta e multicultural quando, na realidade, há muitos preconceitos, especialmente em relação aos povos colonizados pelos portugueses”, explica a socióloga Beatriz Padilla. 

“A construção das colônias como sendo inferiores e dos sujeitos das colônias enquanto ignorantes, submissos e bárbaros continua a existir até hoje”, complementa Thais França. 

Outra questão recorrente são as diferenças da língua portuguesa falada em Portugal e no Brasil. “Há certas piadas acerca do nosso português brasileiro, como dizer que nós não falamos um genuíno português, ou que corrompemos o idioma original”, relata o mineiro Guilherme Diniz, 22 anos, estudante de Teatro da Universidade de Coimbra, que também escuta gracejos de mau gosto em relação ao seu black power e seus traços físicos.

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“Os próprios professores fazem esses comentários preconceituosos. Lembro de uma professora que esculhambava a minha escrita por ser do Brasil, dizia que estava errado, que não se deve usar gerúndio e que era muito informal”, afirma a jornalista gaúcha Luana Feldens, de 32 anos, que fez um semestre da sua graduação em Comunicação Social em 2006 no Instituto Politécnico de Leiria. 

Essa relação tortuosa dos portugueses com o português falado no Brasil é, segundo Beatriz Padilla, novamente aquela ideia de superioridade surgida na época colonial. “O que é o português correto e ele é correto para quem? As línguas enquanto meio de comunicação evoluem de maneiras diferentes e assim foi em Portugal, no Brasil e nas ex-colônias africanas”, afirma. 

Embora seja comum escutar dentro e fora da sala de aula que falamos “brasileiro”, a pesquisadora assegura que episódios do tipo dentro do ambiente acadêmico são ainda mais graves. “É pior sim porque em vez de desconstruir, estamos construindo uma noção de língua superior. Nunca ouvi aquele comentário de que algo está mal escrito sendo feito para estudantes portugueses mesmo quando há muitos erros de português. Agora com os brasileiros isso acontece sempre. Que universidade internacional é essa que não aceita outras expressões linguísticas?” 

Uma questão de gênero 

A situação parece ser pior para quem é mulher. “Há preconceitos contra brasileiros no geral, mas as brasileiras estão ainda mais expostas à discriminação”, alega Beatriz Padilla. Segundo ela, se os homens do Brasil são vistos como malandros e preguiçosos em Portugal, as mulheres enfrentam comentários sobre sua aparência e sexualidade. “Ou seja, é a velha história da brasileira como garota de programa. Afinal, Portugal é também um país muito machista.” 

Apesar de nunca ter morado em Portugal, a fisioterapeuta paulistana Patrícia Scarpelini, de 36 anos, vivenciou um episódio de discriminação durante um congresso em 2008 na Universidade do Algarve. “Eu tinha uma pesquisa sobre massoterapia e durante a apresentação recebi perguntas de duplo sentido questionando que tipo de massagem eu fazia já que um dos dados encontrados era que os pacientes do gênero masculino quase nunca abandonavam o tratamento”, comenta. 

“Sentia a minha inteligência sendo diminuída o tempo todo pelo fato de eu ser mulher e brasileira. Mas a gota d’água para mim foi quando ouvi uma professora dizendo que as brasileiras eram todas vagabundas.” 

Para a socióloga Thaís França, a desigualdade de gênero afeta de maneira especial as mulheres brasileiras porque elas são construídas socialmente e culturalmente como um corpo altamente sexualizado. No ambiente acadêmico, portanto, as estudantes e pesquisadoras brasileiras precisam provar que são inteligentes e dão conta do recado. Investidas de professores e colegas também podem ser comuns. 

É o caso da mineira Paula*, de 25 anos, que, recentemente, durante um mestrado na Universidade de Lisboa, passou por um episódio de assédio sexual. “Eu me reunia com um professor, mas nunca falávamos sobre o trabalho em si. Ele dava algumas indiretas sobre gostar de brasileiras e um dia tentou me beijar ao se despedir de mim”, conta. “Não tive coragem de denunciar porque acho que não seria ouvida e não me sinto preparada para enfrentar uma pessoa e uma instituição considerada importante.” 

A paulistana Camilla Ginesi, de 27 anos, recém-formada em um mestrado no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade de Lisboa, foi outra que pensou em fazer uma queixa formal sobre uma discriminação vivenciada no ambiente acadêmico, mas não foi adiante.

“Durante uma aula, um professor disse que as mulheres das antigas colônias portuguesas iam para Portugal atrás de marido para conseguirem a nacionalidade. Eu fiquei indignada, mas não fiz nada porque tive medo de ter problemas já que o professor era bem influente”, conta. 

Insinuações sobre a disponibilidade sexual das brasileiras em Portugal podem afetar mesmo as crianças, que, por vezes, reproduzem esse tipo de discriminação. “Minha filha de 12 anos se desentendeu com um garoto da turma dela e foi chamada de prostituta pelo simples fato de ser brasileira. Um absurdo! Fomos reclamar na escola e o menino teve que pedir desculpa”, afirma Ana*, de 37 anos, doutoranda da Universidade de Coimbra, que, apesar desse episódio, diz gostar da experiência de morar fora do país. 

Discriminação aberta 

Segundo a pesquisadora Beatriz Padilla, as mulheres negras brasileiras vivenciam discriminações ainda maiores em Portugal. “Além de sofrerem com o imaginário da mulher brasileira enquanto exótica e disponível, as mulheres negras brasileiras acabam por sofrer racismo também por causa da cor da pele”, explica Beatriz Padilla. 

Elaine Santos, de 34 anos, doutoranda paulista em Sociologia na Universidade de Coimbra, conta, por exemplo, que foi expulsa recentemente de um evento acadêmico por discordar do moderador, um professor da Faculdade de Direito da UC, quando o mesmo fez piadas de mau gosto com a ditadura . “Eu sei que ele não se voltou contra mim pessoalmente, ele se voltou contra o que eu represento: uma mulher negra brasileira em ambiente acadêmico.” 

Acostumada a ser minoria no espaço acadêmico português e, ainda por cima, brasileira, Elaine diz já saber o que vai enfrentar no cotidiano. “Além de ser objetificada, eu também não pertenço àquele grupo de acadêmicos. Tenho que provar o tempo todo que eu mereço estar ali e sinto que isso afeta meu rendimento”, relata.

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