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“Como incluir matérias que vão diminuir a concentração nessas disciplinas básicas?”, critica especialista. | U.S. Air Force photo by Karen Abeyasekere.
“Como incluir matérias que vão diminuir a concentração nessas disciplinas básicas?”, critica especialista.| Foto: U.S. Air Force photo by Karen Abeyasekere.

Incluída gradativamente no currículo de escolas públicas brasileiras, a empatia é uma habilidade socioemocional que pretende formar o estudante para os desafios do século 21. Especialistas, porém, apontam inúmeras ressalvas sobre a inclusão deste tipo de conteúdo em sala de aula: criar uma disciplina tão específica pode sobrecarregar um currículo já ineficaz.

Para Adolfo Sachsida, doutor em Economia, não se pode tirar o foco dos conteúdos básicos, como leitura e operações matemáticas: “Estamos em um país em que todos os testes mostram que grande parte da população tem dificuldade de ler, escrever e realizar operações aritméticas simples”, diz. 

“Então como incluir matérias que vão diminuir a concentração nessas disciplinas básicas? Me parece uma medida completamente inoportuna”, completa.

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Vale lembrar que as habilidades socioemocionais são destacadas como uma das prioridades da reforma do ensino médio (Lei 13.415 de 2017), não necessariamente como disciplina, pelas competências básicas da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Iniciativa 

Na cidade de São Paulo, a empatia começou a ser incluída nas escolas municipais a partir de 2018 como uma habilidade que deve permear todas as disciplinas. O objetivo é ensinar o estudante a “trabalhar em grupo, criar, pactuar e respeitar princípios de convivência, solucionar conflitos, desenvolver a tolerância à frustração e promover a cultura da paz”. 

As interações em grupo contribuem para o desenvolvimento da empatia por incentivar a aproximação do aluno com os colegas e professores. “As crianças precisam aprender com a interação. Elas aprendem uns com os outros, com a mediação dos professores, mas não com a exposição direta deles”, explica Verônica Branco, doutora em Educação e professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

Nos Estados Unidos, escolas estão ensinando às crianças empatia e autocontrole: em artigo publicado no Washington Post, a escritora Pam Moore aponta que sua filha de cinco anos coloca as lições em prática no dia a dia. Ela destaca ainda estudos realizados nos EUA em 2011 e 2017 que mostram melhorias de desempenho acadêmico e comportamental de crianças participantes de programas voltados para a aprendizagem socioemocional. 

Controvérsia 

Apesar da importância do ensino do conteúdo, a inserção de uma nova disciplina é um ponto de controvérsia: por ser uma habilidade social, sua inclusão no currículo escolar como uma nova matéria pode ocupar um espaço limitado destinado às disciplinas de conhecimentos básicos. 

“Existem alguns estudos, ao menos em países desenvolvidos, que mostram que se você colocar disciplinas desse tipo para alunos da primeira infância irá auxiliar no desenvolvimento futuro. Agora, quando você fala que incluirá isso dentro de uma grade e não aumentará sua carga horária, você está dizendo que para incluir uma disciplina, precisa tirar outra”, ressalta Adolfo Sachsida. 

“Na realidade brasileira, para incluir uma disciplina como essa, você terá que diminuir a carga horária de outra, como português e matemática”, completa. 

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Essa perspectiva também é defendida por Verônica Branco: segundo ela, a empatia deve ser ensinada, mas não pode ser uma disciplina. 

“Empatia é respeitar o outro, conviver com o outro. Isso tem que fazer parte da convivência da criança na escola todo dia; ela precisa entender limites. Há um equivoco em pensar que pode se criar uma disciplina para isso”, diz. 

De acordo com ela, o ensino da empatia é uma metodologia, uma forma de desenvolver o trabalho dentro da sala de aula – e essa abordagem seria mais produtiva do que a criação de uma disciplina nos moldes tradicionais. 

“Se você acha que pode criar uma disciplina dentro de um currículo de 20 horas semanais, colocando uma hora na semana para discutir isso, não terá resultados. É muito pouco, porque isso depende de vivência e experiência, e não de conteúdo anotado no caderno”, critica. 

Função

Segundo Adolfo, a tarefa primordial da escola é ensinar o aluno a ler, escrever e fazer operações matemáticas simples: quando ela falha nisso, essa é a deficiência que deverá fortalecer. 

“Gostaria que alunos aprendessem, por exemplo, primeiros socorros ou noções de economia. Mas se cada um incluir aquilo que acha essencial, teremos um currículo inviável. É claro que empatia é importante, mas será que esse não é um dever da família ou de outros setores da sociedade?”, diz Sachsida. 

“Parece que as escolas hoje estão mais preocupadas com a educação que deveria vir da família do que com a educação que propriamente deveria ser ofertada por ela”, conclui. 

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