Contexto histórico
A virada do século 19 para o 20 foi um período histórico de mudanças em muitas áreas, marcando a transição dos valores estéticos do século 19 para as vanguardas de influência europeia e suas inovações.
Os fatos falam por si. Uma série de revoltas eclodiram em todo o país, por motivos diversos, em situações bem diferentes, com reivindicações várias.
Esses acontecimentos tiveram papel decisivo na passagem da república da espada (primeiros governos republicanos, que eram militares) para a república do café-com-leite (predominantemente civil) e no enfraquecimento da república velha (1889-1930). A nova realidade manifestava-se em conflitos como o do Sul, na Guerra do Contestado.
Jeca Tatu
Lobato define e caracteriza, com precisão de detalhes, o nosso caboclo, que ele chama de Jeca Tatu, como criatura ignorante, preguiçosa, inútil, sem nenhuma ambição, nenhum senso de arte, nenhum desejo de permanência e de realização. Até sua religiosidade é preguiçosa ("Deus quis").
Sua casa faria vergonha para um joão-de-barro, a família vive de cócoras pela ausência de cadeiras. Ele seria "impenetrável ao progresso". Vota não sabe em quem e não acompanha os grandes lances da história nacional.
Dentre outras coisas, o artigo diz: "Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nesta palavra atravessada de fatalismo e modorra: nada paga a pena".
Leia o trecho:
"Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo...Quando comparece às feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas, ou artefatos de taquarapoca de caçador, ou utensílios de madeira mole gamelas, pilõezinhos, colheres de pau. Nada mais. Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço e nisso vai longe."
Enfim, "Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive..."
Uma das marcas românticas é a idealização. A estética romântica coincidiu com nossa independência, surgindo, então, a necessidade da construção da identidade nacional , do herói brasileiro.
Inicialmente tal papel coube aos indígenas, mas outras figuras nacionais vão sendo acrescidas a esse imaginário.
Lobato critica o exagero romântico no heroísmo dos índios e afirma que eles, do jeito que estavam sendo descritos, apresentavam "virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora" e eram "bugres homéricos".
O autor vai além: explana que o indianismo idealizador se transformou, no Brasil, em "caboclismo" ("Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!"). Em outras palavras, estava ocorrendo o mesmo processo idealizante com a figura do homem do campo e Lobato vai de encontro a essa imagem quando apresenta seu Jeca.
Questão
A obra reúne uma série de artigos, iniciados com Velha Praga, publicados em O Estado de S. Paulo, a 14-11-1914. Nesses artigos, o autor insurge-se contra o extermínio das matas de Mantiqueira pela ação nefasta das queimadas, retrógrada prática agrícola perpetrada pela ignorância dos caboclos, analisa o primitivismo da vida dos caipiras do Vale do Paraíba e critica a literatura romântica que cantou liricamente esses marginais da civilização. Que obra é esta?
a) Contrastes e Confrontos (Euclides Cunha).b) Urupês (Monteiro Lobato).c) Ideias de Jeca Tatu (Monteiro Lobato).d) À Margem da História (Euclides da Cunha).e) n.d.a.
Resposta: b) * Professor de Literatura do Curso Dom Bosco



