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Bruno e Dom
Senador Humberto Costa (PT-PE) exibe cartaz com fotos de Bruno e Dom durante audiência no Senado: politização dos assassinatos.| Foto: Pedro França/Agência Senado

O corpo do indigenista Bruno Pereira foi cremado nesta sexta-feira (24), em Pernambuco, em cerimônia cercada de emoção e simbolismo. Para a família e amigos, foi o desfecho de um drama iniciado 20 dias atrás, quando Bruno e o jornalista britânico Dom Phillips desapareceram na reserva indígena do Vale do Javari, no Amazonas.

As buscas mobilizaram policiais federais, militares, polícias estaduais e indígenas, e levaram à descoberta dos assassinatos de Bruno e Dom na floresta, causando comoção nacional e internacional. No domingo (26), em Niterói (RJ), será a vez do corpo de Dom ser cremado.

Como era de se esperar, o caso foi politizado. Virou munição para a oposição atacar o presidente Jair Bolsonaro (PL), que é pré-candidato à reeleição em outubro, embora não exista responsabilidade alguma do governo no crime. Oposicionistas alegam uma suposta negligência da gestão Bolsonaro com a segurança na região da Amazônia.

Aliados do governo, porém, rebatem afirmando que a elucidação dos homicídios e a descoberta rápida dos executores são exemplos de que o caso foi tratado com a devida prioridade assim que os desaparecimentos foram comunicados.

Outra prova disso é que a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República divulgou informações diárias sobre a operação de busca, com dados como o número de profissionais envolvidos e mesmo o de equipamentos, como balsas e drones. O governo também soltou um comunicado sobre medidas de cunho econômico direcionadas aos índios, que chamou de ações para a "autonomia indígena".

Na última quarta-feira (22), Bolsonaro disse que Bruno e Dom morreram em uma região de notórios índices de criminalidade e que, portanto, "culpar o governo federal por isso é de uma insensatez muito grande”. A fala ocorreu durante um evento na Confederação Nacional do Comércio (CNC). O discurso reforça a abordagem que o presidente adotou desde o início em relação ao caso, que é a de indicar que o indigenista e o jornalista desprezaram riscos que sabiam correr.

Movimentos sociais cobram da Polícia Federal um aprofundamento das investigações. Eles acreditam que a conclusão da apuração, que não aponta um mandante para os assassinatos, pode ter sido precipitada e esperam que órgãos internacionais pressionem o governo brasileiro.

Na quarta-feira (22), entidades levaram até a Organização das Nações Unidas (ONU) uma denúncia contra a atuação do governo brasileiro no caso.

Caso Bruno e Dom vira munição para adversários nas eleições

Os assassinatos de Bruno e Dom inevitavelmente devem virar assunto na campanha eleitoral. Adversários de Bolsonaro devem explorar principalmente a repercussão internacional do caso.

A atuação do governo brasileiro em relação à Amazônia sempre foi, desde o início do mandato, um ponto de controvérsia e motivo para olhares internacionais por causa de focos de incêndio e de desmatamento. Agora, o fato de um estrangeiro ter sido vítima de homicídio na região reforça esse quadro de desconfiança.

Dias após a descoberta dos corpos de Bruno e Dom, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu pré-candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB), divulgaram nota em que disseram que o crime era fruto do "incentivo à violência por parte do governo atual do país".

Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), os principais expoentes da chamada terceira via na disputa ao Palácio do Planalto, se somam às críticas ao modo como o governo tem conduzido o episódio.

"Hoje a Amazônia está sendo dominada por narcotraficantes, contrabandistas, garimpeiros ilegais, caçadores ilegais. Eu não tenho medo e vou fazer o que estiver ao meu alcance pra que a Amazônia volte pras mãos de quem verdadeiramente a ama e a protege", publicou Ciro em suas redes sociais.

O ex-ministro disse que a Amazônia vive uma "versão cabocla do Estado Islâmico" e cobrou também o ministro General Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, a quem chamou de "vice rei da Amazônia". Ciro tem na soberania nacional um dos principais pontos de sua plataforma política e avalia que o episódio revela uma fragilidade da gestão Bolsonaro neste aspecto.

Já Tebet cobrou "investigação severa" para o que chamou de "crime bárbaro". "Meus sentimentos às famílias do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira neste momento inconsolável. Que a coragem desses dois defensores dos direitos humanos e do meio ambiente nos inspire a lutar. O Brasil precisa voltar a ter paz e clama por #JusticaParaDomEBruno", escreveu.

O pré-candidato do União Brasil, Luciano Bivar, também cobrou a elucidação do caso. "Lamentamos as mortes violentas do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Philips. O Brasil inteiro acompanhou as buscas e descobriu que a Amazônia está tomada por invasores criminosos. Esses crimes não podem ficar impunes", escreveu.

Oposição comanda narrativa no Congresso

As reações ao caso Bruno e Dom no Congresso Nacional têm sido comandadas pela oposição a Bolsonaro. Tanto na Câmara quanto no Senado foram instaladas comissões para acompanhar as investigações do caso. Nas duas casas, os colegiados são formados quase que integralmente por adversários do presidente da República.

No Senado, o presidente da comissão é Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O grupo se uniu à Comissão de Direitos Humanos (CDH) da casa, presidida por Humberto Costa (PT-PE), para convidar o ministro da Justiça, Anderson Torres, para falar sobre as investigações, mas este não apareceu. Eles pretendem agendar uma nova data para o encontro com o titular da Justiça.

Já na Câmara o coordenador da comissão é José Ricardo (PT-AM). À Gazeta do Povo, o deputado disse que o grupo tem sido procurado por lideranças da região onde ocorreu o crime, que pedem o aumento da segurança no local. Ele também definiu a comissão como "fundamental para pressionar".

Ricardo disse que o colegiado "está de portas abertas" para receber membros da base do governo Bolsonaro, o que praticamente não ocorreu até agora – o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM) foi, até o momento, o único governista que procurou o grupo. "É uma comissão que não tem nada de questão partidária. Está aberta a todo mundo, portas abertas, para receber sugestões das lideranças dos diversos partidos", apontou Ricardo.

Membros da comissão deverão visitar, nas próximas semanas, o município de Atalaia do Norte, no Amazonas, para colher informações.

Relembre os detalhes do crime que chocou o Brasil e o mundo

Bruno Pereira e Dom Phillips foram vistos na região do Vale do Javari, no Amazonas, pela última vez no dia 5 de junho. Dez dias depois, a polícia localizou os restos mortais dos desaparecidos. Os corpos foram localizados em um local indicado pelo pescador Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como "Pelado”. Ele confessou participação no crime e foi preso.

A PF informou que o indigenista foi morto com dois tiros na região abdominal e torácica, e um na cabeça, enquanto o jornalista britânico levou um tiro no abdômen/tórax. A munição usada no assassinato foi típica de caça.

Dom era colaborador do jornal britânico The Guardian e já havia produzido reportagens sobre desmatamento na floresta amazônica. Bruno era servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) e denunciava ameaças sofridas na região. Ele atuava como colaborador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), uma entidade que tinha como foco impedir invasão da reserva por pescadores, caçadores e narcotraficantes.

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