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“Deepfake” deve invadir campanha eleitoral: entenda como funcionam os vídeos manipulados

Especialista sugere que internauta "desconfie sempre" antes de divulgar vídeos
Especialista sugere que internauta "desconfie sempre" antes de divulgar vídeos para evitar de compartilhar deepfakes (Foto: Unsplash, John Schnobrich/Reprodução)

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A utilização de vídeos com a técnica "deepfake" é um quadro que deverá estar presente na disputa eleitoral de 2022. Neste tipo de vídeo, efeitos de computação são utilizados para simular os rostos e as vozes de pessoas, de modo a sugerir que elas tenham feito algo que não corresponda à realidade. Um exemplo de vídeo "deepfake" que ganhou repercussão internacional foi o que mostrava um discurso falso do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em que ele anunciava a rendição de seu país à Rússia. O vídeo fraudulento foi divulgado em março e motivou declarações oficiais de sites como Facebook, YouTube e Twitter, que excluíram a publicação de suas plataformas.

Os "deepfakes" não são exatamente uma novidade. Vídeos com este perfil circulam pela internet desde a segunda metade da década passada. A presença de "deepfakes" foi significativa durante as eleições dos EUA em 2020, quando o país votou para presidente e elegeu Joe Biden. O panorama daquele momento levou a Microsoft, gigante de tecnologia, a criar um software especializado na identificação de "deepfakes". Exemplos anteriores haviam sido registrados nos períodos eleitorais norte-americanos de 2018 e 2016, e também em circunstâncias não diretamente ligadas à política.

A propagação de vídeos com "deepfake" durante o período eleitoral é algo que pode levar os responsáveis a sofrerem as mesmas punições aplicáveis aos disseminadores de notícias falsas, as chamadas fake news. "A natureza desta ação é de uma informação fraudulenta, assim como as fake news, só que em um formato audiovisual. Logo, tem as mesmas sanções das fake news", explicou o advogado Renato Ribeiro, especialista em Direito Eleitoral.

Ribeiro avalia que a Justiça Eleitoral brasileira tem se qualificado para conseguir responder de maneira ágil a esse quadro. "Nas eleições de 2022, o ambiente em relação a esse assunto é mais propício a gerar condenações, tendo em vista que essa técnica tem se popularizado", disse. Entre as punições possíveis aos responsáveis está a perda de mandato, no caso de propagação feita por candidatos que tenham vencido a disputa eleitoral.

"Deepfake" ou "shallowfake"?

Um vídeo que circulou pela internet nas últimas semanas foi apontado como "o primeiro 'deepfake' das eleições 2022". A peça simulava uma edição do Jornal Nacional, da TV Globo, em que se apresentava uma pesquisa eleitoral na qual o presidente Jair Bolsonaro (PL) era o líder, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estaria na segunda colocação.

O vídeo manipulado pegava trechos de uma reportagem real do JN, narrada pela jornalista Renata Vasconcellos, e trocava a ordem das falas para modificar seu sentido. Na verdade, o Jornal Nacional noticiou uma pesquisa que dizia o oposto, com Lula em primeiro lugar e Bolsonaro em segundo.

O tipo de edição feita para o vídeo motivou debates sobre se a peça seria efetivamente um "deepfake" ou não. Porque no caso não houve a simulação da voz de Renata Vasconcellos, e sim uma edição com trechos de falas que ela efetivamente fez. Este tipo de manipulação, para alguns especialistas, seria o que é chamado de "shallowfake". A palavra "shallow", em inglês, significa algo como "raso", um contraste a "deep", que é "profundo".

Para o engenheiro de computação Otávio Lube, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a discussão sobre os tipos de manipulação e os termos correspondentes é menos relevante, diante da concepção de que tratam de publicações falsas e que, na sua avaliação, precisam ser combatidas. "Acho que no fim das contas é a mesma coisa, apenas feito de forma mais sutil. A questão não é tanto assim a técnica que foi adotada, e sim a mensagem que é passada", destaca.

Segundo Lube, nos últimos anos a tecnologia necessária para se produzir um "deepfake" se tornou mais acessível – e, portanto, mais peças com este perfil tendem a aparecer pela internet. Mas ele ressalta que a qualidade no tipo de produção também varia bastante. Há "deepfakes" que são realmente profissionais, em que a manipulação é de difícil percepção, e há as feitas de forma mais grosseira.

Os vídeos "deepfakes" de melhor qualidade técnica são feitos com equipamentos que não estão acessíveis à maior parte da população. Alguns deles se utilizam de técnicas de inteligência artificial e do chamado "machine learning", que consiste em estimular o "aprendizado" das máquinas. Um exemplo disso é a produção das vozes falsas. O método para se chegar até isso prevê a inserção, nos softwares, de exemplos reais das vozes que se quer imitar, até que o programa "entenda" a voz em questão e passe a saber como "imitá-la".

"Desconfiar sempre"

O professor Otávio Lube acredita que a principal ferramenta para a identificação de uma "deepfake" não é de cunho tecnológico, mas sim de percepção pelo usuário comum de internet: "a primeira coisa é desconfiar sempre".

"Eu tenho uma pergunta padrão para casos desse tipo: qual é a fonte? Quem está falando sobre isso? Tem que desconfiar, ver se saiu em algum veículo de imprensa confiável, ver se mais pessoas estão falando sobre isso", explicou.

O eleitor que reconhecer um vídeo "deepfake" pode apresentar uma denúncia ao Ministério Público Eleitoral (MPE) ou encaminhar a peça aos departamentos jurídicos das campanhas das vítimas da manipulação.

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