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Eleições 2022

Caso Master alimenta estratégia da direita para conquistar o Senado e pressionar STF 

oposição Senado Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, e a bancada da oposição no Senado Banco Master (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

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O escândalo envolvendo o Banco Master passou a ser incorporado por lideranças da direita como peça central de uma estratégia eleitoral voltada às eleições de 2026, com foco na conquista do Senado e no enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal (STF). A avaliação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é de que o caso, ao levantar suspeitas sobre a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e autoridades públicas, pode reforçar a narrativa de desgaste das instituições e impulsionar candidaturas alinhadas a um discurso mais crítico à Corte. 

Do lado da direita, o cálculo é direto: conquistar ao menos 41 das 81 cadeiras do Senado para garantir maioria absoluta e ampliar o poder de influência sobre a agenda legislativa e institucional. Com esse número, a oposição poderia eleger o presidente do Senado e avançar em pautas sensíveis, como a abertura de processos de impeachment contra ministros do STF — uma das principais bandeiras defendidas por aliados de Bolsonaro.

O caso do Banco Master se encaixa nesse cenário como um elemento de mobilização política. Parlamentares de partidos como o Partido Liberal (PL) e o Partido Novo passaram a explorar as investigações da Polícia Federal, que apontam suspeitas de fraudes financeiras e possíveis conexões do banqueiro com autoridades, para reforçar críticas ao Supremo e defender a necessidade de uma atuação mais firme do Senado no controle do Judiciário. 

Lideranças do PL discutem candidaturas consideradas de “confiança” para a disputa ao Senado, com nomes ligados diretamente ao entorno de Bolsonaro e alinhados ao discurso de enfrentamento institucional. A ideia, segundo aliados, é transformar o caso Master em símbolo de um sistema que precisa ser investigado e, ao mesmo tempo, utilizar o tema como combustível para ampliar a presença da direita na Casa responsável por julgar ministros do STF. 

“Todos nós somos favoráveis ao impeachment de qualquer ministro do STF que descumpra a lei. Isso só não acontece hoje porque ainda não temos a maioria no Senado”, afirmou o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato à Presidência pelo PL. 

Bolsonaro escolhe candidatos de confiança para a disputa ao Senado 

A estratégia da direita para ampliar sua presença no Senado passa diretamente pelo controle das candidaturas consideradas prioritárias para 2026. Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmam que a definição dos nomes tem sido centralizada nele, que busca montar uma bancada alinhada ideologicamente e comprometida com pautas como o enfrentamento ao STF.

As articulações, que vinham sendo conduzidas durante as visitas dos aliados ao complexo da Papudinha, foram temporariamente interrompidas nos últimos dias em razão da internação do ex-presidente após diagnóstico de uma infecção bacteriana no pulmão. Mesmo assim, interlocutores afirmam que a definição dos nomes segue como prioridade estratégica para o grupo político.

Nos bastidores, o objetivo é evitar concessões ao chamado Centrão e garantir que as futuras vagas no Senado sejam ocupadas por parlamentares alinhados ao projeto político do ex-presidente. “Eu disse para ele que é fundamental manter o plano original de lançar apenas candidatos ao Senado da confiança dele. Não fazer concessões ao Centrão no Senado. No Senado tem que ser gente fiel a ele”, afirmou o deputado Sanderson, nome escolhido para disputar uma cadeira de senador pelo Rio Grande do Sul. 

Além dele, entre os nomes já escolhidos estão o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o da deputada Bia Kicis, que irão concorrer pelo Distrito Federal. O ex-presidente também já bateu o martelo sobre as candidaturas do seu filho Carlos Bolsonaro e da deputada Carol de Toni em Santa Catarina. 

A avaliação dentro do PL é de que o caso Master reacendeu o debate sobre pedidos de impeachment de magistrados do Supremo — tema que já vinha sendo explorado por setores da oposição e ganhou novo fôlego com a repercussão das mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Parlamentares afirmam que o episódio evidencia a necessidade de maior controle institucional sobre o Judiciário, especialmente por parte do Senado, responsável constitucionalmente por julgar ministros do STF. 

“O Senado não pode se omitir diante de fatos dessa magnitude. Ninguém está acima da lei, nem banqueiros poderosos, nem ministros do Supremo Tribunal Federal”, afirmou o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara, ao defender o avanço de investigações sobre o caso. 

Pesquisa mostra que impeachment de ministros é uma das bandeiras do eleitorado 

O debate sobre o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal não se restringe ao ambiente político e já alcança o eleitorado. Levantamento da pesquisa Genial Quaest, divulgado na semana passada, indica que 66% dos brasileiros consideram importante votar em candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de afastamento de magistrados da Corte, enquanto 22% discordam da ideia. 

O apoio ao tema aparece de forma significativa em diferentes grupos do eleitorado. Entre os entrevistados que se identificam com a direita, a adesão ultrapassa 80%, mas também há respaldo relevante entre eleitores independentes e até mesmo entre parcelas da esquerda. 

De acordo com o levantamento, 54% dos eleitores que se declaram lulistas e 52% que se dizem da esquerda não lulista consideram importante votar em senadores favoráveis ao impeachment de ministros do STF. O levantamento aponta que 72% dos brasileiros avaliam que o STF tem “poder demais”, enquanto 59% consideram que a Corte atua como aliada do governo federal. 

A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre os dias 6 e 9 de março, com margem de erro de cerca de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o código: BR-05809/2026. 

“A minha pré-candidatura trata de fortalecer uma Casa que precisa ter coragem para enfrentar abusos, defender a liberdade e proteger o povo brasileiro”, afirmou o deputado Marcos Pollon, escolhido para uma das candidaturas do PL ao Senado pelo Mato Grosso do Sul. 

Especialistas veem disputa pelo Senado como chave para o equilíbrio entre Poderes 

Na avaliação de especialistas, o foco crescente no Senado reflete uma estratégia política com impacto direto sobre o equilíbrio institucional no país. Para Magno Karl, cientista político do grupo Livres, o interesse de setores da direita na Casa está ligado às suas atribuições exclusivas. 

“O Senado concentra poderes que o Congresso como um todo não tem. Para uma direita que diagnostica o problema brasileiro como excesso de poder judicial, controlar o Senado é a via institucional de influir sobre o perfil do Estado sem precisar da Presidência”, afirmou. 

Segundo ele, casos como o do Banco Master tendem a reforçar esse movimento ao ampliar o debate público sobre o papel do STF. “A exposição de ministros do Supremo como interlocutores de um banqueiro preso não coloca apenas decisões em discussão, mas traz a conduta dos seus integrantes para o debate. O papel do Senado será discutido em 2026 de uma maneira que jamais aconteceu desde a redemocratização”, disse. 

Para o cientista político Elias Tavares, o protagonismo do Senado também se explica pelo calendário eleitoral e pela possibilidade concreta de mudança na correlação de forças da Casa. “O Senado concentra competências como a sabatina de ministros do Supremo e a condução de processos de impeachment, o que naturalmente eleva seu peso político em momentos de tensão entre os Poderes”, afirmou. 

Tavares pondera, no entanto, que o impacto eleitoral do caso Master tende a ser indireto. “A eleição para o Senado é fortemente regional, mas o caso pode reforçar o discurso de setores da oposição sobre a necessidade de maioria na Casa para exercer controle institucional”, disse. 

Ainda de acordo com o analista, uma eventual maioria pode ampliar a capacidade de pressão sobre o STF, ainda que não represente um confronto imediato. “Não se trata apenas de impeachment, mas de influenciar sabatinas, indicações e tensionar institucionalmente o Judiciário”, avaliou Tavares. 

Ambos os especialistas apontam que a disputa pelo Senado em 2026 tende a extrapolar o campo eleitoral e influenciar diretamente a relação entre os Poderes. 

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