
Ouça este conteúdo
A proximidade das eleições de outubro e a divisão dos R$ 131,5 milhões do Fundo Eleitoral acenderam uma nova crise dentro do PSOL: a deputada federal Erika Hilton e o ministro Guilherme Boulos entraram em rota de colisão com a direção nacional do partido ao denunciar o que classificam como descumprimento de acordos sobre a distribuição dos recursos para as campanhas de 2026.
Os atritos já tinham se intensificado depois que parte de seus principais expoentes decidiu prestar apoio irrestrito ao governo Lula, inclusive ocupando ministérios, o que a ala mais à esquerda do partido era contra. Além da Secretaria-Geral da presidência ocupada por Boulos, a sigla comandou ao longo de quase todo este terceiro governo Lula o Ministério dos Povos Indígenas, com Sônia Guajajara — ela saiu do governo federal em março para dedicar-se à campanha de reeleição como deputada federal por São Paulo. O ministério ficou a cargo de Eloy Terena, sem filiação partidária.
Parte da bancada do PSOL no Congresso Nacional, mais ligada aos deputados federais Sâmia Bomfim e Glauber Rocha, entre outros, tenta se afastar um pouco do apoio acrítico do partido ao governo Lula. Com a chegada das eleições, mais uma frente de disputa se abre entre os diversos grupos dentro do partido de esquerda.
VEJA TAMBÉM:
PSOL quer aumento de bancada para não ser penalizado pela cláusula de barreira
O estopim da nova contenda foi uma postagem da deputada federal Erika Hilton, no início da semana passada, criticando a proposta do comando nacional da sigla para a partilha dos R$ 131,5 milhões de verba pública que o partido receberá para as eleições em 2026 — mais da metade dos recursos deverá ser destinada a candidaturas à Câmara dos Deputados. O partido tenta aumentar sua bancada para não ser penalizado pela cláusula de barreira, mais restrita esse ano.
Hilton acusa a direção partidária de não cumprir um acordo com ela e outros candidatos considerados puxadores de votos. "Simplesmente chocada e decepcionada”, começa Hilton na publicação de seu longo desabafo no X.
“Ninguém quer tirar o básico ou negar importância de quem está nas suas primeiras campanhas. O que não podemos aceitar é a falta de transparência e o suicídio político de sufocar quem tem a força popular para garantir a sobrevivência do partido. Nós ficamos no PSOL para superar a cláusula de barreira e eleger bancadas fortes. Agora, exigimos que a direção cumpra a sua palavra”, reclama a deputada.
Ela afirma que o presidente nacional da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, em sua primeira campanha, receberá a mesma quantidade de dinheiro que ela para tentar se eleger. A gaúcha Manuela D’Ávila, recém-chegada à sigla, teria a previsão de contar com mais que o dobro dos recursos, segundo a deputada por São Paulo.
Hilton ainda continuou dizendo que, com a decisão do partido, "a inteligência política passou longe”. Segundo apuração do site Metrópoles, o PSOL estaria prevendo cerca de R$ 2 milhões para a candidatura de Hilton e outros deputados federais em busca de reeleição, o mesmo montante que deve ser investido em nomes de primeira viagem considerados “estratégicos”, como a esposa de Boulos, Natalia Boulos, e Medeiros, que devem concorrer à Câmara por São Paulo.
A campanha de Manuela ao Senado pelo Rio Grande do Sul poderia contar com até cerca de R$ 5 milhões, de acordo com a apuração do site. No final da semana, Boulos saiu em defesa de Hilton.
"Neste caso, em particular, eu acho que a deputada Erika Hilton, minha companheira, tem muita razão. É natural que ela faça cobrança de que uma candidatura como a dela, que é de puxadora de voto, seja valorizada pelo partido, assim como outras", disse ele à CNN Brasil.
"Tem uma coisa que vale para a política e a vida: acordo se cumpre. A palavra é aquilo que você tem de mais valioso para ter credibilidade. Quando não se cumpre acordo, as coisas descambam”, complementou Boulos.
Hilton e Boulos podem migrar para o PT após rejeição de federação entre os partidos
Em nota, o PSOL rebate as acusações da deputada federal, e diz que ela "é o maior investimento do partido”. “A proposta, que ainda será votada nas instâncias partidárias, leva em conta essas metas e estabelece um teto, com o maior valor possível, para todos os detentores de mandato que buscarão a reeleição, considerados nossos principais puxadores de voto”, afirma o comunicado assinado pela presidente do PSOL, Paula Coradi.
"Ao mesmo tempo, posiciona a campanha de Erika Hilton como maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais do partido, diante do limite de recursos disponíveis e da necessidade de financiamento das demais candidaturas, tanto majoritárias quanto proporcionais em todas as unidades da federação”, rebate o partido.
Em março, o PSOL rejeitou a proposta de formar uma federação com o PT. Na mesma reunião, foi mantida a federação com a Rede para estas eleições. De acordo com fontes do PSOL em São Paulo ouvidas pela Gazeta do Povo, é esperado dentro do partido que Erika Hilton, talvez Boulos e parlamentares ligados aos dois favoráveis à proposta derrotada de federação com o PT troquem uma sigla de esquerda pela outra.







