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Eleições 2026

“Família em conserva” potencializa voto cristão em setor que Lula é mais rejeitado nas urnas

Desfile da Acadêmicos de Niterói acirra críticas no meio evangélico e tende a ampliar a resistência ao PT entre esse eleitorado em 2026.
Desfile da Acadêmicos de Niterói acirra críticas contra Lula no meio evangélico e católico. (Foto: Antonio Lacerda/ Agência EFE)

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O desfile da Acadêmicos de Niterói sobre a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou forte reação no meio cristão, principalmente entre os evangélicos, o que acendeu o sinal de alerta no governo petista. A maior preocupação do grupo político de Lula é com o impacto do desfile na corrida pela reeleição em outubro, após a escola de samba retratar a “família em conserva”, na ala que ridicularizava o movimento conservador.  

Apesar das denúncias de propaganda antecipada e abuso de poder na Justiça Eleitoral, o que pode até deixar Lula inelegível, o julgamento do eleitor cristão preocupa ainda mais o governo petista. O histórico eleitoral dos evangélicos justifica o alarme. Nas últimas duas eleições presidenciais, o grupo religioso se consolidou como o que mais rejeita Lula, e a sátira na Sapucaí pode aumentar o abismo entre o PT e os evangélicos, identificados com as bandeiras da direita conservadora.

Nas redes sociais, a reação veio de católicos e evangélicos, que passaram a publicar imagens das próprias famílias “enlatadas” com recursos de inteligência artificial, em defesa do conservadorismo. Um dia após o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói no carnaval carioca, um levantamento do instituto Ideia confirmou a alta rejeição do público evangélico ao desfile.

De acordo com a pesquisa divulgada nesta quinta-feira (19), 61,1% dos evangélicos entrevistados enxergam preconceito ou ofensa à liberdade religiosa na ala "Neoconservadores em conserva". Segundo os dados, 45,9% dos fiéis souberam da notícia por reportagens ou pelas redes sociais, enquanto 19,1% assistiram ao desfile ou a vídeos da exibição.

Além disso, para 35,1% dos evangélicos, a sociedade reagiria com mais intensidade se o desfile retratasse outra religião. O instituto Ideia coletou as respostas via internet na quarta-feira (18) e ouviu 656 pessoas em 315 municípios. O levantamento apresenta margem de erro de 3,8 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

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A última pesquisa Genial/Quaest mostra que 61% dos evangélicos desaprovam o governo Lula, acima da desaprovação do público geral, de 49%, conforme o levantamento divulgado em fevereiro. Os números confirmam a resistência do segmento religioso conservador aos candidatos de esquerda, apontada pelas urnas desde a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, quando ele obteve quase 70% dos votos evangélicos.  

Para o cientista político Mário Lepre, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) no Paraná, a campanha petista pode pagar o preço nas urnas pela homenagem a Lula na Sapucaí. "Foi um erro grave. Mais que uma propaganda antecipada, eles acabaram mostrando que o homenageado é contra a instituição família. Foi um ataque a parte significativa da sociedade, que pode significar um potencializador de oposição ainda maior nas urnas", ressalta Lepre.

Para o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, o episódio amplia o distanciamento entre a esquerda e o eleitorado evangélico, segmento em que o PT tem dificuldade histórica de dialogar, apesar do peso eleitoral.

"O Partido dos Trabalhadores tenta fazer uma aproximação com o crescente eleitorado evangélico, mas sempre acaba tendo algum problema relacionado a valores. A família é um valor muito importante para os cristãos e muito difundido entre os evangélicos”, comenta.

Na avaliação de Cerqueira, o desfile em homenagem ao petista tomou o caminho contrário e, ao invés de criar uma ponte com o eleitorado, reforça o antagonismo entre os cristãos e a esquerda. “Agredindo essa instituição [família], gera-se um afastamento maior. Os progressistas afirmam que o Estado deve assumir a educação moral dos filhos, e os conservadores acreditam que é a família quem tem esse papel. Isso cria um abismo cada vez maior entre a esquerda e os que seguem valores cristãos", afirma.

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Um estudo da Mar Asset Management, gestora de ativos, divulgado no ano passado, projeta que os evangélicos devem alcançar 35,8% da população brasileira até o final de 2026. A alta de 3,7 pontos percentuais em relação ao pleito de 2022 pode comprometer uma eventual reeleição de Lula, segundo a análise.

“A combinação entre o padrão de votação dos evangélicos e o seu crescimento como proporção da sociedade é muito negativa para o PT nas eleições subsequentes. Apenas esse aumento previsto já seria suficiente para alterar o resultado da eleição. [...] Ou seja, mantidas as intenções de votos no PT entre evangélicos e não evangélicos iguais às de 2022, Lula obteria 49,8% dos votos válidos”, aponta o estudo.

Até 2014, os evangélicos distribuíram os votos de forma relativamente equilibrada entre o candidato do PT e o adversário. Em 2014, ano da reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o grupo religioso respondeu por 49% da intenção de voto na véspera do segundo turno.

Na eleição de 2022, Lula obteve a maior votação da história entre eleitores não evangélicos. Ainda assim, mesmo com a repetição desse cenário, o crescimento do eleitorado evangélico pode impulsionar a vitória de um candidato de direita em 2026, segundo o estudo da Mar Asset Management.

“Entre 2010 e 2024, o número de igrejas de denominações evangélicas com CNPJ ativo dobrou, chegando a mais de 140 mil templos em 2024. O ritmo de expansão permaneceu surpreendentemente constante. Em todos os ciclos presidenciais desde 2010, as igrejas abriram, em média, cerca de 5 mil novos templos por ano”, aponta.

Resistência dos evangélicos a Lula se consolidou em 2018 e se manteve elevada nas eleições de 2022.Resistência dos evangélicos a Lula se consolidou em 2018 e se manteve elevada nas eleições de 2022. (Foto: Antonio Lacerda/ Agência EFE)

Católicos ampliam as críticas contra desfile pró-Lula

Além dos evangélicos, integrantes da Igreja Católica se manifestaram contra o desfile da Acadêmicos de Niterói pela sátira contra a família. A adesão de católicos pode intensificar o desgaste do governo Lula entre os cristãos. Historicamente, o PT tem um melhor desempenho nas urnas entre católicos em relação ao público evangélico.

Influenciador digital com mais de 4 milhões de seguidores no Instagram, padre Chrystian Shankar critica a alegoria da “família em conserva” que ridiculariza os valores cristãos. "Quando a ideia de compromisso, fidelidade e estabilidade passa a ser vista como antiquada, instala-se uma cultura onde relações frágeis são normalizadas e quem valoriza lares sólidos se torna motivo de caricatura. O humor, repetido muitas vezes, acaba funcionando como propaganda: dissolve referências, enfraquece responsabilidades e facilita a substituição do duradouro pelo provisório", analisa Shankar.

Em nota, a Frente Parlamentar Católica manifesta “indignação” com o desfile e afirma que a liberdade artística não anula o respeito à religião. “Quando manifestações culturais ganham ampla repercussão pública, sobretudo com uso de recursos públicos, aumenta a responsabilidade sobre como crenças, princípios e valores são retratados”, disse o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), presidente da frente parlamentar.

Ele cobra a investigação do episódio e a punição dos envolvidos, caso se confirmem as ilegalidades. “Há indícios de que o desfile tenha ultrapassado os limites estabelecidos pela legislação ao tratar de convicções religiosas.” A escola de samba recebeu R$ 1 milhão da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), o mesmo valor destinado às demais escolas do grupo principal do carnaval do Rio de Janeiro.

  • Metodologia da pesquisa citada: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 5 e 9 de fevereiro sobre a intenção de voto a presidente. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-00249/2026.

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