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Corrida presidencial

Flávio Bolsonaro revela prioridades de campanha e convoca direita a se unir

Redes sociais: Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.
Flávio e Nikolas: unificação de discurso é considerado ponto forte da direita desde vitória presidencial em 2018. (Foto: Beto Barata/PL)

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O pré-candidato à Presidência da República e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem sinalizado uma estratégia digital centrada na reorganização do campo da direita nas redes sociais. Na última semana, ele afirmou que pretende concentrar cerca de 90% da campanha ao Palácio do Planalto nas plataformas online e pediu para que a militância mantenha o discurso unificado, sem ataques dentro do espectro político.

Adotando o mesmo tom de moderação demonstrado desde o anúncio da pré-candidatura, em dezembro, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) alerta para o risco eleitoral em decorrência de conflitos internos, reforçando a importância do engajamento direto dos apoiadores, ativo historicamente associado ao pai dele.

“Esse ajuste fino a gente tem que fazer. Por mais que dê vontade, às vezes, de atacar, provocar, enfim, esfregar a verdade na cara, eu peço que deem uma respirada antes. Pensem sempre o seguinte: o que a gente vai ganhar com isso?”, disse Flávio durante mensagem enviada aos seguidores pelo Space, funcionalidade da rede X que possibilita grupos de conversa em áudio ao vivo.

O episódio foi motivado por recentes atritos envolvendo o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), citado por Flávio como aliado relevante, que foi alvo de críticas nas redes sociais. Segundo o presidenciável do PL, a unificação do discurso é fundamental para concentrar o debate contra a reeleição de Lula (PT).

Além do retorno de um representante da família Bolsonaro à cadeira presidencial, Flávio avalia que a construção de um Congresso Nacional com ampla maioria de representantes da direita conservadora está entre as prioridades nas eleições de outubro. “É Presidência da República, Senado, deputado federal, depois governador e por último deputado estadual. Essa é a prioridade, pois todo mundo aqui é maduro o suficiente para entender que o jogo é pesado no Congresso”, ressalta.

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Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que a estratégia digital e o apelo à pacificação entre aliados dialogam com desafios identificados pela campanha de Flávio, como a necessidade de ampliar a presença nas redes e consolidar uma base política mais coesa. Então preso na Papudinha, em Brasília, Jair Bolsonaro já havia alertado para o risco de divisão da direita nas redes sociais em carta enviada à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

“Lamento as críticas da própria direita dirigidas a alguns colegas e à minha esposa. [...] Numa campanha majoritária, bem como às cobiçadas vagas para o Senado, os apoios devem vir pelo diálogo e convencimento, nunca por pressões ou ataques entre aliados”, disse o ex-presidente. 

Na avaliação de João Paulo Castro, fundador e diretor-executivo da Datrix — empresa que monitora índices dos presidenciáveis nas redes sociais — o “fogo amigo” é um fenômeno recorrente no ambiente digital e no último ano foi direcionado ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), quando ele, aliado de Bolsonaro, ainda era cotado como presidenciável da direita brasileira pela inelegibilidade do ex-presidente.

“O diagnóstico é que esses ataques continuam ocorrendo, inclusive contra figuras que não disputam diretamente espaço com Flávio. Há casos de nomes relevantes dentro do próprio bolsonarismo sendo alvo da base, o que indica um problema de coordenação interna”, avalia Castro.

“O deputado Gayer é uma das principais vozes de influência digital desse campo político, com forte presença nas redes, o que reforça a leitura de que a campanha identificou corretamente esse ruído”, completa.

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Além de Gayer e Tarcísio, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) — considerado o parlamentar mais influente do Brasil — também foi alvo recente do “fogo amigo”. Irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) cobrou o correligionário por maior adesão à campanha presidencial.

Consultora em marketing político e pesquisadora em comunicação política, Vanessa Marques analisa que o deputado mineiro passou a ocupar um local de protagonismo nas redes, o que explica a aproximação entre ele e Flávio para o alinhamento do projeto nacional. Nikolas também visitou o ex-presidente preso para discutir o planejamento político das eleições deste ano, principalmente em Minas Gerais.

“O ‘nicolismo’ pode, futuramente, obrigar uma fusão a uma outra linha que não seja determinada pela família Bolsonaro. De certa forma, isso é natural. A gente vê outras figuras políticas que querem fazer voo solo”, comenta ela.

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Na avaliação da pesquisadora, a disputa por protagonismo dentro do campo conservador pode enfraquecer a coesão para uma campanha competitiva, sendo que a concentração de esforços no alinhamento do discurso digital foi um dos pontos fortes da ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018.

“Diferentemente da esquerda, a direita costuma operar com maior disciplina em torno de uma linha narrativa comum. Quando há definição clara, a tendência é de forte concentração de discurso e coordenação de conteúdo, o que amplia o alcance e o impacto nas redes”, explica Marques.

Para o diretor-executivo da Datrix, João Paulo Castro, a postura de Flávio sinaliza para a passagem de bastão do ex-presidente ao filho escolhido, sendo que o senador possui uma característica conciliadora, o que favorece o movimento de unificação nas redes.

“A estratégia parece evidente: evitar ataques a aliados e fortalecer a atuação conjunta contra adversários. Trata-se de uma abordagem racional, sustentada por dados e diagnósticos de comportamento digital. No entanto, há um limite prático, já que o comportamento nas redes é majoritariamente emocional, o que reduz a previsibilidade da adesão”, ressalta Castro.

De acordo com ele, o desafio será equilibrar o discurso moderado ao comportamento do eleitorado nas plataformas digitais, que tende a engajar mais os conteúdos de oposição e antagonismo. “Conteúdos de ataque e confronto geram mais engajamento do que conteúdos de apoio ou defesa. Esse padrão não é exclusivo da política, mas se repete em diversas áreas. Ou seja, a lógica das redes incentiva esse tipo de comportamento, o que dificulta qualquer tentativa de controle.”

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