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Quem tem vários possíveis candidatos a um cargo importante, na verdade não tem nenhum — já diria à reportagem da Gazeta do Povo um sábio e experiente observador político do Centrão em São Paulo, reproduzindo, por sua vez, a sabedoria “popular" que viceja nos corredores do Congresso Nacional, sobre o correligionário e presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.
Tido por muitos analistas e colegas do meio político como um dos maiores estrategistas e caciques eleitorais do país, Kassab emerge como um dos maiores derrotados nas eleições 2026 — independentemente do resultado das disputas de segundo turno para governador e presidente ainda por acontecer —, um símbolo da perda de espaço do Centrão para a direita no país.
Neste ano, a maioria das apostas majoritárias partidárias de Kassab para o PSD parecem ter dado errado, a começar pela chamada "terceira via” para a Presidência da República. Após o fiasco nas urnas do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), com o próprio Kassab como vice em uma chapa puro-sangue — que obteve 2.605,148 votos, ou 2,18% do total no primeiro turno — o cacique do PSD tratou de tentar explicar o que aconteceu.
“Eu fiquei quase quatro anos tentando lançar o Tarcísio como candidato. O meu candidato era o Tarcísio, todo mundo sabe”, afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo logo após a derrota nas eleições.
Após o governador de São Paulo desistir da disputa presidencial para apoiar Flávio Bolsonaro (PL) e se dedicar à reeleição em São Paulo, e antes da campanha na chapa com Caiado, Kassab tentou ainda lançar para presidente o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), que declinou, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), que foi preterido pelo cacique partidário.
PSD perde volume em bancadas
A pior derrota do PSD e seu líder, porém, não foi na disputa para a Presidência da República. Antes das eleições deste ano, o PSD era uma das maiores forças partidárias e um dos “fiéis da balança” do Senado, com 14 senadores. A partir do ano que vem, serão apenas cinco.
Na Câmara dos Deputados o prejuízo foi menor, e a bancada do partido perdeu cinco cadeiras: passou de 48 para 43 deputados federais eleitos a partir da nova legislatura, em fevereiro do ano que vem.
Apesar de ter levado quatro governos estaduais no primeiro turno — Amapá, Maranhão, Pernambuco e Sergipe —, o PSD perdeu em estados importantes que governava: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. O senador Omar Aziz (PSD) disputa o segundo turno contra a Professora Maria do Carmo (PL) no estado do Amazonas.
Nas eleições estaduais, a derrota mais doída pode ter sido, no entanto, para o governo do Rio de Janeiro. O ex-prefeito da capital fluminense Eduardo Paes (PSD) liderava em todas as sondagens de intenção de voto dos principais institutos de pesquisa divulgadas ao longo do ano.
Com a proximidade do primeiro turno, a vantagem sobre o deputado estadual Douglas Ruas (PL) se estreitou e virou uma margem apertada — contados os votos e declarado o resultado, Paes ficou em segundo com 44,16% dos votos, pouco atrás de Ruas que venceu a disputa no primeiro turno como 50,88% dos votos.
A definição em primeiro turno ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) invalidar em definitivo os 274.411 votos de Anthony Garotinho (Republicanos), cuja candidatura estava indeferida. Com a exclusão desses votos da base de cálculo dos votos válidos, os percentuais foram retotalizados pela Justiça Eleitoral, permitindo que Ruas ultrapassasse a maioria absoluta (50% mais um voto), sem necessidade de um segundo turno para governador do estado.
Derrota do "método Kassab"
O resultado pode ser considerado surpreendente, já que o PSD saiu das eleições municipais de 2024 — ou seja, a apenas dois anos atrás — como o partido que havia conquistado o maior número de prefeituras do país. O partido venceu naquele ano a disputa para o comando de nada menos que 819 municípios, incluindo cinco capitais: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, Curitiba e São Luís.
"O tamanho da derrota de Kassab em 2026 não está apenas no número de senadores que perdeu, em Caiado ou no Rio”, afirma à Gazeta do Povo o cientista político Samuel de Oliveira. "O que realmente aconteceu foi uma derrota do próprio método Kassab. Durante anos ele prosperou porque conseguia ser necessário sem precisar ser protagonista: circulava entre governos, acomodava interesses distintos e construía um partido que valia mais pela capacidade de negociação do que por uma identidade eleitoral rígida”, analisa ele.
Em 2026, a polarização tirou valor desse papel. "Kassab resolveu entrar no jogo como vice de Caiado, deixou de ser apenas o homem que escolhia com quem negociar e passou também a ser julgado diretamente pela urna. E a urna rejeitou essa terceira via”, avalia o cientista político.
O especialista afirma, porém, que ainda é cedo para se tratar o revés eleitoral deste ano como o fim de um ciclo. "Kassab já perdeu antes e voltou. Em 2012 perdeu a sucessão de São Paulo mas, enquanto isso, estava construindo centenas de prefeituras pelo país”, lembra Oliveira. "Depois passou por Dilma, Temer, Doria e Tarcísio.”
Na avaliação do cientista político, a pergunta relevante agora não é se Kassab perdeu em 2026, pois isso está claro: o ponto a ser observado é se ele perdeu a infraestrutura que sempre transformou derrota eleitoral em poder posterior, de uma forma ou de outra.
"Até aqui, ele ainda tem centenas de prefeitos, governadores, mais de 40 deputados e uma máquina partidária nacional. O risco novo é outro: talvez o PL esteja começando a ocupar não só o eleitor da direita, mas também o espaço de articulação que antes tornava Kassab indispensável”, afirma.
"Kassab já perdeu eleições antes e voltou. O que ainda não sabemos é se, desta vez, ele perdeu também o mecanismo que sempre o permitiu voltar”, acrescenta Oliveira.








