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Corrida eleitoral

Lula fora da eleição? O que o petista esconde quando fala em não concorrer

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista ao ICL, no Palácio do Planalto.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista ao ICL, no Palácio do Planalto. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

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Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a possibilidade de não disputar a reeleição em 2026 vem gerando uma onda de análises sobre possíveis substitutos e cenários eleitorais desde a semana passada. Mas a fala traz mais especulações e um possível movimento tático de Lula do que propriamente uma dúvida real, segundo analistas ouvidos pela reportagem.

"O PT, a esquerda e Lula não prepararam nenhum sucessor. Não era interesse de Lula que houvesse holofotes para algum outro político da esquerda e não vai se fabricar isso a meses da eleição. Não haverá transferência de voto suficiente para que um outro candidato apareça", afirmou o cientista político Alexandre Bandeira.

Assim, ao colocar em dúvida sua candidatura, Lula revela menos indecisão do que cálculo político, aliado a uma reação exagerada do mercado, segundo analistas ouvidos pela reportagem.

Lula afirmou em entrevista ao portal ICL Notícias, na quarta-feira (8): “Eu falo que não decidi que vou ser candidato ainda. Vai ter uma convenção em junho e eu, para decidir ser candidato, vou ter que apresentar um programa, vou ter que apresentar uma coisa nova para esse país”. Na sequência da entrevista, entretanto, o próprio Lula também admitiu que dificilmente ficará fora da disputa.

"Ao condicionar a candidatura à apresentação de 'algo novo para o país', Lula tenta, em alguma medida, reposicionar sua imagem. No entanto, há um desafio evidente: os sinais políticos mais recentes apontam para continuidade, e não necessariamente para ruptura ou renovação. A manutenção de alianças e figuras já conhecidas reforça essa percepção. Assim, a ideia de 'novidade' ainda carece de materialidade concreta para se sustentar como elemento central da narrativa", afirmou o o cientista político Elias Tavares.

Levantamentos recentes indicam uma pressão sobre a popularidade do presidente. Pesquisa do PoderData, realizada entre 21 e 23 de março de 2026, mostra que 61% dos brasileiros desaprovam a gestão dele, enquanto 31% aprovam. Já a sondagem da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, conduzida entre 18 e 23 de março, aponta desaprovação de 53,5% e aprovação de 45,9%. Em linha semelhante, o instituto Paraná Pesquisas registrou, no fim de março, 52% de desaprovação, contra 44,6% de aprovação.

PT não tem alternativa a Lula para disputa do Palácio do Planalto

Apesar da fala pública de indefinição eleitoral, dirigentes da esquerda tratam a candidatura de Lula a presidente nas eleições 2026 como consolidada.

A ex-ministra e deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) e o presidente da sigla, Edinho Silva, afirmaram que a declaração de Lula deve ser entendida como respeito ao rito formal do partido.

“Ele fez uma fala de quem valoriza a convenção partidária. Ele pensa que a convenção que tem que decidir, mas claro que o presidente Lula é candidato”, disse Edinho Silva na quinta-feira (9), após encontro com empresários em São Paulo.

Assim, a avaliação deles é que uma fala cordial do petista deflagrou especulações e torcida no mercado e entre seus críticos.

O deputado Nilto Tatto (PT-SP) disse à Gazeta do Povo: “O PT não tem alternativa ou plano B. A candidatura [do partido ao Planalto] é a do presidente Lula”, afirmou

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), disse em entrevista ao jornal O Globo que a fala de Lula foi "uma provocação para o campo progressista e democrático se movimentar".

Lula tenta mostrar vitalidade para não ser comparado a Biden

Desde o ano passado, Lula vem usando redes sociais para exbir imagens que o retratam correndo e fazendo diversos tipos de exercícios físicos. Na semana passada até uma imagem do presidente fazendo agachamento foi publicada.

A campanha é um esforço para evitar comparações com o americano Joe Biden, que desistiu de sua candidatura à reeleição em 2024 após ser pressionado e acusado de indícios de senilidade aos 81 anos. Lula tem 80 anos.

Na campanha de 2024, a preocupação sobre as condições de saúde de Lula já era uma preocupação de seus assessores. Ele afirmava na época ter "76 anos, com energia de 30 e tesão de 20 anos".

Discurso de Lula indica cálculo político diante de pressão 

A fala de Lula sobre sua candidatura criou especulações sobre um eventual substituto. Políticos que deixaram o governo recentemente e podem concorrer em 2026 passaram a ser cogitados como alternativas mais moderadas para vencer Flávio Bolsonaro. Entre os nomes citados estavam o do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, do ex-ministro da Educação, Camilo Santana, e até o do vice-presidente Geraldo Alckmin.

Mas além da transferência de votos ser vista como muito difícil neste momento da corrida eleitoral, diversas alianças e candidaturas regionais dependerem diretamente da figura de Lula. Se ele não participar, a abrangência do PT pode diminuir nacionalmente.

Segundo o cientista político Alexandre Bandeira, ideia da fala de Lula seria a de reduzir a pressão sobre o governo no curto prazo e preparar um conjunto de propostas com maior apelo eleitoral.

“Quando ele sinaliza que pode não ser candidato, ele tenta reduzir a pressão sobre o governo. O candidato Lula pressiona o governo Lula”, afirma Bandeira. 

A estratégia buscaria, portanto, distensionar a relação com o eleitor em um momento de cobrança elevada, criando uma espécie de “zona de respiro” político enquanto o governo tenta recompor sua base de apoio. 

A estratégia da declaração de Lula, no entanto, não é isenta de riscos. Segundo o o cientista político Elias Tavares, do ponto de vista da comunicação política, a combinação entre sinais de pré-campanha e a dúvidas sobre a candidatura pode gerar ruído e fragilizar a narrativa. “Sugere disposição para disputar, mas sem assumir plenamente essa condição”, avalia.

Nesse contexto, a declaração pode ser lida simultaneamente como cautela estratégica e indício de desgaste. Tavares afirma que, em cenários de maior conforto eleitoral, a tendência de quem está no poder é afirmar a candidatura de forma mais direta.  

"Quando isso não ocorre, abre-se espaço para a leitura de que há dificuldades eleitorais sendo consideradas e que o discurso busca justamente administrar esse risco”, completa o cientista político. 

Tavares não descarta ainda que a fala possa ser a base de uma justificativa futura caso Lula tenha uma queda muito acentuada nas pesquisas eleitorais. Segundo ele, a ambiguidade do discurso cumpre dupla função. “Ela mantém margem de manobra política, permitindo ao presidente avaliar o ambiente eleitoral e a evolução de sua popularidade, ao mesmo tempo em que funciona como uma válvula de escape”, afirma.

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Metodologias

O PoderData realizou 2.500 entrevistas por telefone em 132 municípios das 27 unidades da federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.

A AtlasIntel usou 5.028 respondentes recrutados digitalmente pela metodologia Atlas RDR, com margem de erro de 1 ponto percentual e nível de confiança de 95%. O levantamento da AtlasIntel está oficialmente registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04227/2026.

O instituto Paraná Pesquisas entrevistou 2.080 eleitores, entre 25 e 28 de março. As entrevistas foram presenciais. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O intervalo de confiança é de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00873/2026.

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