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Reta final da campanha

Lula explora fake news, afaga católicos e larga a mão de evangélicos  

Lula explora fake news na tentativa de se aproximar dos eleitores católicos.
Lula explora fake news na tentativa de se aproximar dos eleitores católicos. (Foto: André Coelho/EFE)

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Na reta final do primeiro turno, a mentira de que o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretendia retirar o título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil recolocou a religião no centro da disputa eleitoral. A exploração política do caso pelo PT escancara como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria sob pressão, segundo pessoas próximas à campanha petista ouvidas pela reportagem da Gazeta do Povo.

Mesmo depois de a informação vinculada a Flávio ter sido desmentida, Lula afirmou, no programa Canal Livre, que não sabia se, de fato, se tratava de fake news. Em seguida, defendeu que Nossa Senhora continuaria como Padroeira do Brasil porque “o povo brasileiro quer e tem fé”. 

O movimento é visto como uma tentativa de manter a vantagem do petista junto ao eleitorado católico. “O Lula estava perdendo o voto entre os católicos e ele criou essa jogada na tentativa de estancar a sangria”, afirma o cientista político Paulo Moura. 

Levantamento Atlas/Bloomberg, divulgado na quarta-feira (23), mostrou que a maioria dos católicos, 51,7%, passou a relacionar Lula diretamente à crise no Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto 18,8% a vinculam a Flávio. O tema provocou um dos maiores desgastes para a campanha petista até o momento. Entre os eleitores católicos, a desaprovação do presidente chegou a 51%.

A estratégia, porém, pode distanciar Lula de outro público religioso, o dos evangélicos. Aliados do petista admitem que o cálculo eleitoral incluiu a dificuldade de conquistar apoio nesse segmento, do qual Lula tenta se aproximar, mas no qual o bolsonarismo mantém vantagem histórica.

Pesquisa da Quaest divulgada na segunda-feira (28), mostra Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto dos evangélicos no primeiro turno, contra 27% de Lula.

Esquerda perdeu espaço para tradicionalismo católico

A perda do protagonismo da esquerda entre os eleitores católicos, no entanto, não é um fenômeno recente nem pontual. Na prática, segundo especialistas, o cenário tem se intensificado desde os anos 1980, quando a influência da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base passou a conviver com um movimento de resgate do catolicismo tradicional e conservador. 

“A gente não pode esquecer que o PT foi fundado no auditório de um colégio católico [em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, de São Paulo] com apoio de membros da Teologia da Libertação e também de outros grupos que depois vão dar origem às pastorais da Igreja e às Comunidades Eclesiais de Base”, diz Paulo Ramirez, cientista social da ESPM.

“O PT tem muita força ainda com esses grupos e muitos deles têm relação com os sem-terra, diga-se de passagem. É esse público que ele tenta resgatar”, afirma.  

Péricles Andrade, historiador e doutor em Ciência da Religião, avalia que a Teologia da Libertação ajuda a compreender a relação entre catolicismo, política e movimentos sociais em determinados períodos. Mas a disputa atual, para ele, não se resume à oposição entre uma esquerda católica e um catolicismo conservador.  

“O catolicismo brasileiro se tornou muito mais plural”, diz. “Hoje, temos setores progressistas, conservadores, tradicionalistas, carismáticos, grupos ligados a diferentes movimentos e comunidades, além de uma presença crescente de atores religiosos nas redes sociais”, explica o historiador.  

O que está havendo, avalia Andrade, é uma disputa mais ampla pelo chamado voto religioso. A conquista dessa parcela do eleitorado se tornou uma dimensão importante das eleições brasileiras nas últimas décadas, à medida que questões morais e culturais passaram a ocupar espaço cada vez maior nas disputas. Este voto, contudo, não é automático. 

“Entre os evangélicos existe, de fato, uma aproximação mais expressiva com a direita, mas isso não significa que todo evangélico seja conservador ou que vote necessariamente à direita”, pontua Andrade. “O mesmo ocorre com católicos. Há pessoas que não transformam sua identidade religiosa em uma escolha partidária”, complementa.  

Para ele, a defesa que Lula fez de Nossa Senhora ganhou importância não apenas por se tratar de um símbolo devocional católico, mas também de uma referência cultural e nacional que é capaz de alcançar um público muito mais amplo do que aquele que participa regularmente da Igreja. “O que existe, neste momento, é um eleitorado católico que permanece em disputa”, conclui. 

Boato sobre Nossa Senhora se somou ao cancelamento das bets

A pesquisa Quaest desta segunda-feira (28) mostra que, na comparação com a sondagem anterior, de 21 de setembro, Lula passou de 43% para 48% das intenções de votos entre os eleitores católicos. Flávio, por sua vez, avançou de 27% para 29% entre esse eleitorado.

No cenário geral, a Quaest mostra Lula avançando dois pontos em relação à pesquisa anterior, de 37% para 39% no primeiro turno, enquanto Flávio subiu um ponto, de 33% para 34%. Com isso, Lula ampliou de quatro para cinco pontos a vantagem sobre o adversário. No segundo turno, porém, os dois aparecem empatados numericamente, com 42% cada.

Para Paulo Moura, o episódio envolvendo Nossa Senhora se somou às medidas econômicas e sociais anunciadas na última semana, que coincidiram com a reação de Lula nas pesquisas. 

“O que eu digo é que foi o pacote completo: o aumento do Bolsa Família, o Desenrola 3.0, o cancelamento das bets e o boato sobre a Nossa Senhora”, elenca. “As quatro coisas foram lançadas num intervalo de tempo e ele deu uma pequena recuperada nas pesquisas. Então, aparentemente, ele ganhou algum fôlego.”

O cientista político alerta, no entanto, que a recuperação pode não se sustentar por todo o segundo turno. “Lula já tirou coelho da cartola, agora ele vai ter que tirar rinoceronte da cartola para manter isso. A economia continua mal, a população continua endividada, e R$ 90 de aumento no Bolsa Família não vai resolver o poder de compra”, comenta.

Mentira criou armadilha para Flávio?

Segundo Paulo Ramirez, no entanto, a exploração da fake news sobre Nossa Senhora por Lula, embora possa ser “considerada antiética”, criou uma armadilha para Flávio que ainda pode reverberar.

“Muito provavelmente a ideia talvez não seja nem tanto ir atrás dos evangélicos, ou buscar mais católicos, mas muito mais desgastar a imagem do opositor perante o seu eleitorado”, afirmou. 

A reação do candidato, ao aparecer com uma imagem de Nossa Senhora, teria provocado incômodo entre parte dos evangélicos. “A própria GloboNews deu alguma notícia mostrando que parte do público evangélico estava descontente com o fato de Flávio Bolsonaro ter em mãos uma imagem de Nossa Senhora. E isso foi visto como traição”, observou. 

Para o cientista social, a repercussão do episódio também remete ao modus operandi da esquerda. “Tudo indica que foi algo muito orquestrado pelo PT. E aí isso parece até uma estratégia da velha guarda da esquerda, tanto de Lênin, [Vladimir, líder revolucionário russo], quanto de Rosa Luxemburgo, [revolucionária e teórica marxista polonesa-alemã]”, declarou.

CNBB ganha holofotes na polêmica

O episódio ganhou força nas redes sociais e acabou chegando à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), depois que Flávio Bolsonaro acusou integrantes da entidade de terem ajudado o PT a disseminar a informação falsa sobre Nossa Senhora.

A acusação foi feita pelo candidato no domingo (27), em Goiânia. A CNBB reagiu no mesmo dia. Em nota, negou ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral e afirmou não integrar estruturas político-partidárias.

No dia seguinte, Flávio voltou a falar sobre o episódio, elogiou a manifestação da CNBB e disse que não cabe a ele opinar sobre as regras da Igreja Católica. 

A posição oficial da CNBB sobre as eleições é de que a entidade não indica candidatos nem partidos. Na mensagem institucional de 18 de junho para a disputa em 2026, o Conselho Permanente afirmou expressamente que a Igreja não faz indicação eleitoral e convocou os fiéis a considerarem a trajetória dos candidatos e as consequências de seus compromissos, citando democracia, verdade, justiça e bem comum. 

Setores importantes do episcopado têm levado para o debate eleitoral um repertório político historicamente associado à esquerda católica e usado o mote da soberania, palavra-chave da campanha do presidente Lula. Em agosto deste ano, dezenas de bispos do movimento “Diálogo pelo Reino” divulgaram uma carta contra o que chamaram de “conservadorismo autoritário” e defenderam escolhas eleitorais comprometidas com os pobres, a democracia, a soberania e o meio ambiente. 

O documento também criticou a mineração predatória, o “agronegócio sem critério” e citou a defesa de mulheres, povos originários, afrodescendentes e da população LGBTQIAPN+. O grupo já havia se manifestado em 2022, quando afirmou que não cabia neutralidade diante de dois projetos de Brasil, um que classificava como democrático e outro como autoritário — numa referência à disputa entre Lula e Jair Bolsonaro. 

Bispos falam sobre soberania, defesa da Amazônia e democracia em vídeos 

Em 26 de agosto deste ano, Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos (RJ), escreveu que a eleição envolve “democracia, soberania, vida e dignidade da pessoa” e relacionou soberania à proteção ambiental, às populações e a um desenvolvimento “solidário, sustentável e inclusivo”. 

Em setembro, a Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da CNBB colocou no ar a série “Eleições 2026: Ação Sociotransformadora por Soberania”, apresentada como iniciativa apartidária. A soberania nacional e a resistência a estratégias de interferência externa figuram entre os temas centrais da programação. 

Na terça-feira (22), bispos da Regional Norte 1 da CNBB, que reúne Amazonas e Roraima, publicaram um vídeo orientando os eleitores sobre a escolha dos candidatos. Além da soberania e democracia, também foram trazidos temas como a defesa da Amazônia, dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais, do meio ambiente e proteção dos pobres e vulneráveis. O vídeo ganhou repercussão nas redes sociais e foi divulgado conjuntamente por dioceses e prelazias da região.

Metodologia das pesquisas citadas

  • Genial/Quaest — 24 a 27 de setembro de 2026: 2.004 entrevistados pela Quaest de 24 a 27 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Editora Globo e pela Globo Comunicação e Participações S.A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BR-06520/2026.
  • Atlas/Bloomberg — 17 a 22 de setembro de 2026: 5.015 entrevistados, por meio de recrutamento digital aleatório e metodologia própria da AtlasIntel. Margem de erro de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Registro no TSE: BR-04739/2026.

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