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Lula promete canetas emagrecedoras, mas não sabe quanto custará, quem vai receber nem quando

Canetas emagrecedoras
Lula promete canetas emagrecedoras, sem previsão de data, custo e protocolo. (Foto: Ney Douglas - EFE)

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A distribuição de canetas emagrecedoras pela rede pública de saúde não consta do plano oficial de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não estava no esboço inicial da campanha petista. Mas emergiu como uma das promessas tiradas da cartola na reta final, com o acirramento da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), detectado pelas pesquisas.

O anúncio da disponibilização pelo SUS, feito com entusiasmo por Lula na última quinta-feira (17), em Montes Claros (MG), está muito longe de se concretizar. O governo ainda não sabe quanto a medida custará, quando começará e quem terá acesso ao tratamento.

Até chegar à população, os medicamentos precisam passar pelas etapas regulares de incorporação ao SUS, que incluem avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e decisão do Ministério da Saúde, além da definição do protocolo e, principalmente, da fonte de financiamento.

Depois de apresentado o pedido, a Conitec tem prazo de até 180 dias, prorrogável por mais 90, para concluir a análise.

A iniciativa, comemorada pelos aliados do petista, veio seis meses após Lula ter feito ressalvas à utilização dos medicamentos. Em março deste ano, no Rio de Janeiro, o presidente afirmou que “o remédio não é um prêmio para quem é relaxado”.

“Você não pode dar de presente uma injeção para as pessoas emagrecerem se as pessoas querem comer quatro rabadas por dia, três feijoadas, comer um quilo de torresmo”, afirmou. “As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco.”

Entidades questionam timing da medida

O anúncio foi visto com um misto de esperança e ceticismo por parte de entidades como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Há anos, seus representantes cobram do Ministério da Saúde, da Anvisa e da Conitec medidas para o tratamento da obesidade.

Hoje, o SUS ainda não oferece medicamento incorporado especificamente para tratar a doença. A cirurgia bariátrica é uma das opções disponíveis, mas está sujeita à fila de espera. “A gente luta e luta há anos por uma política pública para a obesidade", diz Alexandre Hohl, diretor da Abeso.

"No passado, o governo foi categórico dizendo que não tinha dinheiro. E agora, 15 dias antes da eleição, vem uma medida dessa dizendo que vão liberar", afirma.

Para Hohl, a falta de informações mostra o improviso da iniciativa. "Vai liberar quando? Qual medicamento? Para quem? Em que quantidade? Vai ser universal ou vai ser só alguns serviços que vão ter isso?", questiona. "Não foi nem sequer publicado no Diário Oficial da União. Qualquer coisa que for acontecer vai levar meses para se viabilizar.”

Governo retoma proposta rejeitada no passado

O que o governo Lula faz agora é retomar uma discussão que já existia no Ministério da Saúde desde o ano passado. Naquele momento, os efeitos dos medicamentos que imitam a ação do GLP-1 — hormônio que ajuda a controlar a glicose, a fome e a sensação de saciedade — começaram a ser estudados pela pasta para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A classe inclui as chamadas canetas emagrecedoras, como as de semaglutida (veja adiante).

Na época, a Conitec chegou a analisar um pedido da Novo Nordisk para incorporar a semaglutida ao SUS para pacientes com obesidade grau II ou III, sem diabetes, com 45 anos ou mais e doença cardiovascular. Em agosto de 2025, a comissão publicou decisão que recomendou a não incorporação do medicamento, por conta do impacto orçamentário.

No acumulado em cinco anos, a conta ficava entre R$ 2,6 bilhões e R$ 4,6 bilhões, conforme o tratamento fosse considerado por dois anos ou de forma contínua. Para um grupo mais restrito, de pacientes com obesidade e histórico de infarto, a estimativa variava de R$ 870 milhões a R$ 1,5 bilhão.

A comissão também apontou incertezas sobre o tempo de uso, a dificuldade de definir qual grupo de pacientes teria maior benefício e a necessidade de um cuidado integrado, com acompanhamento multiprofissional.

Projeto experimental foi autorizado

Somente em junho, às portas da campanha eleitoral, o Ministério da Saúde autorizou o início de um projeto experimental em parceria com o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre. O intuito é avançar nas discussões — até agora esse é um dos principais movimentos concretos do governo nessa frente.

A pasta criou o Real-Bari, estudo que acompanha cerca de 250 pacientes do SUS com obesidade grave ou associada a outras doenças e indicação para cirurgia bariátrica. Durante dois anos, os pesquisadores vão avaliar a perda de peso e os efeitos clínicos, operacionais e financeiros associados ao tratamento com a semaglutida, inclusive se o medicamento pode evitar ou adiar a cirurgia. Os primeiros resultados completos são esperados para 2027.

“O Ministério da Saúde vem planejando, apresentando cada passo desde o ano passado, desde quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou que esse tipo de medicamento deve compor a oferta integral do enfrentamento à obesidade”, disse o ministro Alexandre Padilha após o anúncio de Lula.

Mas o diretor da Abeso se ressente da demora. “Não é verdade. A gente não teve ninguém nos últimos anos que tenha sinalizado qualquer coisa nesse sentido”, diz.

Neuton Dornelas Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), confirma que a obesidade — que pode agravar ou desencadear mais de 200 doenças — vem sendo “negligenciada ao longo do tempo”.

Segundo ele, certamente, há gargalos que tornam o sistema incapaz de atender as pessoas que vivem com obesidade. “Atualmente, as portas do SUS estão fechadas para quem precisa de medicação e tratamento”, observa.

O que tem no mercado e o que vai ser disponibilizado no SUS

O anúncio de Lula não especificou qual medicamento seria oferecido pelo SUS. Os estudos que o Ministério da Saúde conduz atualmente, porém, usam a semaglutida como base, embora sem confirmação oficial de que esse será o princípio ativo ofertado.

A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1. Isso significa que essa classe de medicamentos imita a ação do hormônio (GLP-1) e atua na regulação da glicose, da fome e da saciedade. Está presente em produtos como Ozempic e Wegovy.

Há medicamentos com diferentes princípios ativos. A liraglutida, princípio ativo de Victoza e Saxenda, também pertence à classe dos agonistas de GLP-1. Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua sobre dois sistemas hormonais: é agonista dos receptores de GIP e GLP-1. Esses medicamentos podem ter indicações diferentes, para diabetes tipo 2, obesidade ou controle crônico do peso, conforme o produto e o registro sanitário.

Mesmo com o projeto do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), a reunião ordinária da Conitec de 2 a 4 de setembro não discutiu a semaglutida. A próxima reunião ordinária está marcada para 7 de outubro, depois do primeiro turno. Segundo a assessoria da Conitec, ainda não há confirmação da inclusão do tema.

“Estamos acompanhando o estudo no GHC para entender como funciona o uso desse medicamento no SUS. O estudo está cumprindo o cronograma regular. Em paralelo, há todo o processo da Conitec, que avalia as demandas para incorporação de tecnologias, por exemplo”, afirmou a assessoria do órgão.

Quem deve receber as canetas emagrecedoras?

Os resultados do estudo e as demais informações deverão embasar a definição do protocolo, também segundo a Conitec. Para Dornelas, da SBEM, o primeiro e obrigatório critério deve ser o diagnóstico bem definido de obesidade.

A partir daí, outros fatores podem ser considerados, como a presença de doenças associadas, entre elas diabetes e cardiopatias, além da faixa etária. Dornelas também pontua que a iniciativa não pode se resumir à entrega da caneta, mas deve prever acompanhamento dos pacientes ao longo do tratamento.

É fundamental, segundo o endocrinologista, combinar diagnóstico adequado, acompanhamento por profissionais capacitados, ajustes no tratamento e acesso contínuo aos medicamentos, que devem ser “fornecidos a longo prazo, isto é, que não sejam fornecidos apenas por oportunidades ou ocasiões”.

O diretor da Abeso chama atenção para a necessidade de a avaliação da Conitec levar em conta a dose adequada a cada paciente. Segundo Hohl, a semaglutida de 1 mg, associada ao tratamento do diabetes, não é a mesma dose utilizada nos tratamentos para obesidade.

Para pacientes com obesidade mais grave, as doses utilizadas podem chegar a 1,7 mg ou 2,4 mg e, em alguns casos, a 7,2 mg. “Não adianta dizer que vai ser dado para um nicho de pacientes com uma dose insuficiente. Isso não vai funcionar”, afirma.

Concorrência reduz preço, mas não resolve impacto fiscal

Segundo o Ministério da Saúde, não é possível usar hoje como referência o impacto orçamentário calculado no ano passado, porque o mercado brasileiro de canetas mudou desde então.

Em agosto de 2025, a pasta solicitou à Anvisa prioridade na análise de novos medicamentos à base de semaglutida, como parte da estratégia para ampliar a concorrência e reduzir os preços.

A patente, que garantia à Novo Nordisk a exclusividade sobre a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, expirou em 20 de março de 2026 e novos produtos passaram a entrar no mercado.

Desde então, aumentou o número de medicamentos registrados no país e os preços caíram. Segundo o Ministério da Saúde, já são 14 produtos registrados, com preços até 70% menores.

Hoje, as doses iniciais são vendidas a R$ 300 na farmácia, valor bem abaixo dos quase R$ 1 mil cobrados pelo Wegovy, a caneta de semaglutida da Novo Nordisk, até o ano passado. "Isso traz, obviamente, né, alguma perspectiva de pelo menos viabilidade econômica para a incorporação desse medicamento ao SUS", avalia Rivalino Cardoso, especialista em Direito da Saúde.

A redução dos preços, porém, não exclui a necessidade de identificar as fontes de recursos para financiar a proposta. Qualquer que seja o valor, uma eventual incorporação terá impacto fiscal, já que a medida não está prevista no projeto de Orçamento de 2027 apresentado pelo governo.

Isso exigiria, segundo Alexandre Andrade, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal, o corte ou remanejamento de outras despesas, além de pressionar “o limite de despesa do arcabouço fiscal e a apuração da meta de resultado primário”. Em último caso, poderia exigir a criação de um novo imposto.

Para Alexandre Manoel, da Global Analytics, apesar de a incorporação ter impacto fiscal relevante e permanente, o custo dos medicamentos deve ser comparado às possíveis despesas evitadas com complicações da obesidade.

“O ponto central é definir para quais pacientes e em quais condições o benefício clínico e econômico justificaria o gasto”, diz. “Sem fonte orçamentária, critérios de acesso e avaliação robusta, não seria adequado presumir que uma incorporação ampla se pagaria pelas economias futuras”, pontua.

O Ministério da Fazenda foi procurado pela Gazeta do Povo sobre o impacto fiscal da medida, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.

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