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Análise 1º turno

Lula venceu entre os ricos e perdeu na classe C

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Lula venceu em bairros nobres das capitais; Flávio nas periferias e no interior. (Foto: Isaac Fontana/EFE)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) costumava atribuir às elites a resistência às suas primeiras candidaturas. Vinte anos depois, a eleição mostra um cenário diferente: enquanto o petista avançou em áreas de alta renda, Flávio Bolsonaro (PL) cresceu sobretudo nas periferias e nas cidades pequenas e médias do interior. 

Nas seções eleitorais de perfil socioeconômico das classes A e B, Lula avançou entre 1 e 2,5 pontos percentuais em relação a 2022, sobretudo nas grandes metrópoles. O petista ganhou terreno em bairros de alta renda, como Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro, e Pinheiros, Perdizes e Vila Madalena, em São Paulo.

Os dados são de um levantamento do instituto Meio/Ideia, que comparou os resultados de cerca de 86 mil locais de votação em 2022 e 2026, correspondentes a 90% dos votos do país, e cruzou os resultados com o perfil socioeconômico das áreas.

O movimento na migração de votos foi diferente nas faixas de renda média e nas áreas mais pobres das grandes cidades e no interior. Na classe C, Flávio obteve 53% dos votos, contra 37% de Lula, uma vantagem de 16 pontos percentuais no primeiro turno. Nas seções eleitorais de perfil D, o candidato do PL cresceu de quatro a cinco pontos em relação à votação de Jair Bolsonaro em 2022.

Os quase cinco milhões de votos que Flávio recebeu a mais do que o pai no primeiro turno de 2022 vieram de cidades pequenas e médias. Mais da metade dos votos adicionais veio de municípios com menos de 50 mil eleitores. Naqueles com menos de 10 mil eleitores, o candidato cresceu cerca de 12 pontos percentuais em relação ao desempenho de Jair Bolsonaro em 2022.

Segundo o levantamento, 714 municípios que haviam dado a vitória a Lula em 2022 passaram a dar a vitória a Flávio em 2026. Nenhum município fez o movimento inverso. 

O movimento se repetiu nas diferentes regiões do país, embora com diferenças locais. No Nordeste, a votação nas capitais permaneceu praticamente estável, enquanto o interior avançou para a direita. Nos municípios nordestinos, Flávio recebeu mais de 1 milhão de votos além dos obtidos por Jair Bolsonaro em 2022. Já na zona rural do Sul, Lula recuou de 42% para 32% dos votos.

Analistas veem distanciamento do PT das aspirações reais

Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, as causas desse distanciamento superam fatores econômicos, como o endividamento das famílias, os juros altos e a inadimplência. A perda de apoio a Lula também alcança parcelas do eleitorado que trabalham, consomem e buscam melhorar de vida, mas não necessariamente se identificam com as propostas econômicas e trabalhistas do PT.

O cientista político Lúcio Flávio Vasconcelos, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aponta que parte da classe C passou a desenvolver outras aspirações. “Essa classe C é composta, em grande parte, por trabalhadores autônomos. Eletricistas, pedreiros, pequenos comerciantes, homens e mulheres. É uma classe que cresceu com a expansão econômica impulsionada pelas políticas públicas, pelos investimentos dos governos Lula e Dilma e pela ampliação do mercado consumidor. Mas essa classe agora está reivindicando mais”, diz.

A mudança desafia um discurso político que historicamente enfatizou a carteira assinada, a proteção trabalhista e o Estado como instrumentos de inclusão. Parte desses trabalhadores passou a buscar novas formas de ascensão social, com mais autonomia e oportunidades de empreender.

A expansão do trabalho por aplicativos e do empreendedorismo individual é a maior expressão dessa mudança. Motoristas, entregadores, prestadores de serviços e pequenos comerciantes valorizam a flexibilidade e a possibilidade de serem os próprios patrões, mesmo diante da instabilidade de renda e da dependência das plataformas. 

“Essa individualização do trabalhador, essa uberização... essa visão de 'eu faço a minha rotina'; 'eu sou o meu próprio patrão' e esse discurso do emprego fixo, da carteira assinada, que ganhou força nos anos 1970 e 1980, para um público abaixo de 30 anos não estão pegando mais”, diz Vasconcelos. Segundo ele, há também uma aspiração por liberdade e redução de impostos, semelhante à dos empresários.

A dificuldade do PT em compreender essas transformações ficou evidente na tentativa frustrada de regulamentar o trabalho por aplicativos. O governo Lula não conseguiu consenso em torno de uma proposta para ampliar a proteção social da categoria. Motoristas e entregadores criticavam pontos do projeto e temiam perder autonomia e renda. Em abril deste ano, protestos contribuíram para retirar a proposta da pauta da Câmara.

Comunicação petista é analógica

Vasconcelos também aponta dificuldades do PT para se comunicar com esse eleitorado. “A esquerda demorou a compreender a importância das próprias redes sociais”, avalia.

Para ele, o discurso e a comunicação do partido ainda são “analógicos” em uma realidade que se impõe como digital. O desempenho de influenciadores dos dois lados do espectro ideológico, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Ana Elisa Ribeiro (PT-MG), mostra o peso dessa disputa, afirma o analista.

Os resultados do primeiro turno levaram Lula e o PT a rever a estratégia digital para a segunda etapa da disputa. A campanha passou a apostar em vídeos mais diretos, influenciadores e parlamentares com grande alcance e canais de WhatsApp para ampliar a circulação de mensagens e chegar a eleitores fora da bolha petista.

O próprio Lula, que resiste ao uso do celular e não costuma trocar mensagens pelo WhatsApp, foi convencido a gravar vídeos em formato selfie. Na semana passada, publicou um primeiro vídeo nesse formato e disse: “Vamos para a rua”.

Para Vasconcelos, a própria frase de Lula evidencia a distância entre a concepção tradicional de mobilização política e a dinâmica atual das redes. Agora, a “rua” é representada sobretudo pelos ambientes digitais, principalmente entre os mais jovens.

Além disso, a mudança não pode se limitar à forma. “Não adianta eu pegar o celular e apresentar as antigas propostas. É forma e conteúdo”, afirma.

Adaptação será necessária; radicalização levará PT ao ostracismo

Leandro Gabiatti, da empresa Dominium, especializada em relações institucionais, considera que a principal dificuldade do PT é atualizar ideias e propostas diante de uma sociedade que mudou. A linguagem digital pode aproximar o candidato do eleitor, mas não substitui respostas concretas a questões como renda, endividamento, trabalho e oportunidades de crescimento.

“O Lula chegou sem talvez ter compreendido — ou talvez ele tenha compreendido, mas não teve a capacidade de se adaptar politicamente para atender às novas demandas dessa classe C que, inclusive, ele ajudou a criar”, afirma Gabiatti.

A relação com o trabalho é um dos pontos dessa mudança. “A classe C, principalmente, enxerga a CLT como algo ultrapassado. Eles não querem ser CLT. Parte importante da classe C quer outra coisa”, diz o analista. 

Isso não significa que trabalhadores de menor renda tenham deixado de valorizar direitos ou proteção social. Para Gabiatti, o desafio é adaptar a defesa desses direitos às novas expectativas. “Você pode continuar falando e defender direitos vinculados ao trabalho, mas a partir de um conceito totalmente diferente”, comenta.  

Se a derrota do PT se confirmar nas urnas, o partido poderá enfrentar uma disputa sobre os rumos da esquerda. Uma possibilidade é aprofundar suas posições ideológicas, em vez de rever as premissas de seu programa. Outra é renovar as ideias e buscar respostas para as mudanças da sociedade sem reproduzir modelos do passado.

A renovação, nessa perspectiva, não exige necessariamente uma guinada à direita ou ao centro, mas a atualização de conceitos e propostas diante de uma realidade econômica, social e tecnológica diferente daquela em que o partido se formou. “Você pode manter a essência de uma ideia, mas, com o mundo tão diferente, essa essência tem que atender também à nova realidade”, diz Gabiatti. 

Uma eventual radicalização poderia reduzir ainda mais o espaço para o diálogo com grupos que já não se identificam com as propostas do PT. “Sem essa adaptação, a esquerda corre o risco de permanecer longe do poder por muitos anos”, conclui. 

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