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A saída de cena da ex primeira-dama e (ainda) pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal Michelle Bolsonaro da liderança do PL Mulher e, consequentemente, da articulação nacional das candidaturas femininas do partido, pegou as outras lideranças da sigla de surpresa. Um dos reflexos principais é o vácuo deixado por ela.
A análise unânime é que esse espaço é difícil de preencher de uma hora para a outra. A situação pode colocar em xeque o futuro político da própria Michelle, além de ter o potencial de atrapalhar o pré-candidato à Presidência da República do partido, o senador Flávio Bolsonaro, com quem a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro vive uma rusga pública há pouco mais de uma semana, quando ela publicou um vídeo com queixas de ter sido desrespeitada.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou que ninguém será nomeada presidente do PL Mulher em substituição a Michelle e que o núcleo seguirá conduzido pelas presidentes estaduais. Uma nova presidente nacional será definida somente após a eleição de outubro.
“Não vamos conseguir uma substituta como Michelle”, admitiu Valdemar em entrevista ao Correio Braziliense. A avaliação interna é de que ninguém tem o capital político comparável ao da ex-primeira-dama para assumir o cargo e que não há tempo suficiente para reorganizar o núcleo feminino até as eleições.
Efeitos levam em conta conexão de Michelle com parcela significativa do eleitorado
Nos bastidores, integrantes do PL afirmam que a ex-primeira-dama teve de ser demovida da ideia de abandonar também a pré-candidatura ao Senado. Em caso de desistência de Michelle, a escolha natural para tentar a vaga seria o PL seria apostar na reeleição do senador Izalci Lucas (PL) — hoje ele não espaço na chapa: além de Michelle, a outra vaga para candidatos ao Senado no partido pelo Distrito Federal está prometida para a deputada federal Bia Kicis (PL-DF).
No papel de presidente do PL Mulher, a ex-primeira-dama viajou pelo Brasil e conseguiu aumentar as filiações femininas na legenda de 346 mil para 411 mil, um crescimento de 18,8% em pouco mais de três anos. Ela também é vista como um fator que ajudava a diminuir a rejeição do eleitorado feminino aos homens do partido e da família Bolsonaro — fatia do eleitorado fundamental para decidir uma eleição apertada para presidente em 2026.
O receio no PL é de que, além de travar esse avanço, a rejeição a uma candidatura de Flávio aumente entre as mulheres após Michelle Bolsonaro ter dito, na última semana, que foi humilhada e apunhalada pelo enteado, antecipando a crise que culminaria com a saída do PL Mulher.
Para entender o potencial de estrago da crise entre Michelle e Flávio para a candidatura presidencial de oposição, é preciso analisar o atual cenário pré-eleitoral. De acordo com a última rodada da pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta quarta-feira (1), o senador Flávio Bolsonaro está com a rejeição em cerca de 53% entre os eleitores. Esse teto alto de resistência ao nome dele concentra-se de forma aguda justamente no eleitorado feminino.
A ex-primeira-dama consolidou-se como a principal ponte entre a legenda e as eleitoras evangélicas, um estrato demográfico que representa cerca de um terço da população brasileira. Michelle possui uma oratória fluida e profundamente ancorada na linguagem religiosa, conectando-se de forma genuína com as dores, anseios e a rotina das fiéis periféricas e de classe média — uma "irmã em Cristo" que humanizava o projeto político da direita amalgamada em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Impacto efetivo do desentendimento entre Michelle e Flávio ainda é incerto
O impacto real do conflito entre Michelle e Flávio, no entanto, ainda é incerto entre os eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas dá para ter uma ideia que positivo não foi. A pesquisa Atlas/Bloomberg desta semana aponta que 37,8% dos eleitores acham que o desentendimento entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfraquece muito a candidatura dele à Presidência. Outros 26,3% avaliam que ela prejudica um pouco.
Para outros 7,1%, o vídeo em que Michelle diz ter sido “humilhada” por Flávio fortalece muito a candidatura do senador ao Planalto. Outros 2,1% dizem que ela fortalece pouco. Outros 22,4% avaliam que isso não afeta a pré-campanha e 4,4% não souberam responder.
A Atlas/Bloomberg ouviu 5 mil eleitores entre os dias 25 e 30 de junho por meio de recrutamento digital aleatório. A margem de erro é de um ponto percentual para mais ou para menos e o índice de confiabilidade é de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04582/2026.
Para 28,9%, o apoio de Michelle para a campanha de Flávio é “muito importante”. Outros 26,5% julgam como “importante”, 16,3% como “pouco importante” e 11,7% como “nada importante”. Outros 16,6% não souberam responder. Entre Flávio e Michelle Bolsonaro, 81,9% dos eleitores que votaram em Jair Bolsonaro em 2022 preferem que o senador seja o candidato do campo conservador à Presidência da República. Os que acham que deveria ser a ex-primeira-dama são 14,7%.
PL se ampara em lideranças femininas regionais para segurar rejeição a Flávio
Diante do abalo sísmico provocado pela crise entre Michelle e Flávio, a cúpula nacional do PL começou a mapear os nomes de lideranças femininas regionais que possuem musculatura própria e poderiam, ao menos em âmbito estadual e regional, mitigar os danos e segurar o engajamento das bases. A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), por exemplo, surge como um dos perfis mais vocais e consolidados do partido no Sul do país.
Com uma forte presença digital e um discurso firmemente alinhado ao armamentismo e ao conservadorismo econômico, Zanatta tem capacidade de mobilizar fatias expressivas do eleitorado conservador na região. Outro nome de destaque no tabuleiro é o da deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que goza de grande prestígio junto aos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro justamente pela fidelidade política.
Além dela, deputadas como Caroline de Toni (PL-SC), atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, e Priscila Costa (PL-CE) — que esteve no centro do estopim da crise decorrente das alianças regionais no Ceará — despontam como quadros técnicos e de alta voltagem eleitoral que o partido pretende acionar para manter as mulheres mobilizadas, apurou a reportagem da Gazeta do Povo junto a interlocutores do partido.
O próprio senador Flávio Bolsonaro começou a intensificar acenos públicos a essas lideranças nordestinas e sulistas na tentativa de criar uma rede de contenção e demonstrar que o projeto feminino do partido não ruiu por completo.

Michelle é ponte eleitoral relevante
"Se Michelle estiver jogando apenas para preservar influência dentro da estrutura formal do PL em 2026, a saída do PL Mulher pode representar perda de poder institucional. Ela deixa uma estrutura nacional, uma agenda própria, eventos regionais e uma rede organizada de lideranças femininas construída ao longo dos últimos anos”, afirma à Gazeta do Povo o economista e estrategista eleitoral Luis Carlos Burbano Zambrano.
"Mas, se seu objetivo for preservar autonomia política, ampliar seu protagonismo ou construir um projeto próprio para além da candidatura de Flávio Bolsonaro, a decisão pode adquirir um significado completamente diferente", pondera ele.
Na avaliação do estrategista eleitoral, Michelle era um ativo estratégico para o PL porque ajudava justamente onde Flávio é mais vulnerável: mulheres, evangélicos e conservadores moderados. Sua função não era apenas discursiva. Ela podia mobilizar candidatas regionais, lideranças femininas, igrejas, bases locais e segmentos que não aderem automaticamente a Flávio.
Sem Michelle, o PL perde uma ponte eleitoral importante. "O impacto final dependerá dos desdobramentos. Ela pode se afastar da campanha de Flávio e, ainda assim, apoiar candidatas do campo conservador. Pode preservar vínculos regionais. Pode disputar ou não o Senado pelo Distrito Federal".
Zambrano acrescenta: "Ela pode romper de forma definitiva ou manter uma distância estratégica. Estamos diante de um jogo aberto, não de um efeito automático.”









