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O partido Novo vive um momento delicado em sua história em Minas Gerais. O estado, que foi uma vitrine do partido desde 2018, com a eleição de Romeu Zema para o governo, deixará de ser da legenda nas próximas semanas. O governador, pré-candidato à Presidência da República, sai do Executivo no dia 22 de março para se dedicar à pré-campanha.
Quem assume em seu lugar é Mateus Simões, atual vice-governador, que trocou o Novo pelo PSD em outubro de 2025, buscando ganhar mais apoios para sua pré-candidatura ao governo mineiro. A saída de Simões gerou impacto entre filiados e apoiadores, que sentiram a legenda enfraquecida.
De fato, o Novo perderá um grande trunfo com a saída de Zema do Palácio Tiradentes — sede do Executivo mineiro — já que não possui deputados federais no estado e tem apenas dois representantes na Assembleia Legislativa estadual. Além disso, o partido precisa brigar para superar a cláusula de barreira e permanecer no jogo político.
Zema descarta se candidatar a uma vaga para o Senado
Os dirigentes têm feito costuras para que o partido não enfraqueça no estado que foi, durante oito anos, sua principal vitrine. Uma possibilidade mais natural seria Romeu Zema se candidatar ao Senado, onde teria poucas dificuldades para se eleger.
Com essa possibilidade descartada pelo próprio governador, que acredita que seu perfil seja de Executivo, a busca por nomes que possam compor com Simões e a construção de uma boa chapa de deputados se tornaram o foco. Eleito vereador pela legenda em 2016, primeiro ano em que o Novo disputou eleições, Simões assumiu, durante o primeiro mandato de Zema, a Secretaria-Geral e, posteriormente, foi eleito vice-governador em 2022.
Um dos nomes ventilados para compor com Simões é o da vereadora de Belo Horizonte Fernanda Altoé. Em seu segundo mandato pelo partido, Fernanda foi a quarta vereadora mais votada da capital em 2024, com 18.682 votos.
Vinda de uma sólida carreira pública (foi assessora do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e promotora de Justiça no estado de São Paulo), ganhou destaque em seu primeiro mandato pela postura combativa no plenário da Câmara Municipal. À reportagem da Gazeta do Povo, Fernanda confirmou a indicação, mas enfatizou que seu foco está na pré-candidatura a deputada estadual.
“Sim, o partido Novo e o governador Romeu Zema indicaram meu nome para vice na chapa com o Mateus Simões. Fico muito honrada com a indicação do meu nome para vice e estarei pronta se esse cenário se concretizar. Mas não posso ficar aguardando uma decisão que será tomada num contexto que não tenho controle e que envolve instâncias partidárias e políticas que estão acima de mim”, afirmou.
Simões diz que ainda é cedo para anunciar vice
Perguntado sobre o trabalho para a pré-campanha e seu possível vice, Simões não apontou nomes e afirmou que essa é uma construção coletiva. “Sobre vice, ainda é cedo falar. Já disse de outras vezes, esta decisão caberá ao governador Romeu Zema. A vaga de vice, a ser decidida por Zema, e a segunda vaga do Senado, que aguarda a indicação do PL, como foi pedido a mim pelo (ex-)presidente Bolsonaro, terminarão de fechar esse desenho”.
Em um mês decisivo para a organização das chapas, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) reforçou sua intenção em ser candidato ao governo de Minas. Recentemente, o partido do parlamentar comemorou a filiação de Luis Eduardo Falcão, prefeito de Patos de Minas, atual presidente da Associação Mineira de Municípios e ex-filiado do Novo.
Nos bastidores, a informação é de que Falcão seria um vice ideal para Cleitinho, levando "sobriedade" para a chapa. A candidatura de Cleitinho também teria, em tese, apoio de Bolsonaro.
O deputado Cristiano Caporezzo, reconhecido aliado dos Bolsonaro em Minas, afirmou, em recentes entrevistas, que Simões seria “inexpressivo” junto ao eleitorado e que é importante, inclusive para a disputa presidencial, apoiar um nome forte em Minas — o segundo maior colégio eleitoral do Brasil.
Caporezzo, que é pré-candidato ao Senado pelo PL, afirmou à Gazeta do Povo que seu nome tem endosso do próprio Jair Bolsonaro para a disputa. “O Domingos Sávio (presidente PL-MG), pessoa que respeito e com quem tenho boa relação, estava comigo na sala do Bolsonaro, no início do mês de julho (2025), ou seja, após a visita ao vice-governador Mateus Simões, e Bolsonaro falou para nós dois, com todas as letras, que pretendia lançar duas vagas para o Senado em Minas Gerais”, disse.
"Cleitinho tem perfil de Legislativo", diz vice de Zema
Sobre Cleitinho, o vice-governador mineiro opinou que o senador deveria permanecer no Legislativo, pelo seu perfil, e comparou a postura do senador a de Nikolas Ferreira na estratégia eleitoral. “Cleitinho tem perfil de Legislativo, de cobrar; terá um papel importante a cumprir como senador por mais quatro anos".
E ligou o "desconfiômetro" ao teorizar sobre como seria o desempenho de Cleitinho à frente de uma gestão. "Como seria o comportamento dele na primeira manifestação de servidores por reajuste salarial, depois de passar anos prometendo recomposições retroativas, como ele faz? E o que ele vai fazer, vai se juntar aos manifestantes no protesto? Ele sabe do respeito que tenho pela história dele na política, e como político inteligente, sabe que filmar um buraco na estrada é mais fácil que mobilizar a estrutura do governo para tapar esse mesmo buraco", continuou Simões.
"Ele (Cleitinho) pode contar comigo para as entregas que ele espera, mas veja a humildade de Nikolas, o maior nome da política mineira hoje, ao lado de Romeu Zema: decidiu que não é momento de ir para o Executivo, pois pode ser mais útil no Legislativo enquanto se capacita para os desafios que ainda virão”.
Estratégia do Novo inclui fortalecimento das chapas de deputados
Outra estratégia essencial para a sobrevivência do Novo é fortalecer as chapas de deputados federais. O advogado e influenciador Marco Antônio Costa, conhecido como “Superman”, mudou-se para Minas em 2025 com a intenção de disputar o Senado pelo PL.
Em dezembro, declarou ter desistido da posição sob orientação de Jair Bolsonaro, mas segue em Minas e é pré-candidato a deputado federal pelo Novo. Com 1 milhão de seguidores nas redes sociais, Costa poderia ser um puxador de votos, mas é uma incógnita, já que nunca foi testado nas urnas.
Outro nome confirmado na chapa de federais é o de Gleidson Azevedo, prefeito de Divinópolis. Filiado ao Novo desde 2023, ele está no segundo mandato e foi reeleito com 80% de aprovação no município. É irmão de Cleitinho e declarou apoio ao irmão na disputa pelo Executivo.
Pessoas ligadas ao partido Novo dizem que, em Minas, o partido tem bons nomes para a cabeça de chapa, mas faltam aqueles que configurariam o meio, com votos que não seriam suficientes para uma eleição, mas ajudariam na busca por mais cadeiras. Conforme a legislação eleitoral, uma chapa completa para deputado federal em Minas Gerais pode ter até 54 candidatos.
Outro problema que o Novo deve enfrentar está no financiamento das campanhas. Em 2018, ano em que o partido elegeu diversos nomes – incluindo Zema –, as eleições foram baratas e quase artesanais.
Conforme informações prestadas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a campanha de Zema, naquele ano, gastou R$ 5.663.998,25. Em 2022, ano da reeleição dele e já usando os recursos públicos que o partido recusava em seus primeiros anos, esse valor subiu para R$ 16.944.079,30. A expectativa é que as eleições deste ano sejam ainda mais caras, mas os recursos que o partido receberá do fundo partidário estão entre os mais baixos do país.
“Já tenho uma boa base comigo”, afirma Simões
Simões tem viajado para o interior de Minas junto com o deputado Nikolas Ferreira (PL) para realizar entregas do governo de Minas, e participou das manifestações de rua no último domingo (1) em Belo Horizonte e São Paulo junto com o deputado e com o governador Romeu Zema.
Apesar das dificuldades, há uma tentativa de fazer com que a direita vá unida para a disputa do governo mineiro. Isso se refletiria em um palanque único para Flávio Bolsonaro. Para isso acontecer, há conversas tentando viabilizar a entrada de Zema na chapa de Bolsonaro como vice.
Porém, ainda existe resistência dentro do Novo porque, internamente, acredita-se que a candidatura presidencial de Zema pode contribuir para o Novo superar a cláusula de barreira. “Temos que unificar a direita para impedir a volta do PT ao governo de Minas e para que o trabalho de Zema possa continuar. Um outro nome da direita, sem o apoio do governador, é uma dissidência que temos de evitar e vou trabalhar para isso. Os quatro anos que tivemos nas mãos da esquerda afundaram o estado", opinou Simões.
E defendeu sua candidatura. "Junto do governador Romeu Zema, contribuí para colocar as contas em ordem e dar sequência a grandes projetos que nunca saíram do papel ou que estavam há anos abandonados, como os hospitais regionais e a ampliação do metrô de Belo Horizonte. Foi esse o motivo da escolha do governador Zema pelo meu nome como sucessor: seguir com as grandes entregas que ainda estão por vir”, continuou o vice-governador de Minas.
Mateus tem hoje o apoio de nove partidos — PSD, Novo, União, PP, Podemos, Solidariedade, PRD, Mobiliza e DC — e acredita que o PL também formará sua base. “Tenho convicção de que o PL se juntará a esse esforço em Minas”, respondeu.











