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A expectativa de que o influenciador Felca divulgaria uma “bala de prata” contra Flávio Bolsonaro (PL) terminou em frustração para a esquerda na madrugada desta terça-feira (20). Depois de anunciar uma novidade para a meia-noite com a frase “Eu me escondi por tempo demais”, o youtuber publicou um vídeo sobre fobia social, no qual relatou o bullying sofrido na adolescência e suas dificuldades para conviver com outras pessoas. As acusações contra Flávio que apoiadores de Lula (PT) esperavam não apareceram.
A espera por uma revelação capaz de definir a eleição se tornou uma tônica deste segundo turno, com anúncios enigmáticos, promessas de denúncias e novos capítulos de investigações sobre ambos os lados. Para cientistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo, porém, essa expectativa esbarra em escolhas eleitorais consolidadas e num ambiente de sobrecarga de informação em que um escândalo rapidamente se sobrepõe ao outro.
A especulação sobre Felca não surgiu de uma promessa do influenciador, mas de uma suposição de setores da esquerda que esperavam uma denúncia contra Flávio. Depois da publicação, o influenciador recebeu críticas de esquerdistas por abordar um problema pessoal em plena semana da eleição. O influenciador Felipe Neto e o ator José de Abreu estiveram entre os que criticaram Felca nas redes.
Outras “balas de prata” frustradas já foram assunto nestas eleições. Há alguns meses, por exemplo, circulam na internet especulações sobre um suposto vídeo que comprometeria a imagem de Flávio. Em julho, o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) chegou a anunciar que apareceriam imagens do senador traindo a esposa. O suposto registro não veio a público, e sua existência permanece sem comprovação.
A criação de expectativa não se restringe à esquerda. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou o lançamento do “vídeo mais importante dessa campanha e da minha vida” com dois dias de antecedência e reforçou o suspense com uma contagem regressiva. Publicada na terça com a legenda “O Nordeste que foi esquecido”, a gravação reúne depoimentos de moradores da região que criticam promessas não cumpridas de Lula e relatam dificuldades para comprar medicamentos, conseguir emprego, ter acesso a serviços básicos e lidar com a violência.
Outra aposta de “bala de prata” da direita foi a entrevista da lobista Roberta Luchsinger à CNN Brasil, no sábado (17), com a expectativa de atingir Lula por meio das suspeitas envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Roberta afirmou que ele se reunia frequentemente com ministros e disse estar disposta a fazer uma delação premiada caso seja acusada de crimes. As declarações foram exploradas por Flávio no debate da Band, no domingo (18).
Por enquanto, apesar das denúncias, as pesquisas eleitorais sobre o segundo turno pouco mudaram e ainda mostram uma disputa acirrada.
"Calcificação da polarização" protege os candidatos de efeitos de uma "bala de prata", diz cientista político
Para o cientista político Paulo Kramer, a ineficácia das pretensas “balas de prata” tem a ver com o que se tem chamado de “calcificação da polarização”: as posições dos eleitores se tornaram tão rígidas que uma acusação contra o próprio candidato encontra resistência antes mesmo de ser avaliada.
“Isso leva a que as pessoas se tornem insensíveis a essas denúncias sempre que se trata do seu candidato. Eu acho que o déficit de indignação com as denúncias tem a ver com o fato de as posições estarem muito demarcadas, muito polarizadas”, afirma.
Nesse cenário de calcificação, o mesmo eleitor que vê uma denúncia contra o adversário como motivo suficiente para rejeitá-lo definitivamente pode relativizar uma suspeita parecida contra seu escolhido.
Segundo o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), uma acusação nova continua servindo para consolidar posições ou inflamar militantes, mas sua capacidade de atravessar a divisão entre os dois campos diminui.
“Quem já está votando no Flávio dificilmente vai deixar de votar no Flávio por conta de qualquer tipo de denúncia que aparecer. E quem já está votando no Lula também não vai deixar de votar no Lula por causa de alguma denúncia. Eu acho que muitas dessas denúncias agora estão servindo mais para mobilizar a base de eleitores já existentes do que propriamente garantir uma transferência ou mudança de voto”, diz.
Cerqueira duvida que a mobilização digital agressiva da campanha petista, que inclui diversas fake news, estaria convertendo eleitores de Flávio. Na avaliação dele, parte desse esforço funciona sobretudo para impedir que pessoas que já votaram em Lula abandonem o presidente. O efeito principal seria manter a base mobilizada.
“Eu não acho que denúncias vão ajudar a mudar significativamente o voto do eleitorado. Teria que ser uma coisa muito, muito pesada. Uma coisa catastrófica. O que tinha que ser feito em termos de denúncias para mobilizar e modificar o voto já aconteceu”, afirma.
Outro obstáculo para a virada de votos, além da crescente rigidez das preferências, é a circulação de notícias cada vez mais rápida. Com o tempo cada vez mais dedicado às redes sociais, o eleitor recebe novos fatos antes de absorver completamente os anteriores.
É frequente que a repercussão de uma denúncia dispute espaço com outra revelação recente. Nos últimos meses, além da sobrecarga de notícias negativas sobre os próprios candidatos, os escândalos relacionados ao Judiciário também contribuíram para dissolver a atenção dos eleitores.
“As pessoas são impactadas com o volume de informações muito maior do que no passado. Fica difícil, cada vez mais difícil, separar o joio do trigo”, afirma Kramer.






