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Até esquerdistas que não gostam de Lula (PT) estão migrando para Flávio Bolsonaro (PL). O fenômeno, detectado pela pesquisa Quaest divulgada na última semana, expõe uma mudança que, estatisticamente, é pequena — dentro da margem de erro de seis pontos para esse recorte específico da análise —, mas simbolicamente significativa.
Em todos os sete cenários de primeiro turno testados, Flávio cresceu entre esquerdistas não lulistas enquanto Lula caiu. "No último trimestre do ano passado e no começo deste ano, a agenda mudou e os brasileiros passaram a discutir mais questões ligadas à segurança, custo de vida e corrupção", explica o diretor de Inteligência da Quaest, Guilherme Russo.
"Essa mudança no ambiente informacional e no debate político foi negativa para o governo e desmobilizou uma parte desse eleitorado de esquerda não-lulista", acrescenta ele.
O analista recorda que, em agosto e setembro de 2025, o governo Lula adotou o discurso de "Congresso inimigo do povo" e travou disputa política após a taxação imposta a produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. Essas pautas impactaram positivamente o governo Lula no curto prazo, mas, no final do ano, a popularidade caiu novamente e se manteve assim até agora.
Em relação aos dados apontados nos cenários simulados de segundo turno pela Quaest, Russo afirma que é possível detectar uma mudança na esquerda não lulista. “São variações dentro da margem de erro, mas a queda de Lula combinada ao aumento de branco e nulo no segundo turno sugere movimentação dentro desse grupo", diz.
Eleitorado de esquerda não lulista reage mais a fatos recentes, aponta Quaest
De acordo com Guilherme Russo, o eleitorado de esquerda não lulista costuma votar menos no PT do que os lulistas e demonstra mais afinidade com candidatos de partidos como PSOL, Rede Sustentabilidade, PSB e PDT. De forma geral, trata-se de um eleitorado mais jovem, urbano e com maior nível de escolaridade.
"Como eles mesmos definem, é um grupo que tem ligação menos forte com Lula do que os lulistas tradicionais, que tendem a ser menos escolarizados, mais velhos e menos urbanos", diz Russo.
O diretor da área de Inteligência da Quaest complementa que esse eleitorado reage com mais intensidade a acontecimentos recentes. "A animação desse grupo com o governo Lula é mais condicional aos eventos políticos e movimentações do governo."
Esquerda não lulista aumenta preocupação com economia
A pesquisa Quaest mais recente também aponta que a esquerda não lulista é o único segmento mais preocupado com a economia do país em relação ao levantamento anterior do instituto.
“Para fazer propaganda do governo, o Lula tem focado o discurso em indicadores econômicos ligados a avanços para os trabalhadores. O problema é que, na vida real, há uma piora importante na precariedade dos empregos e no aumento do custo de vida”, diz Deyvis Barros, secretário do diretório paulista do PSTU — partido que se encaixa no segmento de esquerda não lulista — em entrevista à Gazeta do Povo.
“Moradores das periferias das grandes cidades ficam espremidos entre o crime organizado e a própria violência do estado, com mulheres também enfrentando o aumento de casos de feminicídio. Isso é fruto de uma determinada escolha política do Lula”, complementa ele.
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Pré-candidatos tentam atrair eleitor de esquerda não lulista
Enquanto o segmento identificado como esquerda não lulista apresenta oscilações na pesquisa, há pré-candidatos à Presidência da República vendo nelas uma oportunidade de crescer em intenções de voto. É o caso de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e pré-candidato pelo PSD, que afirmou mirar no eleitor que se classifica como esquerda ou direita, mas que não se identifica nem com Lula nem com Bolsonaro.
"[Há uma] esquerda não lulista que quer ver uma candidatura com visão de inclusão, de respeito à diversidade, preocupada com os temas sociais", disse Leite em entrevista à GloboNews na última quinta-feira (12).
O discurso antipolarização também aparece no "manifesto ao Brasil" divulgado junto com o anúncio da pré-candidatura. O manifesto traz a ideia de que "disputas ideológicas e paroquiais não produzem solução" e que deve ser feito um "novo pacto pela governabilidade democrática".
- Metodologia: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-05809/2026.













