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Planos de governo

Política externa: Flávio quer pragmatismo comercial enquanto Lula foca em BRICS e ideologia

Lula e Flávio Bolsonaro Pesquisa para Presidente da Quaest
Lula e Flávio Bolsonaro, pré-candidatos à Presidência: eleições afloram polarização. (Foto: Fotomontagem Gazeta do Povo (Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado))

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Os planos de governo do candidato Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentam visões antagônicas para a política externa: Flávio aponta para o pragmatismo comercial, prioriza a abertura de mercados e o alinhamento com potências democráticas, mas sem descartar a relação econômica com a China. Já o projeto de Lula reafirma o foco no Sul Global, no fortalecimento do bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) e a defesa contra supostos inimigos externos.

Flávio Bolsonaro propõe uma ruptura com o que chama de "alinhamento ideológico" da atual gestão, que, segundo seu plano, protege regimes autoritários como a China, a Rússia e o Irã. O candidato liberal-conservador defende a retomada de relações sólidas com parceiros históricos como Estados Unidos, Israel e Argentina, alegando que o Itamaraty deve ser conduzido por critérios técnicos e profissionais em busca de ganhos mútuos no comércio.

Em contraste, o plano de Lula coloca o Brasil como um líder natural do mundo em desenvolvimento, priorizando a integração da América do Sul por meio do Mercosul e da Unasul (bloco de integração regional de tendência esquerdista). Para o petista, a política externa é uma ferramenta de "reconstrução da presença do Brasil no mundo", com ênfase na reforma de organismos multilaterais, como a ONU e o Fundo Monetário Internacional, para dar mais voz aos países pobres.

Além disso, o plano de Lula dá ênfase ao não intervencionismo internacional, que é a principal agenda da política externa da China. Pequim tem liderado essa pauta globalmente para evitar pressão de potências ocidentais contra os abusos de direitos humanos que comete contra minorias uigures e tibetanas e também para afastar a ameaça de ação militar dos EUA caso decida invadir Taiwan.

Embora o Brasil não seja alvo de ameaça militar estrangeira, Lula tenta usar o discurso para criar a impressão de existência de um inimigo externo, representado pelos Estados Unidos. Ele dedica parte considerável de seu plano de governo para defender investimentos militares para evitar eventuais intervenções armadas externas.

Para o analista político Fidelis Fantin, especialista em Economia, Política e Defesa, o discurso presente no programa de governo do atual presidente é uma preparação para ações políticas contra países com os quais ele não se alinha, especialmente os Estados Unidos.

"O programa do Flávio demonstra mais pragmatismo e parece ser mais construtivo. Está na linha de que o Brasil não parece estar em rota de conflito com nenhum país. É mais busca de cooperação e harmonia econômica com os parceiros naturais", disse Fantin.

Flávio visa à OCDE e Lula aposta nos BRICS

No campo econômico, Flávio Bolsonaro estabelece como passo "mais urgente" a adesão plena do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ele argumenta que integrar o "clube dos países ricos" exigirá a convergência de normas brasileiras aos padrões internacionais, o que ajudaria a reduzir a corrupção e melhorar a governança das empresas estatais.

A OCDE tem mecanismos jurídicos vinculantes que obrigam os países-membros a manterem e expandirem a liberdade de fluxos financeiros e de prestação de serviços transfronteiriços. Eles dificultam agendas de líderes que desejam promover o protecionismo e blindar empresas estatais contra fiscalização.

O governo de Jair Bolsonaro deu passos importantes em direção à OCDE, mas o avanço foi desfeito durante o terceiro mandato de Lula.

"Lula quer repetir a fórmula de não adesão, colocando o Brasil distante das grandes negociações e investimentos. Flávio já visualiza a adesão como ferramenta indutora de competitividade e realinhamento com as cadeias globais de valor", afirmou Cezar Roedel, consultor e doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, sócio da Roedel Intel Advisor e membro da Comissão de Relações Internacionais da OAB-RS.

O plano de governo de Flávio também se foca em atrair investimentos para áreas críticas como minerais estratégicos e tecnologia. Ele fala em inserir o Brasil nas cadeias de produção globais e aumentar a capacidade competitiva de empresas brasileiras de todos os tamanhos, não só as maiores.

No comércio exterior, Flávio critica o fato de o Porto de Santos ter se tornado um exportador de ilícitos, e propõe usar adidos agrícolas para reverter sanções contra produtos brasileiros nos EUA e Europa. Ele defende uma abertura comercial que dê ao produtor acesso a bens de capital e tecnologia sem "ranços ideológicos".

Já Lula aposta no aprofundamento das relações com a China e o BRICS, além de expandir a cooperação com a África e a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). A ação reflete o esforço do petista para ocupar a posição de liderança entre os países em desenvolvimento do hemisfério sul.

O plano do PT também destaca a criação de mecanismos financeiros alternativos, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que atua sob o BRICS com recursos chineses, visando uma ordem mundial que fuja da "lógica da submissão" às potências ocidentais.

Planos divergem no conceito de soberania

A questão da soberania também divide os candidatos. Flávio associa a autoridade internacional ao controle efetivo do território nacional, propondo o combate rigoroso ao crime organizado nas fronteiras como base do prestígio externo. Além disso, defende transparência total sobre ONGs que recebem recursos internacionais, vendo nelas um risco potencial aos interesses nacionais.

Lula, por sua vez, vincula a soberania à autonomia de decisão e à liderança em agendas globais, especialmente no combate à fome e na questão da suposta mudança climática. O plano petista busca transformar o Brasil em uma "potência ambiental" para buscar protagonismo diplomático para o país.

O plano petista fala em ressurgimento do unilateralismo internacional e de um cenário de quebra de regras internacionais para defender que o Brasil faça escolhas políticas e econômicas de forma independente. Não há referência explícita ao plano público do governo Donald Trump de aumentar sua influência no continente americano.

A diplomacia de Lula também reafirma o compromisso com tratados de direitos humanos, igualdade de gênero e raça como pilares da imagem externa. O plano também celebra a abertura de 656 novos mercados durante seu mandato e a conclusão de acordos do Mercosul com a União Europeia e Singapura como provas de uma política ativa.

O que propõem Caiado, Renan e Zema

Ronaldo Caiado propõe uma diplomacia de Estado voltada estritamente ao interesse nacional, rejeitando tanto alinhamentos automáticos quanto antagonismos gratuitos. O candidato foca na abertura de mercados para o agronegócio e na atração de investimentos produtivos, utilizando os ativos de energia limpa, biodiversidade e minerais estratégicos do país como moedas de troca para o desenvolvimento. Caiado defende simultaneamente todas as frentes de atuação, da OCDE ao BRICS e não se compromete com nenhum alinhamento.

Renan Santos apresenta um plano chamado "Brasil Poderoso", que visa transformar o país no árbitro do Sul Global e em uma sub-hegemonia regional sem caráter imperialista. Sua estratégia inclui medidas como a desdolarização da América do Sul por meio de uma cesta de moedas liderada pelo Real e a busca pela autonomia completa do ciclo de combustível nuclear como ativo de dissuasão.

Zema prega um choque de pragmatismo para reconectar o Brasil com as democracias e os mercados globais, sugerindo inclusive a saída diplomática do bloco dos BRICS para evitar alinhamentos que comprometam os valores constitucionais brasileiros. O plano do mineiro prioriza a adesão imediata à OCDE e a flexibilização do Mercosul, transformando-o em uma zona de livre comércio para que o Brasil recupere a liberdade de negociar acordos bilaterais de tecnologia e inovação.

A decisão final do eleitor definirá se o Brasil seguirá o caminho da integração às melhores práticas globais de mercado e segurança ou se manterá a estratégia de tentar se destacar em bloco de nações em desenvolvimento focado na contestação da ordem internacional atual.

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