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O PT apresentou o programa de governo para uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O projeto traz uma reciclagem da aposta no protagonismo do Estado como motor do desenvolvimento e da redução das desigualdades.
A novidade está na centralidade dada ao conceito de soberania nacional para defender a atuação estatal em setores econômicos e colher dividendos eleitorais a partir da ideia de uma “ameaça externa”.
O “Plano Brasil Soberano” faz do termo um mantra ao longo de seus 13 eixos temáticos. A palavra se multiplica no programa, que fala em “soberania digital”, “soberania energética”, “soberania alimentar”, “soberania mineral” e “soberania sanitária”, entre outras.
O conceito também serve de justificativa para ampliar a “capacidade de planejamento do Estado brasileiro”, evitar que o país se curve aos “interesses de outras potências” e alcançar “soberania em todas as suas dimensões”.
Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, as propostas representam uma “repaginação das mesmas ideias”. “É basicamente mais do mesmo”, afirma o cientista político Ricardo Caldas, professor da UnB. Para ele, a estratégia geral do PT não mudou e o discurso de soberania representa uma “cartada nacionalista claramente oportunista”.
O nacionalismo, acredita, também revela a tentativa de encontrar novos nichos eleitorais depois de anos de expansão de programas voltados a grupos específicos. “Os nichos foram praticamente todos já cobertos”, afirma.
Agora, o professor afirma que o PT estaria “buscando desesperadamente esse eleitor de centro” com um viés "patriota". Segundo ele, esse “não era um discurso petista, mas que eles estão pegando essa bandeira para eles”.
Adriano Cerqueira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Ouro Preto, identifica o movimento como uma tentativa de “reapropriação das cores nacionais”. Além disso, há também uma aposta no "antiamericanismo”, buscando maior distanciamento da liderança dos Estados Unidos na região e a aproximação a países como China e Rússia.
Cerqueira, porém, classifica a estratégia como “miopia ideológica”. “O eleitor médio não é anti-americano”, afirma. Para ele, o tema “não está encantando” o eleitor comum, que está mais preocupado com economia e segurança pública. A retórica pode “fortalecer o Lula nessa base mais radical da esquerda”, mas é “insuficiente para garantir a vitória”.
“Achar que o enfrentamento contra as ações do Trump vai acender um espírito nacionalista anti-americano no eleitor de centro, centro-direita é uma ilusão ideológica”, afirma.
Para Caldas, a aposta de criar uma polarização “Lula versus Trump” reproduz o modus operandi de um governo cujo “mote não é a solução de problemas, é o conflito”. “Ele vive do conflito de jogar A contra B, B contra C, C contra D. Brasil contra Estados Unidos, Brasil contra Israel”, afirma.
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"Herança maldita" é justificativa recorrente
O documento preserva uma velha fórmula petista: atribuir parte dos problemas que persistem no país à “herança maldita” do governo anterior. O texto afirma que o PT recebeu “políticas públicas destruídas”, um “Orçamento fictício” e um “Estado profundamente desmontado”, e sustenta que a superação desse legado exige “derrotar o projeto liberal-conservador”.
A estratégia de responsabilizar os governos anteriores é classificada por Cerqueira como parte da “velha máquina política eleitoral petista do século passado”. “O partido volta a bater nessa tecla surrada, para jogar a culpa na estrutura social brasileira”. Segundo ele, “o passado recente, amplamente governado e dominado pelo PT nas últimas décadas, é esquecido, deixado de lado”.
Caldas relativiza a acusação recorrente. “Ele [o PT] falava a mesma coisa do Fernando Henrique”, diz, relembrando que a estabilização promovida pelo governo tucano com o Plano Real foi a principal responsável pelo período de maior crescimento econômico dos governos petistas.
Neste sentido, a ausência de uma agenda de responsabilidade fiscal objetiva também chama a atenção. O programa recorre a referências genéricas como “qualidade do gasto público” e combate a “distorções e privilégios”, enquanto associa o controle das despesas ao corte de benefícios fiscais considerados ineficientes e à revisão de isenções tributárias. A ênfase, portanto, está mais no aumento da arrecadação e na chamada justiça tributária.
O programa promete manter o arcabouço fiscal e controlar o crescimento das despesas, mas não cita o aumento da dívida pública, que passou de 71,7% do PIB, em dezembro de 2022, para 81,1% em maio de 2026, segundo o Banco Central. Ao mesmo tempo, o documento preserva uma agenda extensa de investimentos, crédito, política industrial e expansão de políticas públicas.
Para Cerqueira, a contradição aparece justamente na ausência de um ajuste mais explícito: “a questão fiscal não é enfrentada no discurso porque é um governo expansionista”.
Conheça os 13 eixos do programa de governo do PT
A Gazeta do Povo preparou um resumo dos 13 eixos do programa de governo do PT:
1. Fortalecer a democracia, a participação social e modernizar o Estado
O PT promete ampliar a participação popular na definição das políticas públicas e dar mais transparência ao Orçamento. A proposta inclui reforma política e eleitoral, fortalecimento do Sistema de Participação Social e regras para as redes sociais sob a justificativa de combater desinformação e discurso de ódio.
Na gestão, a aposta é ampliar os serviços digitais do Gov.br, criar um Conselho Nacional pela Soberania Digital e usar o poder de compra do Estado como instrumento para induzir investimentos, inovação e desenvolvimento. O programa também quer reduzir o espaço das emendas parlamentares na execução do Orçamento.
2. Combater as desigualdades
A redução das desigualdades, um dos principais eixos do projeto petista, passa por transferência de renda, valorização do salário mínimo e justiça tributária. Entre as propostas está a manutenção da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O texto também promete ampliar políticas de cotas, acelerar a titulação de territórios quilombolas e avançar na demarcação de terras indígenas. Para as mulheres, a prioridade é dar continuidade ao Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio e à Lei da Igualdade Salarial.
Ricardo Caldas classifica a estratégia social do PT como “neoclientelismo” e afirma que o partido apenas muda o foco dos programas para alcançar novos grupos. Ele ainda aponta que a insistência na mesma fórmula já apresenta desgaste. “Há um esgotamento do modelo neoclientelista do PT, não só do governo Lula atual, mas dos governos petistas nas últimas décadas, desde 2002”, diz.
3. Proteger a vida com a segurança pública
Na segurança, o PT aposta em maior coordenação federal e no combate ao crime organizado pelo lado financeiro. A proposta prevê a aprovação da PEC da Segurança Pública, a criação do Ministério da Segurança Pública e a continuidade da estratégia de asfixia financeira de facções e milícias. Também aparecem medidas como câmeras corporais, controle de armas, fortalecimento das forças integradas de combate ao crime e ampliação da presença do Estado na Amazônia.
Adriano Cerqueira considera o pacote pouco capaz de produzir impacto eleitoral porque reúne medidas já conhecidas e de difícil explicação para o cidadão comum. Para ele, o governo apresenta “uma série de propostas, muitas vezes até recolocadas”, em vez de mostrar resultados concretos no combate à violência.
O ponto mais duro da crítica está na própria ideia de soberania, como a Gazeta do Povo já mostrou anteriormente. “O Estado brasileiro não é soberano dentro do próprio território nacional, onde 26% da população vive sob a guarda do crime organizado”, afirma Cerqueira. Segundo ele, “a falha da segurança pública está enfraquecendo a soberania do Estado brasileiro no próprio território brasileiro”.
4. Garantir o direito à educação
Na educação, o programa prioriza a alfabetização na idade certa e o combate à evasão escolar, com a continuidade do Pé-de-Meia. Também prevê ampliar o ensino em tempo integral, universalizar a conexão de internet nas escolas e expandir a rede de Institutos Federais, com mais 111 unidades. No ensino superior, a proposta inclui novos campi federais e a implantação da Universidade Indígena.
5. Fortalecer a saúde com equidade, inovação e soberania
O programa trata o SUS como peça central da chamada soberania sanitária. Entre as prioridades estão a redução das filas de exames e consultas por meio do Agora Tem Especialistas, a ampliação da estrutura de tratamento de câncer e a expansão do Farmácia Popular, inclusive com exames laboratoriais gratuitos. O texto também propõe ampliar a produção nacional de medicamentos, equipamentos e outros insumos de saúde para reduzir a dependência externa.
6. Ampliar o acesso à cultura e ao esporte como vetores de transformação social
Na cultura, a proposta é ampliar o financiamento por meio da Lei Aldir Blanc e da Lei Rouanet e fortalecer os Pontos de Cultura. O PT também quer regulamentar o mercado de streaming e ampliar a proteção de direitos autorais no ambiente digital. No esporte, a agenda prevê a criação da Universidade do Esporte e o apoio à realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027.
7. Fortalecer o direito à cidade
A política urbana combina habitação, saneamento e adaptação às mudanças climáticas. O programa contabiliza a meta de contratação de 3 milhões de moradias pelo Minha Casa Minha Vida até o fim deste ano, no terceiro mandato de Lula, mas não projeta objetivos futuros. Além disso, propõe universalizar o saneamento. Também prevê ampliar a eletrificação do transporte coletivo e investir em drenagem e contenção de encostas para reduzir os efeitos de eventos climáticos extremos.
8. Construir uma economia mais sustentável, produtiva e digital
É aqui que aparece de forma mais clara a ideia de Estado indutor. O programa propõe uma “neoindustrialização” baseada na Nova Indústria Brasil (NIB) e no Plano de Transformação Ecológica, combinando política industrial, crédito, investimento público e participação das empresas estatais.
O texto também trata da criação de uma infraestrutura computacional nacional, do desenvolvimento de inteligência artificial brasileira e de mecanismos de crédito para pequenos negócios, como o Acredita.
O programa afirma que “o Estado induz o aumento da produtividade e o adensamento produtivo” ao investir em infraestrutura, indústria e crédito. Também defende o uso do poder de compra estatal para induzir desenvolvimento e inovação.
9. Segurança alimentar e produção agrícola
O PT promete manter o Brasil fora do Mapa da Fome e ampliar o apoio à agricultura familiar, principalmente por meio do Pronaf. A agenda inclui o avanço da reforma agrária, reforço da Embrapa e investimentos em tecnologia adaptada ao clima brasileiro. Também há propostas para recuperar pastagens degradadas, ampliar a produção sustentável e reduzir a dependência externa de fertilizantes.
10. Ampliar a segurança energética e liderar a transição para uma economia de baixo carbono
O programa combina segurança energética e transição climática. A ideia é ampliar a geração solar e eólica, expandir os biocombustíveis e investir em combustíveis como SAF e diesel verde. Na área social, o texto promete ampliar programas como Luz para Todos e Gás do Povo para reduzir a pobreza energética.
A Petrobras aparece novamente como instrumento de política energética, com previsão de novos investimentos em refino e distribuição. Durante o governo Dilma Rousseff, a Petrobras também foi colocada no centro da política industrial, com o governo usando investimentos da estatal e exigências de conteúdo local para estimular a indústria naval, fornecedores de máquinas e equipamentos e outros setores da cadeia de petróleo e gás.
11. Promover a sustentabilidade ambiental e climática
O PT reafirma a meta de chegar a desmatamento líquido zero até 2030 e pretende avançar na criação do mercado regulado de carbono. O programa prevê ainda consolidar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e ampliar políticas de proteção animal, como o ProPatinhas.
12. Valorizar o trabalho
O programa mantém a política de valorização real do salário mínimo e amplia a proteção para trabalhadores de aplicativos e plataformas digitais. Entre as bandeiras trabalhistas estão o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial. Na Previdência, a promessa é modernizar o INSS e reduzir as filas para concessão de benefícios.
13. Defender a soberania nacional e o protagonismo internacional do Brasil
Aqui está o grande eixo político do programa. O PT defende uma política externa independente, com maior integração da América do Sul e fortalecimento do Mercosul, e quer ampliar a participação brasileira nas instituições multilaterais. Na defesa, a proposta é fortalecer a indústria bélica nacional e projetos como os caças Gripen e os submarinos.




