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A repercussão negativa entre grupos evangélicos após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói levou o Partido dos Trabalhadores (PT) a intensificar ações públicas para reduzir o desgaste político. A escola homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o Carnaval e incluiu uma ala que incomodou os conservadores.
A ala em questão apresentou uma representação de famílias acomodadas em latas de conserva com elementos religiosos como bíblias e cruzes e gerou reações de lideranças evangélicas e políticos ligados à direita, que apontaram desrespeito à família tradicional. O episódio provocou manifestações públicas de parlamentares, lideranças religiosas e integrantes da oposição.
Diante do impacto, o tema passou a ser tratado internamente pelo governo como um foco de atenção na relação com o eleitorado evangélico, considerado estratégico para as eleições de 2026.
Benedita da Silva é escolhida para discurso sobre fé e família
Como resposta ao episódio, o PT divulgou nas redes sociais, nesta segunda-feira (23), um vídeo com a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), que é evangélica. Na gravação, a parlamentar aborda temas ligados à fé, à família e a políticas públicas do governo federal.
Benedita afirma que a religião não deve ser usada como ferramenta de disputa política. "Deus não pode ser instrumento de campanha política", declara no vídeo.
"Sou uma mulher de fé. Tenho orgulho de ser evangélica há mais de 60 anos", diz a deputada. "Usam a Bíblia como se fosse um crachá, como se Deus tivesse um partido. Nas redes o bolsonarismo diz que defende a família, mas na prática, plantam o medo, divisão e mentiras."
E a Palavra nos ensina, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"
Benedita da Silva, deputada federal, cita trecho bíblico que virou bordão de Jair Bolsonaro
A deputada federal citou ainda uma frase bíblica que ficou conhecida por ser utilizada repetidas vezes pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL): "A fé que eu aprendi no Evangelho não anda de mãos dadas com a mentira, porque a mentira aprisiona. E a palavra nos ensina, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", disse a deputada, citando João 8:32 na publicação.
Deputada associa políticas públicas à proteção das famílias
No vídeo, Benedita da Silva relaciona ações do governo Lula a políticas voltadas às famílias. Ela menciona a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, além dos programas Luz do Povo e Gás do Povo.
A deputada também faz referência a iniciativas como Bolsa Família, Pé-de-Meia, Minha Casa, Minha Vida e ao Sistema Único de Saúde (SUS), apresentando essas medidas como exemplos de cuidado com a população.
Na legenda da publicação, Benedita complementa a mensagem: "Porque cuidar da família brasileira não é discurso, é atitude. É mais renda dentro de casa, conta de luz mais barata, gás garantido, oportunidades, moradia digna e mais cuidado com a educação, a saúde e a geração de empregos. Fé de verdade não se usa. Fé de verdade se vive".
Lula afirma que não participou das decisões artísticas do desfile
Questionado sobre a ala que gerou críticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não teve envolvimento com as escolhas artísticas do desfile. "Eu não penso. Porque primeiro eu não sou o carnavalesco, eu não fiz o samba-enredo, eu não cuidei dos carros alegóricos. Eu apenas sou homenageado em uma música maravilhosa", disse.
Lula afirmou ainda que aceitou a homenagem da escola de samba e manifestou gratidão. "Cabia ao presidente da República aceitar ou não a homenagem, e eu aceitei. Assim que retornar ao Brasil, vou visitar a escola de samba para agradecer", declarou a jornalistas em Nova Delhi, na Índia.
As declarações ampliaram a insatisfação de setores evangélicos, que passaram a cobrar uma posição mais clara do presidente diante da representação apresentada no Carnaval.
Pastor ligado ao PT critica ala, mas minimiza impacto eleitoral
Antes da divulgação do vídeo de Benedita, o pastor batista Oliver Costa Goiano, coordenador do núcleo de evangélicos do PT, também se manifestou sobre o episódio. Ele criticou a fantasia apresentada pela Acadêmicos de Niterói, mas afirmou não ver efeitos eleitorais relevantes.
"O fato de uma escola, numa última ala, fazer algo que realmente incomodou famílias conservadoras, inclusive como a minha, não tem nada a ver com o Partido dos Trabalhadores. Então, não acredito que isso vá prejudicar o diálogo da esquerda ou do governo Lula com os evangélicos", afirmou em entrevista.
Segundo Goiano, o Carnaval não influencia o voto desse público. "O evangélico não vai definir seu voto pelo Carnaval, porque entende que essa festa não diz respeito aos evangélicos. O evangélico e Carnaval não se misturam", disse.





