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Santa Catarina

Jamais eleita, esquerda patina para ganhar relevância no estado mais conservador do país

Santa Catarina é considerado o estado mais conservador do país
Santa Catarina é considerado o estado mais conservador do país. (Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Governo de Santa Catarina)

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O estado de Santa Catarina consolidou, ao longo das últimas décadas, um sistema político marcado pela hegemonia da direita e do centro. Desde a redemocratização do país, nenhum partido de esquerda venceu a disputa pelo governo estadual — um dado estrutural que ajuda a explicar as dificuldades atuais desse campo ideológico para se firmar como alternativa real de poder no estado.

A análise do professor do Departamento de Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Julian Borba dimensiona esse cenário. Ele evidencia a hegemonia dos partidos de direita e centro no estado desde os anos 1980. Ainda que coalizões lideradas por legendas de centro tenham contado com participação de partidos progressistas, a liderança dos governos se mantém fora do campo ideológico alinhado à esquerda.

É o caso das administrações do antigo PMDB — hoje MDB — como as de Pedro Ivo Campos, Paulo Afonso Vieira e Luiz Henrique da Silveira, que reuniram alianças amplas, inclusive com partidos de esquerda, mas sem que estes ocupassem o comando do projeto estadual.

Borba compara que, em 2018, a direita elegeu 56,3% dos deputados federais catarinenses, contra 25,1% do centro e 18,8% da esquerda. Na Assembleia Legislativa, os percentuais foram 47,5% (direita), 27,5% (centro) e 25% (esquerda). Em 2022, o predomínio se ampliou. Do total, 65% dos deputados estaduais eleitos eram de partidos classificados como de direita. Na Câmara dos Deputados, esse campo alcançou 62,5% das cadeiras.

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Segundo Borba, o ano de 2018 representou um ponto de inflexão na política catarinense. A “onda Bolsonaro” varreu o estado, resultando na eleição de Carlos Moisés ao governo pelo PSL, até então um nome pouco conhecido da política estadual. O partido também conquistou as maiores bancadas catarinenses no Congresso e na Assembleia.

O desempenho de Jair Bolsonaro (PL) em Santa Catarina foi o mais expressivo do país. Naquele ano, foram 65,82% dos votos no primeiro turno e 75,92% no segundo. Quatro anos depois, Bolsonaro superou o índice de 62% de escolha nas urnas no primeiro turno.

Na disputa estadual de 2022, mesmo com dez candidatos ao governo, o domínio ideológico permaneceu. Os candidatos classificados como representantes do espectro da direita somaram mais de 80% dos votos no primeiro turno — o maior percentual desde 1998. Ainda assim, o congestionamento de candidaturas nesse campo ideológico, com quatro candidatos competitivos, fez com que apenas um nome da direita avançasse ao segundo turno: Jorginho Mello (PL).

Naquele ano, o petista Décio Lima chegou ao segundo turno mesmo tendo obtido menos de 18% dos votos totais, beneficiado pela divisão dos adversários. O candidato do PL recebeu apoio da maior parte dos partidos derrotados no primeiro turno.

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O pesquisador da UFSC evidencia o processo de transformação no perfil da direita catarinense, que teve na eleição de 2022 o declínio de tradicionais famílias políticas, como Bornhausen e Amin, que não elegeram representantes. Borba aponta que a direita catarinense que está emergindo das urnas é menos oligárquica e mais ideológica, fortemente ancorada em pautas morais — como religião e gênero — e na agenda de segurança pública.

O pesquisador também aponta que 2018 representou a radicalização de um processo de fragmentação partidária, enquanto 2022 mostrou estabilização. A leitura estrutural é reforçada pelo analista político e pesquisador em Educação e Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Daniel Pinheiro.

De acordo com ele, o cenário catarinense se diferencia por uma construção histórica mais ligada ao centro e à direita. Pinheiro aponta duas origens principais para esse processo: a própria formação social e cultural do estado e sua tradição política.

Ele destaca ainda que os valores econômicos e sociais predominantes são mais conservadores do que em outras regiões do país. “Santa Catarina tem o poder econômico muito próximo ao poder político, um poder econômico muito mais ligado ao empresariado".

Essa estrutura, de acordo com ele, ajuda a explicar por que a esquerda encontra mais dificuldade para se consolidar eleitoralmente no estado, mesmo quando apresenta desempenho competitivo em contextos de polarização. Por sua vez, a doutora em Ciência Política e consultora política em Brasília Andreia Maidana acrescenta que o entrave não está prioritariamente na agenda econômica.

“Vejo que a dificuldade da esquerda em Santa Catarina está diretamente ligada à pauta de costumes”, afirma. Segundo ela, o ambiente de polarização nacional — marcado pelo embate entre Bolsonaro e Lula — reforça uma escolha ideológica do eleitor catarinense. Na avaliação da consultora política, há uma afinidade histórica com o tradicionalismo e o conservadorismo, associada à valorização do mérito pessoal, herança cultural das correntes imigratórias europeias no estado.

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A pré-campanha eleitoral em Santa Catarina para este ano tem como pano de fundo uma preferência na intenção de voto, ao menos neste início de abril, que pende para a reeleição de Jorginho Mello, conforme aponta sondagem realizada pelo instituto AtlasIntel.

O governador obtém cerca de 49% da preferência do eleitor, seguido pelo ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), que oscila entre 21,4% e 20,9% das intenções de voto. Em um dos cenários testados na mesma sondagem eleitoral, Gelson Merísio (Solidariedade) soma 13,8%, enquanto em outra simulação Décio Lima (PT) chega a 19,6%.

Já em eventual segundo turno, o pré-candidato do PL aparece à frente dos três adversários. Presidente do Sebrae e aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Décio Lima foi o nome da esquerda que chegou ao segundo turno catarinense há quatro anos. Por sua vez, Merísio teria se aproximado de lideranças do PT e do PSB e uma eventual candidatura dele poderia reorganizar o campo da centro-esquerda e abrir espaço para uma composição com Lima ao Senado.

Na disputa ao Senado, Caroline de Toni (PL) é a mais citada na pesquisa da AtlasIntel do início do mês, com Esperidião Amin (PP) e Carlos Bolsonaro (PL) disputando a segunda vaga. Neste ano, cada estado brasileiro elegerá dois representantes ao Senado.

Para Andreia Maidana, a estratégia da esquerda exige pragmatismo em Santa Catarina. Ela avalia que manter candidatura própria “mostraria a resiliência da esquerda”, mas pondera que, de forma prática, o caminho mais viável pode ser outro, o de compor frentes.

“Em um estado predominantemente conservador, partidos e agentes políticos de esquerda sofreram um impacto negativo desde a queda de Dilma Rousseff e com o forte antipetismo. O PT, embora tenha lideranças fortes em Santa Catarina ao longo da história, não conseguiu uma base sólida e expressiva”, analisa.

Segundo ela, a fragmentação interna e a ausência de uma liderança hegemônica estadual dificultam a reorganização do campo progressista. A consultora política também avalia que romper o chamado “antipetismo estrutural” exige uma inflexão estratégica na comunicação. “Não é uma tarefa fácil furar a bolha, superar o antipetismo estrutural e construir uma aproximação da esquerda com o eleitorado religioso e conservador”, afirma.

Como alternativa, ela sugere priorizar temas de impacto direto na vida cotidiana, como saúde, educação, segurança. "Tem grandes chances de o eleitor avaliar e, quem sabe, (re)calcular o seu voto quando determinada política pública impacta diretamente e positivamente na sua vida”, reflete a pesquisadora.

  • Metodologia da pesquisa citada: A AtlasIntel entrevistou 1.280 pessoas entre os dias 25 e 30 de março. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº SC-05257/2026.

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