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De um lado, a pressão pela escolha de um nome que fortaleça ainda mais a aliança e alinhamento político do plano estadual com o nacional, com apoio da base de governabilidade na Assembleia Legislativa local. Do outro, a pressão de um aliado de primeira hora, mestre da fina costura política de bastidor e líder de um dos maiores partidos do país, que também pleiteia o cargo. No meio, um companheiro que provou-se leal e colaborativo nos primeiros quatro anos de governo, e que seria uma opção ideal para seguir em frente por mais quatro no maior colégio eleitoral do Brasil.
Pressionado tanto por Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e secretário estadual de Governo e Relações Institucionais de São Paulo, quanto pelo PL — de Valdemar Costa Neto, presidente nacional da sigla, e do senador carioca Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República — pela vaga de vice na chapa que concorrerá à reeleição em terras paulistas, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) gostaria mesmo é de manter como parceiro na corrida eleitoral o atual vice, Felício Ramuth (PSD).
Se vai conseguir, diante da composição e distensão entre as forças políticas que o apoiam, é outra história. É o que revelam tanto conversas de bastidor quanto movimentações públicas de algumas das principais lideranças políticas no campo da direita em São Paulo que têm ocorrido ao longo das últimas semanas.
Troca de partido por Felício Ramuth é vista como possibilidade para ele se manter como vice de Tarcísio
Tanto Tarcísio quanto Ramuth têm sido evasivos quando questionados por jornalistas sobre o assunto, mas aliados e pessoas próximas à pré-campanha do governador confirmam nos bastidores à Gazeta do Povo que até mesmo uma troca de partido para o atual vice manter o cargo não está fora do horizonte.
No caso de uma saída do PSD, o destino mais provável de Ramuth seria o MDB ou o próprio PL, mas mesmo uma sigla menor não está descartada no caso de encontrar as portas fechadas para as primeiras opções. A troca partidária só deve se efetivar como alternativa, se não houver mesmo possibilidade de compor um acordo político com Kassab para a permanência do vice na chapa pelo próprio PSD.
Pessoas próximas aos caciques do MDB em São Paulo afirmam à reportagem da Gazeta do Povo que consideram a hipótese da filiação de Felício Ramuth ao MDB remota. O próprio presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, colocou o próprio nome à disposição de Tarcísio para vice na chapa estadual desde o início de fevereiro, em um encontro entre os dois.
Além disso, uma das lideranças do MDB no estado, o prefeito reeleito de São Paulo, Ricardo Nunes, não esconde de aliados que possui a pretensão de lançar-se candidato ao governo em 2030, se a conjuntura permitir, o que poderia ser fonte de atrito com Ramuth dentro da sigla — não seria vantajoso para ele que alguém do MDB ocupe a vice-governadoria, uma vez que essa figura naturalmente se colocaria como postulante ao governo paulista em 2030.
Pelo lado do PSD, o próprio Kassab não desistiu de compor a chapa de Tarcísio. A interlocutores, o atual vice afirma que nada está definido e qualquer decisão só será tomada depois de uma conversa sobre o assunto com o próprio presidente nacional do PSD, que deve acontecer nas próximas semanas.
PL quer vaga de vice de Tarcísio para presidente da Alesp
Por outro lado, Flávio Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e a turma do PL em São Paulo também querem a posição de vice na chapa de Tarcísio, e têm pressionado cada vez mais o governador pelo posto. O nome indicado pelo grupo é o do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL).
Deputados estaduais da sigla, que compõem a base do governo na casa legislativa estadual, articulam a entrega de uma carta a Tarcísio com um manifesto defendendo a escolha de Prado como vice para manutenção da aliança política. A carta já conta a assinatura de quase toda bancada do PL, além de alguns parlamentares de siglas aliadas, e deve ser entregue ao governador ainda neste mês.
O texto pró-André do Prado cita um “perfil conciliador” do parlamentar, que é aliado de Costa Neto. A carta enumera projetos importantes para o governo aprovados na atual presidência da Alesp e que serão usados como propaganda no período eleitoral.
Nos bastidores, nomes contrários à indicação de André do Prado afirmam que o PL já estaria contemplado nas eleições pelo apoio de Tarcísio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto.
O principal argumento do PL para reivindicar a vaga é o tamanho de sua bancada no estado, com 22 deputados atualmente. Sem o partido, dizem integrantes da legenda, Tarcísio não teria governabilidade e enfrentaria dificuldades para aprovar projetos relevantes, como a privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).
Tarcísio, porém, avalia que o PL já está contemplado com a vaga ao Senado e com a cabeça de chapa na disputa presidencial. "O PL é o partido que mais agrega à candidatura de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) à reeleição ao governo do estado de São Paulo”, afirma à Gazeta do Povo o deputado estadual Tenente Coimbra (PL).
“Sugerimos o nome do André do Prado, presidente da Casa, para compor a chapa de Tarcísio, na vice, por confiarmos em sua competência e trajetória política. Sobre a carta de apoio, ela foi assinada por grande maioria dos parlamentares do PL. Inclusive, sou um dos signatários da iniciativa”, diz.
"Mais do que nomes, o mais importante é a continuidade de um projeto que está dando certo em São Paulo, segundo aferição de diferentes institutos de pesquisas e o termômetro nas ruas”, afirma à Gazeta do Povo a deputada federal Rosana Valle (PL).
"Creio que o PL está preparado para seguir contribuindo, seja na vice, ou em outras posições estratégicas, sempre com um olhar de responsabilidade e de respeito e com espírito de união”, acrescenta a parlamentar.
Em relação a André do Prado, ela ressalta o que considera como um movimento de reconhecimento ao trabalho dele. "A carta elaborada por parlamentares liberais da Alesp vai ao encontro desta articulação política legítima e inerente ao processo eleitoral que se avizinha”, afirma a deputada.
Costa Neto defende que agora é a vez do PL compor chapa como vice de Tarcísio
No final de fevereiro, Valdemar já havia passado um recado ao governador paulista e disse que pediria a Tarcísio para o PL indicar o vice, com o argumento de que a sigla tem a maior bancada na Alesp. “Eu cedi a vice da outra eleição para o Kassab, porque a vice era nossa, agora é nossa vez”, disse o dirigente do PL em um encontro com empresários.
Anotações feitas pelo senador Flávio Bolsonaro em uma reunião privada em um pedaço de papel e flagradas pela imprensa mostram que ele discutiu com dirigentes do PL a possibilidade do presidente da Alesp ser indicado como vice na chapa de Tarcísio. Flávio escreveu ao lado do nome de André do Prado: “vice?”.
A movimentação, porém, até o momento não surtiu o efeito desejado. Segundo interlocutores do governador, em encontro com Flávio Bolsonaro no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, Tarcísio teria avisado o aliado de que a escolha do vice seria uma escolha pessoal sua, e não uma imposição de nenhuma sigla ou aliado.
Apesar do banho de água fria, no mesmo dia ambos encontraram com Prado durante uma homenagem a Costa Neto na Alesp. O evento serviu também para Prado demonstrar a Tarcísio sua musculatura política — além de Flávio, Costa Neto e toda bancada do PL, estavam presentes no evento dezenas de prefeitos e lideranças políticas do estado afora.
A presença de Tarcísio foi vista por integrantes do PL paulista como um gesto de que, apesar da resistência, a porta não está fechada para o chefe do Legislativo local e que muitas negociações ainda devem ocorrer antes do nome de alguém ser anunciado oficialmente.
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo para comentar a possibilidade de integrar a chapa majoritária ao lado do governador em São Paulo nas eleições deste ano, por meio de sua assessoria de imprensa, André do Prado não respondeu até a publicação deste texto.










