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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reuniu no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, na última terça-feira (9), um retrato da coalizão que monta para a disputa eleitoral de 2026. Ao lado dele, para o anúncio de R$ 801 milhões destinados à área da Saúde dos 645 municípios paulistas, estavam o presidente da Assembleia Legislativa do estado, André do Prado (PL); o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), e o vice-governador, Felício Ramuth (MDB).
Do total anunciado, R$ 600 milhões correspondem a transferências voluntárias e emendas impositivas indicadas por deputados estaduais — uma das principais demandas da base. O anúncio ocorre no momento em que a atual gestão à frente do estado reorganiza a articulação política para disputar a reeleição em 2026: desde março, quando Gilberto Kassab (PSD) deixou a Secretaria de Governo e Relações Institucionais para se dedicar à própria sigla, a função está concentrada nas mãos de Roberto Carneiro (Republicanos), que já havia assumido a Casa Civil em janeiro com a missão de melhorar a relação com aliados.
Em ano eleitoral, deputados e prefeitos aproveitam para cobrar do Palácio dos Bandeirantes mais recursos e espaço político, como a definição da chapa do governador à reeleição, a sucessão na presidência do Legislativo do estado e a acomodação dos partidos aliados em negociação até as convenções partidárias.
Carneiro recebe prefeitos e deputados no Palácio dos Bandeirantes
Carneiro importou para São Paulo a experiência política adquirida em outro estado. Natural de Vitória (ES), o secretário construiu a carreira exatamente na relação entre o Executivo e o Legislativo: foi secretário de Esportes e da Casa Civil do Espírito Santo na gestão Paulo Hartung, então no PMDB, entre 2015 e 2018; secretário de Governo da capital capixaba na administração de Lorenzo Pazolini (Republicanos) e diretor-geral da Assembleia Legislativa do estado.
Em fevereiro de 2023, mudou-se para São Paulo a convite do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, para comandar o partido no estado. A avaliação na base é de que a mudança de método é perceptível com a chegada de Roberto Carneiro na articulação política com a Alesp e prefeitos do estado.
"O Roberto entrou com uma outra filosofia. Ele atende todo mundo, recebe as pessoas, dá retorno. O clima melhorou demais", afirma o deputado estadual Thomé Abduch (Republicanos), pré-candidato a deputado federal.
De acordo com Abduch e outros deputados, os prefeitos têm feito elogios à atuação de Carneiro à frente da Secretaria de Governo e consideram que as demandas passaram a ser respondidas com mais agilidade. Segundo apuração da Gazeta do Povo, o governo estrutura ainda uma sala especial no Palácio dos Bandeirantes para receber prefeitos diariamente, com acompanhamento de integrantes de diferentes áreas da gestão para encaminhar as demandas municipais.
Governo estadual acelera a liberação de verbas
É fato que a engrenagem das emendas passou a girar mais rápido neste ano eleitoral, com o terreno tendo sido preparado ainda em 2025: na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, o governo estabeleceu que os deputados indicassem os beneficiários das emendas impositivas, com CNPJ, já na elaboração do Orçamento — antes, o detalhamento só ocorria depois da aprovação da lei. O objetivo declarado era acelerar a liberação, após um histórico de atrasos.
O efeito aparece nos números. Levantamento da Gazeta do Povo na plataforma de emendas da Secretaria de Governo mostra que, até 30 de abril, o governo havia pago R$ 106,6 milhões das impositivas de 2026 — mais que o triplo dos R$ 31,8 milhões registrados no mesmo período de 2025.
O grosso do dinheiro, porém, costuma sair no meio do ano: em 2025, mais de um terço de todos os pagamentos do exercício foi registrado apenas em junho. O calendário deve se repetir agora.
Ao anunciar os repasses à saúde municipal nesta semana, o governo informou que as transferências indicadas pelos deputados serão pagas até o fim de junho — para a base parlamentar estadual, a sinalização de que a fila das verbas anda antes das convenções.
Parlamentares da base capitalizam as liberações feitas pelo governador Tarcísio de Freitas. O líder do governo na Alesp e primeiro vice-presidente da Casa, deputado estadual Gilmaci Santos (Republicanos), publicou nesta semana uma peça com o selo "Recurso pago" para anunciar a destinação de R$ 100 mil à Secretaria de Saúde de Rancharia, no oeste paulista, e compartilhou imagens ao lado do governador no anúncio dos repasses à saúde municipal no Palácio dos Bandeirantes.
A sequência de medidas voltadas à base segue o ritmo do calendário eleitoral. Em fevereiro, deputados ligados às forças de segurança cobravam na tribuna da Alesp o reajuste prometido aos policiais e a entrega das cartas de crédito do programa habitacional das categorias.
Em 19 de março, o governo enviou ao Legislativo paulista um pacote com aumento linear de 10% para as polícias Militar, Civil e Técnico-Científica, com impacto estimado de R$ 1,02 bilhão em 2026. Em 24 de março, anunciou a primeira etapa do programa "Moradia Segura", com 1.850 unidades — entre elas, 600 cartas de crédito — para um universo de 39.152 famílias inscritas.
Em 2 de abril, o Executivo estadual sancionou o reajuste, cinco dias antes do início da vedação imposta pela legislação eleitoral a aumentos de servidores. Em 9 de junho, vieram os R$ 801 milhões para a saúde municipal.
Em nota à Gazeta do Povo, a Secretaria de Governo e Relações Institucionais informou que a atual gestão se pauta pelo respeito à independência do Poder Legislativo e a parceria permanente com todos os municípios paulistas. A pasta afirmou que desde o início da gestão, foram firmados 2.908 convênios para obras de infraestrutura urbana com cidades de todas as regiões do estado.
"Nesse mesmo período, foram liberados R$ 3,940 bilhões em investimentos – R$ 1,07 bilhão referentes a parcerias formalizadas a partir de 2023 e R$ 2,870 bilhões de contratos que já estavam em andamento", informou. Em relação à segurança pública, a secretaria estadual informou que a política de recomposição salarial para agentes de segurança – policiais militares, civis, científicos e penais – começou em julho de 2023 e está sendo implementada gradativamente pela Secretaria de Segurança Pública.
"No total, o reajuste médio foi de 35,2% (20,2% em jul/23, 5% em jun/25 e 10% em abr/26), superando a inflação de 14% registrada nos últimos três anos, conforme o INPC", esclareceu em nota. A pasta informou também que o programa "Moradia Segura", que tem como objetivo facilitar o acesso desses profissionais à casa própria, segue a mesma lógica e foi lançado em 2024, após aprovação na Assembleia Legislativa, e desde então foi estruturado.
"As primeiras 1.850 unidades foram disponibilizadas no início deste ano, mas fazem parte de um cronograma técnico-financeiro desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SDUH)", afirmou.
Saída de Kassab expõe disputa de versões sobre promessas
A reorganização da articulação política no entorno de Tarcísio de Freitas tem como pano de fundo o desgaste público com seu antigo articulador político, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
No início do ano, Kassab afirmou, em entrevista ao UOL, que "uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade, outra coisa é submissão", em referência à relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). No dia seguinte, o governador rebateu e negou que gratidão signifique submissão. Dois meses depois, Kassab deixou a Secretaria de Governo.
Sobre o período em que ele comandou a articulação no estado de São Paulo, há versões distintas. Um parlamentar aliado afirma que o ex-secretário assumiu compromissos com muitos interlocutores e não conseguiu dar vazão a todos, o que gerou queixas de prefeitos do interior. Políticos ouvidos pela reportagem, assim como relatos de deputados à imprensa no início do ano, apontavam dificuldade de atendimento na sede do governo estadual.
Pessoas próximas a Kassab rebatem, no entanto, essa leitura. Segundo esse grupo, o atendimento às demandas de prefeitos e parlamentares seguia um protocolo único na Secretaria de Governo, sem tratamento diferenciado, e o ex-secretário tinha como prática não assumir compromissos que não pudesse honrar. Ainda de acordo com essas fontes, a liberação de convênios e contratações depende de autorização orçamentária do governo — o que situaria no Palácio dos Bandeirante a decisão sobre o ritmo das liberações.
Aliados ainda disputam espaço na chapa e na sucessão ao Legislativo estadual
Se a conta das verbas começou a ser paga, a do espaço político segue em negociação. A indicação de André do Prado para a vaga ao Senado na chapa governista provocou reações negativas, mas é considerada como fundamental para angariar apoio de prefeitos do interior do estado de São Paulo, tanto à reeleição de Tarcísio quanto à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
A movimentação abre ainda uma cadeia sucessória na Alesp. Com André do Prado dedicado à pré-campanha ao Senado, o deputado estadual Gilmaci Santos é apontado por parlamentares da base como o principal postulante à presidência da Casa.
Na chapa majoritária, a preferência do governador é manter Felício Ramuth como vice — escolha que deixou Kassab, postulante ao cargo, de lado. A filiação do vice-governador Ramuth ao MDB neste ano — depois de deixar o PSD de Kassab — reorganizou o tabuleiro partidário da aliança e aproximou a sigla de Ricardo Nunes do centro da chapa governista.














