
Midrand - A bola nem começou a rolar e a primeira Copa do Mundo no continente africano já ficou manchada. Mancha de sangue dos diversos torcedores da Nigéria que se rebelaram por não conseguir entrar no Estádio Makhulong, em Midrand, cidade localizada entre Johannesburgo e Pretória, para acompanhar a vitória dos Super Águias por 3 a 1 sobre a Coreia do Norte ontem.
Pelo menos vinte pessoas ficaram feridas. O caso mais grave é de um policial. Pisoteado, ele foi encaminhado para o hospital da cidade, mas não corre risco de perder a vida.
A partida amistosa tinha tudo para dar errado. Uma série de decisões equivocadas levou ao susto e desespero que tomou conta da população do lado de fora do complexo esportivo. Organizado pela Federação Nigeriana, o jogo foi marcado para um estádio pequeno, com capacidade para 12 mil espectadores, apenas para atender a vontade dos norte-coreanos, obcecados por privacidade e segurança um helicóptero sobrevoou o local durante os 90 minutos do confronto.
É no Makhulong, cercado por policiais e sem a presença da mídia, que os orientais se preparam para enfrentar o Brasil no dia 15, às 15h30 (de Brasília), na rodada inaugural do grupo G.
O acordo diplomático, porém, não levou em consideração a paixão por futebol da colônia nigeriana na África do Sul, estimada em cerca de 1 milhão de pessoas. Nem a localização do campo de jogo, encravado no meio de uma região miserável (township) o acesso ao estádio é precário, feito por apenas uma avenida.
A logística também não funcionou. Milhares de torcedores se acotovelaram para garantir um dos oito mil bilhetes que foram distribuídos em três locais distintos da cidade pouco antes de a partida começar. Dois módulos policiais e uma igreja serviram de guichê. Os ingressos acabaram em poucos minutos. Quem garantiu a entrada foi para a frente no Makhulong. Quem não conseguiu também.
Desorientados, o grupo de aproximadamente 200 policiais convocado para garantir a segurança do público não soube o que fazer quando a multidão de "sem ingresso" forçou a entrada. Intuitivamente, fecharam o único portão de acesso, causando a revolta de quem estava com o bilhete na mão. Foi o estopim para a confusão se generalizar.
"Vim de Pretória com outras 11 pessoas só para ver o jogo. Tenho ingresso e não consigo entrar. Isso é um desrespeito", afirmou Frank Upah, de 31 anos. "Que vergonha para a África do Sul. O que vão falar da gente?", emendou outra fã, pouco antes de iniciar a repressão policial contra os jornalistas, com insistentes pedidos para que não se entrevistassem os torcedores.
Perdido em meio à confusão e sem poder de reação, Mveli Mhlafo, chefe de polícia metropolitana e responsável pela segurança da partida, mostrava a planilha de trabalho para tentar aliviar a pressão sobre os soldados. "Só ficamos sabendo hoje [ontem] do jogo. Normalmente esse número de policiais é suficiente, só que hoje [ontem] fugiu do controle. Várias pessoas da comunidade entraram na fila sem ter ingresso. A expectativa era para duas mil pessoas, mas veio bem mais. Organizaram de maneira errada", explicou ele.
Pouco antes de o amistoso acabar, o portão do estádio foi aberto. Mas restava pouco a se ver. E muito a se lamentar.





