
Angustiado com o papel de coadjuvante de um quarteto que dentro de campo não funcionou na Copa 2006, Kaká projetou dar a volta por cima no Mundial da África do Sul. Sem a sombra de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano, barrados por questões físicas e pela lógica de Dunga, o meia do Real Madrid ficou com o caminho livre para exercer sua liderança técnica e espiritual sobre o renovado grupo.
Os jogadores estão fechados com o astro. Até quem poderia se aproveitar da ausência do camisa 10 para ficar com uma vaga no time titular discursa em seu favor. "Kaká vai fazer uma Copa espetacular, estou confiante nisso", diz o lateral-direito Daniel Alves, cotado para migrar para o setor de armação. "Ele é insubstituível", emenda o paranaense Kléberson.
Um dos mais experientes nomes do elenco, Gilberto Silva encerrou a entrevista de ontem em tom profético: "O Kaká está chegando devagarzinho", avisa o pentacampeão.
Frase que vai ao encontro do pensamento usado pelo meia, no Twitter, para abrir o domingo: "Creia que no tempo de Deus o mar irá se abrir. Vivendo pela fé!"
No sábado à noite, fugindo um pouco de suas características, o melhor do mundo em 2007 (segundo a Fifa) participou de uma animada roda de samba no blindado complexo rubro-negro. Hora de descontração revelado em seu Twitter um dos poucos passatempos, ao lado dos tradicionais pebolim, bingo, sinuca e pingue-pongue, liberado por Dunga. "Momento samba!! JB [Júlio Baptista], Roby [Robinho], Dani [Daniel Alves] e o resto na palma...", escreveu ele, que, evangélico fervoroso, anunciou que disputará a Copa com uma nova inscrição na chuteira: "Jesus in first place" (Jesus em primeiro lugar).
As "pedras no caminho" são o único empecilho para o principal armador de Dunga. Dores no púbis e uma sequência de contusões na coxa esquerda transformaram o mais importante jogador da seleção em uma incógnita. Ele jogou muito pouco na Espanha em 2010. Foram quase três meses no departamento médico, o que lhe rendeu críticas de parte da torcida. Não empolgou nem brilhou, fechando a temporada ofuscada pelo português Cristiano Ronaldo.
Em fase final de recuperação da nova contratura muscular, Kaká decidiu se apresentar mais cedo à seleção. Um dia antes de o restante do grupo desembarcar em Curitiba (na sexta-feira), já estava no CT do Caju ao lado do fisioterapeuta Luiz Alberto Rosan.
Ontem, por precaução, não participou da corrida em volta de um dos gramados do complexo rubro-negro. A previsão é que se junte hoje, como Luís Fabiano (também contratura na perna esquerda), aos treinos físicos. O meia aposta no ambiente favorável da seleção para fechar o ciclo esboçado há quatro anos.



