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Ai, às paredes confesso: adorei a partida entre Brasil e Portugal na última sexta-feira. Dizem os especialistas que foi um dos jogos mais chatos de todas as Co­­pas. Não duvido. A questão, contudo, não passa pelo desempenho ludopédico de tapuias e lusitanos, mas da súbita bobeira que a nação portuguesa nos provoca. Creia: se os descobridores não exercessem sobre nós algum tipo de incômodo, não faríamos tantas piadinhas sobre eles.

No meu caso, essa espécie de embriaguês psicológica vem multiplicada. Sou filho de pai e mãe ilhéus portugueses [tenho de frisar o "ilhéus", antes que um Ma­­nuel do continente o faça]. A esse respeito, já cheguei a confabular uma teoria: ninguém nasce impunemente numa família lusa. Fatalmente, algum dia, os filhos postiços dessa pátria mãe hão de se deitar no divã do analista ou se entregar a um tarja preta para facilitar a vida. "Por favor, cantai-me um fado."

Mas esqueçamos a vuvuzelas tristes. Embora torcendo pelo Brasil, levantei-me fagueiramente português no dia do jogo. Sandra Gonçalves, minha chefe na redação – cujos pais vieram da mesma aldeia, ó pá – também estava possuída pelo espírito d’alguma Filomena. Feito dois insanos, cantarolamos "Casa portuguesa", debaixo dos olhares "bilhardeiros". E até planejamos abrir uma academia para ensinar a dançar o "Vira". Com o dinheiro, compraremos uma padaria, a "Pão D’Oiro".

O "Vira" é infinitamente mais fácil que o samba e tão avesso à sensualidade que faria de "Ciranda, Cirandinha" um misto de "Rebolation" com Zouk. Ou seja, o "bailarico" não exige das cadeiras – ou do "rabo", como é conhecido além-mar – nenhuma tonicidade muscular ou movimento pendular. É perfeito para as pessoas sérias, como diriam os meus.

Pois começou o jogo. Mal prestei atenção – queria "aproveitaire para trabalhaire" feito um campônio recém-chegado a bordo do North King. Mas não pude deixar de ouvir minhas colegas de ofício a elogiar o gajo Cristiano Ronaldo. Foi a melhor parte da peleja.

"Mas tá muito bom esse cara, né..." disse uma, com a fúria de um caudilho declarando a independência. A moça é mãe de família, usa óculos de pesquisadora da USP, é socialmente responsável e, vejam só, dona de uma súbita sensibilidade esportiva. O craque, como se sabe, não anda em boa fase. Mas quem se importa com isso?

Cristiano Ronaldo vem da Ilha da Madeira. Da última vez que lá estive, falava-se mais nele do que no governador doidivanas Alberto João Jardim. Metido a besta, tentei argumentar que a ilha – um barquinho perdido na imensidão do Atlântico – era também berço das famílias do escritor John dos Passos e do cineasta Sam Mendes. Ops!"John quein? Sam quein?

Conversa furada. Só dava Cris­­tiano Ronaldo. Durante o jogo, na redação, o sentimento era o mesmo. Ferido diante da superioridade do macho alfa, armei minha vingança. Era preciso desmoralizar o rapazote. Argumentei que o Cris Rô é um tipo ordinário. Como ele, há de pencas na Madeira – do Faiã da Ovelha ao Caniçal. Nada. Apelei: "Ele tem pinta de maloqueiro, boy de vila..." Nem tchun. Uma até confidenciou ter recomendado ao marido que arrumasse uma barriga igual à do jogador.

Restou-me fazer piada. Per­­guntei por que português usa bi­­godes: "Ora, para ficar parecido com a mãe." Quaquará-quaquá. Funcionou." "Gole meu". Adeus Ronaldo e seus portugas. Delícia de partida.

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