
A Copa começou em Itaquera. Foi sábado, no britânico horário das 11h32. Pouco importa se a tabela previa 10h30. Como também era irrelevante que o campo mais parecia uma cabeça calva, com terra de um lado a outro e uma grama rebelde sobre as "orelhas".
Ajax e Patriarca fizeram o jogo de abertura da 29ª Copa Arthur Alvim, tradicional torneio de pelada da Zona Leste de São Paulo. A bola rola no campo da Associação Atlética Arthur Alvim sempre aos sábados e domingos. Este ano, por pouco não houve rodada em uma quinta-feira. "Eu queria fazer jogo no dia da abertura da Copa, mas não deixaram", diz Jorge Luiz Kuka, 56 anos, dono de uma empresa de turismo ao lado do campo onde Dodô e Zé Roberto deram os primeiros chutes. É ele quem organiza, monta tabela e faz o regulamento do torneio. "A Fifa aqui sou eu", diz.
O motivo do desprezo irônico à Copa está a poucos metros e pode ser visto de qualquer ponto do campo. Erguido ao custo de R$ 1 bilhão no lugar da antiga pedreira que era o parque de diversões da Zona Leste até a década passada, a Arena Corinthians traz uma enorme e colorida saudação de boas-vindas aos visitantes, mas ainda não abraçou seus vizinhos. Os 3,6 milhões de habitantes da região mais populosa de São Paulo continuam esperando que saia do papel a prometida revitalização a partir do Mundial.
Foram entregues apenas cinco obras do projeto, ao custo de R$ 549 milhões. Outras 20, orçadas em R$ 130 milhões, ficaram para o fim do ano. A falta dessas melhorias pôde ser sentida entre quinta e sexta-feira, quando a greve dos metroviários fez o trajeto da Zona Leste ao centro demorar até quatro horas.
O deslocamento diário em massa é reflexo do perfil de bairro dormitório da Zona Leste. A região que concentra um quarto da população paulista é responsável por apenas 7% dos postos de trabalho da cidade. O incentivo fiscal fornecido pela prefeitura para elevar este índice só emplacou duas obras: a fábrica da Sony e o estádio do Corinthians.
"Vai trazer benefício para o entorno e desenvolvimento para região? Vai. Mas já era para trazer mais antes da Copa", diz Moacir Vianna, 66 anos, empresário e morador da ZL desde que nasceu. "Gente morrendo do corredor do hospital, faltando habitação e gastando um bilhão em estádio?", questiona o operador de máquinas aposentado Edson Dias, de 54 anos.
A lista de carências torna-se mais real com um passeio por Itaquera. O Hospital Santa Marcelina, a poucos metros do estádio, é referência, mas vive lotado por causa da falta de postos de saúde próximos. Uma das obras viárias está parada porque passa pelo meio de um terreno invadido.
Casas sem telhado e reboco nas paredes se empilham pelas estreitas ladeiras em curva de Cidade Carvalho, vila que faz parte de Itaquera. Das ruas ou de cima da laje é possível ver o estádio que poucos conhecerão na Copa. Mais fácil pegar metrô com Neymar do que encontrar alguém de Itaquera que tenha conseguido ingresso para um jogo. Assistir a uma partida, só quando forem desmontadas as arquibancadas temporárias e for possível ver o campo de longe. Durante o Mundial, o jeito será ligar a tevê, pintar a rua e sonhar com o legado que, até aqui, só ficou na promessa.




