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Fernando Meligeni lança, em Curitiba, livro com histórias do tênis

Ex-tenista passa carreira a limpo em “Aqui Tem!”, livro escrito ao lado do jornalista André Kfouri e que será lançado nesta terça-feira em Curitiba

Fernando Meligeni revisita 14 anos de tênis em "Aqui Tem!", livro que lança nesta terça em Curitiba | Paulo Whitaker / Reuters
Fernando Meligeni revisita 14 anos de tênis em "Aqui Tem!", livro que lança nesta terça em Curitiba (Foto: Paulo Whitaker / Reuters)
Meligeni:

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Meligeni:

Há cinco anos, Fernando Meligeni deixou o tênis profissional. Na sua despedida, a mais épica partida de seus 14 anos de carreira. E de lá surgiu a idéia de passar a limpo toda uma trajetória do mais brasileiros dos argentinos. O resultado foi "Aqui Tem!", livro que Meligeni escreveu ao lado do jornalista André Kfouri, e que será lançado nesta terça-feira, às 19h, na Livraria Saraiva do Shopping Crystal, em Curitiba.

"Sou um grande esquecido da vida, porque passamos por tanta coisa legal na carreira, você conhece lugares, e acontecem vários episódios engraçados. Parei depois do Pan-Americano de 2003 (do qual foi medalha de ouro) e eu escrevi um texto, para não esquecer. Não era meu intuito fazer um livro, e sim um diário", revelou Meligeni, em entrevista à Gazeta do Povo Online.

Neste papo por telefone, o ex-tenista detalhou o que o livro traz em suas 224 páginas, e também falou como está a sua vida pós-tênis profissional. "Acabei de casar, tenho que aproveitar né", brincou o sempre animado "Fininho". Para os fãs não só de tênis, mas de esportes, Fernando Meligeni mandou um recado, desfazendo qualquer impressão de que "Aqui Tem!" seja meramente uma biografia. "São apenas histórias, não linkadas, de coisas que eu vivi. Tentamos trazer o bastidor do tênis para as pessoas lerem", disse.

Confira na íntegra a entrevista de Meligeni à Gazeta do Povo Online:

Gpol – Quando surgiu a idéia do livro? Soube que você já tinha um material escrito, e a entrada do André no projeto foi o que faltava, correto?

Meligeni – Sou um grande esquecido da vida, porque passamos por tanta coisa legal na carreira, você conhece lugares, e acontecem vários episódios engraçados, muitas coisas divertidas. Parei depois do Pan-Americano de 2003 e eu escrevi um texto, sobre a competição, os bastidores de lá, para não esquecer. Não era meu intuito fazer um livro, e sim um diário organizado da carreira, sem fins comerciais. Acabei tendo 110 páginas com o tempo. O André Kfouri é muito amigo meu, nos conhecemos desde as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e saímos para jantar sempre. Em uma dessas conversas, como um papo de bar mesmo, falamos sobre o assunto, ele pediu para olhar o que eu tinha e pirou. Ele disse para mim: "Você viu o que você tem na mão?". Então começamos a partir disso, eu escrevi, e ele ia dando as orientações.

Gpol – Quanto tempo vocês levaram para concluir o trabalho?

M – Comecei em 2003, e mais ou menos em 2005 eu mostrei ao André. Levamos dois anos para produzir tudo, já que não tínhamos pressa, e ele tinha muitas coisas para fazer. O trabalho chegou a atrasar, mas ele disse para que lançássemos apenas quando eu estivesse totalmente satisfeito.

Gpol – Nos dê um resumo o que os leitores e os fãs de tênis vão encontrar nestas 224 páginas do livro.

M – Tentamos passar essa coisa pioneira de quem está dentro do esporte, trazer o bastidor do tênis para pessoa ler. Montamos o livro com histórias, não linkadas entre si, com tudo o que eu vivi. Não é uma biografia, e sim uma história das coisas que o atleta passa no circuito. Joguei Roland Garros, Olimpíada, Pan, entre outros torneios, e conto no livro como vivi tudo isso, com quem andava, como me preparava, lidando com a pressão, essas coisas. Tem um capítulo que falo da vida de tenista, dos torneios e dos lugares, porque os escolhíamos. Outro texto fala de como nunca fui santo, de todas as minhas brigas na quadra, discussões, xingamentos. É um livro para quem gosta tênis e, principalmente, quem gosta do esporte. É bem diferente de uma biografia tradicional, nós fomos bem descontraídos, e o André teve este mérito. Ele não desconfigurou a minha maneira de falar e escrever. Está tudo lá, como eu disse, e com as idéias dele também.

Gpol – Existe alguma passagem que mereceu uma atenção especial?

M – Tem duas passagens interessantes. Um dos momentos mais legais que vivi foi quando me tornei brasileiro, eu conto o porque virei brasileiro, quando senti que deveria optar pelo Brasil e não pela Argentina, onde nasci. Existe um momento em que o Guillermo Vilas, meu ídolo, me convida para jogar pela Argentina a Copa Davis, e isso me balançou bastante, era uma oportunidade única, e eu decidi atuar pelo Brasil. No livro eu cito uma conversar que tive com o Vilas em 2007, quando ele veio jogar um torneio no Brasil, e ele lembrou essa história, dizendo que rejeitei a Argentina. Mas ele diz que estava tudo bem, já que decidi com o coração. A outra passagem é a final do Pan de 2003, porque encontro com pessoas na rua e elas acham que só joguei aquele torneio, falam daquele jogo contra o (chileno) Marcelo Rios, quando eu já ganhei do Pete Sampras, já fui à semifinal de Roland Garros. Então, antes de escrever essa passagem, sentei na minha sala com o André e vimos o jogo inteiro juntos, ele me cutucava mentalmente a cada momento do jogo, para trazermos ao leitor como eu me sentia. Tive match point contra naquela partida, e eu nunca tinha ganhado do Rios nas cinco vezes em que tínhamos nos enfrentado. Tem até uma expressão dele no livro, em que ele me diz que eu estava ali no Pan pela prata, afinal, o ouro já era dele, pelo menos na visão dele.

Gpol – Vocês já fizeram algumas noites de autógrafos pelo país, então queria saber como tem sido a recepção? Na média ou acima das suas expectativas?

M – Lançamos o livro no dia 23 de setembro em São Paulo, mais de 1 mil pessoas compareceram, e vendemos mais de 350 livros na noite. Foi o segundo lançamento mais vendido do ano.

Gpol – Como tem sido a vida de ex-jogador profissional? O que você tem feito atualmente?

M – Sou consultor de três empresas. Faço muitos eventos, faço clínicas de tênis, cerca de 35 por mês, além de outros projetos, como o meu blog, no qual escrevo diariamente. Quando aparece a chance, participo de alguns campeonatos de veteranos, joguei três neste ano. Estou curtindo a vida, acabei de casar, tenho o projeto de formar uma família, então tenho que começar aproveitar a minha mulher, mas as pessoas perguntam se eu não vou treinar alguém. Eu quero agora é curtir a minha família, de repente ter filhos daqui a um tempo. Mas sigo ligado ao tênis, sou muito aberto à "mulecada" do Brasil, meio que virei consultor dos meninos mais novos.

Gpol – Não podia de deixar de perguntar sobre o atual cenário do tênis mundial. Você consegue acompanhar o que vem acontecendo no circuito?

M – Acho normal o que está acontecendo. É impossível o (Roger) Federer se manter como número um do mundo o resto da vida, ele teve problemas físicos neste ano, e acho legal você ter hoje quatro atletas que podem ser número um. O (Rafael) Nadal continua acima, mas se o Federer voltar a jogar bem no próximo ano, também pode voltar ao topo. Tem o (Andy) Murray, o (Novak) Djokovic, então acho que 2009 será um dos anos mais legais do tênis. Há uns dois anos atrás o circuito estava chato, tipo a Fórmula 1 na época do Schumacher. Hoje você já não sabe quem vai ganhar, todos pararam de respeitar o Federer, e o tênis voltou a ser interessante.

Gpol – Recentemente, Gustavo Kuerten, o Guga, declarou que, sem as dores no quadril, ele poderia jogar de igual para igual com os principais tenistas da atualidade. Pelo nível atual, você se vê em uma situação parecida, caso estivesse na ativa?

M – Sei muito bem o meu lugar, esses caras são fenômenos, o próprio Guga é, por tudo o que ele fez. Sempre fui um tenista para ficar dentro do top 100, por dois anos fiquei perto dos 25, 50 melhores. Durmo tranqüilo e sou feliz porque dei o meu máximo, nunca tive problemas de lesão, trabalhei como nunca e fui além do que podia. Dentro da minha condição, me considero número um do mundo. Consegui chegar ao meu ápice pessoal.

Gpol – E o Brasil? Fora o Marcelo Melo e o André Sá nas duplas, o país não vem tendo grandes resultados no circuito mundial. A o que se deve isso, na sua opinião?

M – Tem dois pontos. O primeiro é ser ídolo pelos resultados e outro é ser ídolo por carisma. Não adianta ter carisma e não ganhar de ninguém. Não é que o Brasil não tenha grandes resultados. Temos jogadores dentro dos 100 melhores, e tirando época do Guga, que foi atípica, sempre fomos um país com tenistas dentro dos top 100. Neste momento, nossos jogadores estão "verdes", tímidos, não têm carisma, e eles fogem da imprensa. Esse é o problema. Não adianta ter resultados apenas. É preciso jogar campeonatos grandes, vencer os melhores do mundo e sair para falar com a imprensa, divulgar, como foi na época do Guga, do Jaime Oncins e dos outros que vieram antes.

Gpol – Faltou investimentos nas categorias de base, na época áurea sua, do Guga e o país na Copa Davis?

M – Totalmente, nós vivemos dos resultados dos jogadores, mas hoje continuam surgindo atletas, com esforço familiar. Ou você acha que vai surgir um garotão, que vai jogar bem, como o Zé Pereira ai no Paraná, e que vai conseguir tudo sem ajuda nenhuma? Enquanto dependermos apenas da família vai ficar difícil. É preciso que a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) e outras entidades invistam, porque o próprio surgimento do Guga foi obra do "Espírito Santo", como eu costumo dizer. Ele não treinou com a melhor base nutricional nem nada, ele surgiu e ninguém sabe quando aparecerá outro.

Gpol – Todo mundo pergunta sobre quem será o "próximo Guga". Dá para visualizar em algum desses jovens tenistas brasileiros um futuro promissor, para pensar alto?

M – É duro fazer essa "pressãozinha", mas o Thomaz Belucci é um garoto bom, com futuro. Tem o João Souza também, mas eles ainda têm um longo caminho para fazer, é preciso trabalhar duro, ralar a bunda no saibro mesmo, ir jogar em lugares distantes. O Guga jogava Monte Carlo, Roma e Roland Garros, e é isso que você joga quando é 50 do mundo. Mas antes de chegar nisso, você tem que enfrentar coisas bem piores.

Gpol – Para fechar, e a Carolina Meligeni, sua sobrinha? É ela quem levará o sobrenome Meligeni adiante nas quadras?

M – Não sei, tanto ela quanto o Felipe jogam. Ela tem 12 e falam mais nela, mas ele tem 10 anos e também joga. Por ter sido tenista, a minha expectativa é muito menor do que a da família, dos fãs e dos jornalistas. A Carol é uma menina 12 que ama jogar, tem o punho fechado como o tio, corre em todas as bolas, é aguerrida, mas daí a virar tenista profissional ainda falta muito. Há quem fale na "grande trajetória" dela, mas ela ainda não tem. Ainda está longe de ser um expoente, e para chegar lá vai ter que treinar, batalhar, e vamos ver se o nome da família continua. Eu até me policio, fico até muito tempo sem ver ela jogar. Até acho que tem que ser ao contrário, mas não boto pressão.

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