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Justiça

Durival Britto no meio de uma briga sem fim

Discussão judicial sobre propriedade do estádio marca a história da família de advogados Nóbrega Pereira. Sem cobrar honorários, escritório espera ao menos homenagem do clube pela morosa batalha de 40 anos

A Vila Capanema | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
A Vila Capanema (Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)
O defensor da Vila: o advogado Mauro Nóbrega Pereira |

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O defensor da Vila: o advogado Mauro Nóbrega Pereira

Na efervescente Curitiba dos anos 70, um simpático Colorado surgia da fusão entre o popular Ferroviário e os tradicionais Palestra Itália e Britânia. O clube recém-criado ficou com a torcida do time da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e com uma herança maldita. Um fantasma transmitido ao descendente Paraná Clube e que há 40 anos tenta ser exorcizado em uma luta quase solitária.

Márcio ainda era um adolescente de 15 anos quando ouviu o pai, Mauro, contar que iria defender o clube preferido da família em um processo. Conselheiro do Ferroviário, o advogado foi aos tribunais contra a ação movida pelos engenheiros da Rede em 1972 contra a fusão e, depois, em uma discussão sobre a propriedade do terreno onde foi erguido o estádio Durival Britto. Começava, há quatro décadas, a ação judicial que chegou à terceira geração da família de advogados Nóbrega Pereira.

Deflagrada pela paixão ao clube, a defesa da lide consolidou-se como uma devoção. Uma entrega à margem dos departamentos jurídicos dos times e que se transformou no coração do escritório de advocacia situado na Praça Zacarias, no Centro de Curitiba. Era apenas uma sala à época. Hoje, ocupa quase um andar inteiro no mesmo edifício, onde estão as quatro mil páginas do processo que discute o destino da Vila Capanema.

"A responsabilidade é enorme de defender a alma do time. Sem um estádio, o time poderia nem existir. E se não fosse o nosso trabalho, o clube não teria mais a Vila Capanema", conta Marcio Nóbrega Pereira, que desde a formatura (em 1981) ajuda o pai na tentativa de manter a atual praça esportiva paranista nas mãos do clube. Mesmo a falta de reconhecimento de quem deveriam ser os maiores interessados.

"Depois que houve a fusão do Colorado com o Pinheiros [1989] e surgiu o Paraná, melhorou um pouco. Mas vários presidentes nem sequer telefonavam para saber como estava a ação", contou.

Processo conduzido e bancado exclusivamente pelo escritório. Um trabalho voluntário. "Chamamos de pro bono [expressão derivada do latim, que significa ‘para o bem do povo’]", explica, sem citar os valores despendidos.

Há algum tempo, uma estimativa foi feita por Bernardo Nóbrega Pereira, filho de Márcio, também advogado, e terceiro na família a focar suas energias no Durival Britto. Ao analisar a pasta com a etiqueta "Vila Capanema", onde estavam guardados recibos de custas, gastos com perícias, fotocópias e viagens para defender a causa em tribunais superiores, ele levou um susto.

Ao informar ao avô sobre o montante atualizado das despesas, ouviu uma lição pouco jurídica: "Isso se chama sigilo profissional. Quer dizer que sua avó nunca poderá saber desse valor", relembrou Márcio, que embarga um pouco a voz ao reconhecer que o pai, hoje com 85 anos, não deve assistir ao desfecho do processo.

A descoberta recente de um problema cardíaco fragilizou a saúde do patriarca dos juristas da família e diminuiu o ritmo de trabalho do Dr. Mauro, que ainda escreve suas ações caprichosamente em uma máquina de escrever Hamilton – depois posteriormente digitadas pela secretária do escritório, Roseli, outra que virou paranista por conviver com o processo sobre a Vila há tantos anos.

No estádio, se a vitória jurídica vier, o filho Márcio espera um dia ver alguma homenagem ao pai, pela batalha de uma vida.

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