
Na efervescente Curitiba dos anos 70, um simpático Colorado surgia da fusão entre o popular Ferroviário e os tradicionais Palestra Itália e Britânia. O clube recém-criado ficou com a torcida do time da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e com uma herança maldita. Um fantasma transmitido ao descendente Paraná Clube e que há 40 anos tenta ser exorcizado em uma luta quase solitária.
Márcio ainda era um adolescente de 15 anos quando ouviu o pai, Mauro, contar que iria defender o clube preferido da família em um processo. Conselheiro do Ferroviário, o advogado foi aos tribunais contra a ação movida pelos engenheiros da Rede em 1972 contra a fusão e, depois, em uma discussão sobre a propriedade do terreno onde foi erguido o estádio Durival Britto. Começava, há quatro décadas, a ação judicial que chegou à terceira geração da família de advogados Nóbrega Pereira.
Deflagrada pela paixão ao clube, a defesa da lide consolidou-se como uma devoção. Uma entrega à margem dos departamentos jurídicos dos times e que se transformou no coração do escritório de advocacia situado na Praça Zacarias, no Centro de Curitiba. Era apenas uma sala à época. Hoje, ocupa quase um andar inteiro no mesmo edifício, onde estão as quatro mil páginas do processo que discute o destino da Vila Capanema.
"A responsabilidade é enorme de defender a alma do time. Sem um estádio, o time poderia nem existir. E se não fosse o nosso trabalho, o clube não teria mais a Vila Capanema", conta Marcio Nóbrega Pereira, que desde a formatura (em 1981) ajuda o pai na tentativa de manter a atual praça esportiva paranista nas mãos do clube. Mesmo a falta de reconhecimento de quem deveriam ser os maiores interessados.
"Depois que houve a fusão do Colorado com o Pinheiros [1989] e surgiu o Paraná, melhorou um pouco. Mas vários presidentes nem sequer telefonavam para saber como estava a ação", contou.
Processo conduzido e bancado exclusivamente pelo escritório. Um trabalho voluntário. "Chamamos de pro bono [expressão derivada do latim, que significa para o bem do povo]", explica, sem citar os valores despendidos.
Há algum tempo, uma estimativa foi feita por Bernardo Nóbrega Pereira, filho de Márcio, também advogado, e terceiro na família a focar suas energias no Durival Britto. Ao analisar a pasta com a etiqueta "Vila Capanema", onde estavam guardados recibos de custas, gastos com perícias, fotocópias e viagens para defender a causa em tribunais superiores, ele levou um susto.
Ao informar ao avô sobre o montante atualizado das despesas, ouviu uma lição pouco jurídica: "Isso se chama sigilo profissional. Quer dizer que sua avó nunca poderá saber desse valor", relembrou Márcio, que embarga um pouco a voz ao reconhecer que o pai, hoje com 85 anos, não deve assistir ao desfecho do processo.
A descoberta recente de um problema cardíaco fragilizou a saúde do patriarca dos juristas da família e diminuiu o ritmo de trabalho do Dr. Mauro, que ainda escreve suas ações caprichosamente em uma máquina de escrever Hamilton depois posteriormente digitadas pela secretária do escritório, Roseli, outra que virou paranista por conviver com o processo sobre a Vila há tantos anos.
No estádio, se a vitória jurídica vier, o filho Márcio espera um dia ver alguma homenagem ao pai, pela batalha de uma vida.




