
No reduto onde tantos brasileiros reinaram, restou a Cristiano Kaminishi manter a tradição dos lutadores do país. O curitibano nasceu em Goiânia, mas mudou-se para a capital paranaense com um ano é hoje o único brasileiro a sustentar um cinturão no Japão, antiga meca do vale-tudo mundial. Aos 31 anos, ele é o atual campeão dos pesos-pesados do Heat, um dos poucos eventos de MMA (lutas marciais mistas, em inglês) a resistir na terra do sol nascente.
Do judô no jardim de infância, passando pelo muay thai na adolescência em Curitiba à faixa preta de jiu-jítsu conquistada no outro lado do mundo, ele conseguiu trocar o trabalho operário pelas lutas e "mostrar que os brasileiros não são apenas mão de obra barata no Japão."
Kaminishi cruzou o planeta aos 17 anos atrás de uma oportunidade como tantos outros decasséguis. Encarou as extensas jornadas em fábricas e indústrias até retomar as artes marciais.
Com 1,89 m e 100 quilos, era tanto o carregador ideal na empresa de importação como um adversário perigoso nos tatames. Como não encontrou onde treinar muay thai, assumiu o jiu-jítsu como esporte. Logo no primeiro torneio disputado, tornou-se o campeão japonês da modalidade foram seis títulos e a oportunidade até de representar a seleção nipônica.
O sucesso lhe garantiu o apoio do patrão. Podia sair mais cedo para treinar, depois ganhou suplementos e mais tarde até passagens. Era o passaporte para viver apenas dos ringues. Não que seja fácil. Além das bolsas das lutas, ministra seminários, dá aulas particulares e ainda vende roupas de marcas esportivas para reforçar seu orçamento.
Para ficar mais perto dos treinos em Tóquio, decidiu morar na própria academia. Usa o vestiário feminino, onde monta seu colchão de ar todos os dias. "O aluguel é muito caro. Economizo quase o valor de um carro popular no ano", contabiliza. Economia e sacrifício.
Verde e amarelo
Cristiano Kaminishi possui um cartel de 11 lutas e apenas uma derrota como profissional e honra hoje uma tradição brasileira que foi se apagando no Japão. Um a um os lutadores que brilharam nos tatames nipônicos foram deixando o país com a derrocada do Pride, principal evento de lutas do mundo. Os maiores nomes passaram por lá, incluindo ícones dos ringues paranaenses, como Maurício Shogun e Wanderlei Silva. Campeões e ídolos.
Kaminishi acompanhou o despontar de cada um dos brasileiros no badalado campeonato. Era na academia onde ele treinava que a maioria deles finalizava a preparação antes de subir ao ringue. "No começo eles eram desconhecidos, depois não podiam sair na rua. Davam autógrafos até nos ternos das pessoas", relembra.
Quando sua vez chegou, não deu mais tempo. A denúncia de envolvimento da Yakuza, a máfia japonesa, no evento, afastou os patrocinadores, as bolsas diminuíram e o interesse dos lutadores também. Estava armado cenário falimentar propício para a investida dos organizadores do UFC Ultimate Fighting Championship.
"Eu tinha o sonho de lutar no Pride. Cheguei a fazer uma reunião com os organizadores e, uma semana depois, o evento foi comprado pelo UFC. Os novos donos só esperaram o fim dos contratos vigentes para acabar com o Pride", conta. O torneio foi o maior entre outros incorporados pelo grupo liderado por Dana White e que tornou-se um império do MMA.
"Nunca foi meu objetivo. Mas agora a vitrine da luta é o UFC. Me perguntam na internet quando vão me ver lá", conta. Hoje ele depende de algum agente para abrir as portas do mais famoso octógono do mundo.







