Elnur Mammadli já havia recebido a medalha de ouro no judô, categoria leve, quando desceu do pódio e correu em direção à arquibancada para pegar uma bandeira do Azerbaijão. Quando estava quase alcançando o símbolo do seu país, levou um chega pra lá de três seguranças, que formaram uma barreira entre ele e o setor onde fica o público. O judoca voltou sorridente para o centro do tatame, enquanto os agentes respiravam aliviados por terem evitado o que, na cabeça deles, poderia ser mais um protesto político.
Uma vitória isolada em uma batalha com derrotas diárias para a Comitê Organizador dos Jogos (Bocog) e o Comitê Olímpico Internacional (COI). Apesar do esforço do governo chinês em despolitizar a Olimpíada, não há dia em que não surja um episódio aproximando o esporte de questões mundiais.
Nas rodas de conversa entre jornalistas, por exemplo, o conflito entre Rússia e Geórgia, que quase tirou os 35 atletas da delegação georgiana dos Jogos, virou tema recorrente. Ainda mais depois da emblemática cena em que a russa Natalia Paderina e a georgiana Nino Salukvadze, prata e bronze no tiro pistola de ar 10 metros, respectivamente, se abraçaram e trocaram beijos no pódio. As atletas aderiram à campanha pela paz na região com discursos inflamados, relegando a segundo plano a conquista das medalhas.
Apesar de todo o dinheiro investido, algo em torno de US$ 40 bilhões, para mostrar ao mundo a nova face do país, a verdade é que a própria China não se ajuda. A começar pelo patrulhamento exagerado sobre a internet diversos sites que na visão do poder local poderiam denegrir a imagem da nação foram bloqueados. A liberdade prometida não passou de promessa de campanha.
A censura em determinados momentos é descarada. Responsável pela tradução da entrevista coletiva dos vencedores da prova de carabina de ar 10 m no tiro, um funcionário do Comitê Orga-nizador (Bocog) se recusou a transmitir a pergunta dirigida ao sul-coreano Jin Jong-oh, medalhista de prata, e ao norte-coreano Kim Jong-su, bronze. "Vocês se cumprimentaram ou conversaram no pódio?", questionou um repórter. O tema foi prontamente rechaçado pelo chinês. "Essa pergunta não poderá ser respondida porque não tem relação com o esporte", cravou, para a revolta dos jornalistas estrangeiros presentes no evento. Como pano de fundo, é claro, o reaquecimento da tensão entre as duas Coréias, separadas desde a década de 50.
Os exemplos comprovam que o ranço ditatorial é muito forte. Alguém que pense de forma contrária à linha de governo acaba punido severamente. Foi o que aconteceu com o patinador Joey Cheek na quinta-feira passada. O medalhista de ouro nos Jogos de Inverno de Turim-ITA, em 2006, não conseguiu o visto de entrada na China. Tudo porque é co-fundador do Team Darfur, equipe de atletas americanos de origem sudanesa, que combate fortemente o genocídio promovido no ano passado pelo governo do Sudão na região de Darfur, sul do país. O grupo diz acreditar que a China, por ser compradora de petróleo sudanês, financiou indiretamente a matança promovida pelo governo local.
No mesmo dia, apenas para cutucar o histórico rival, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos anunciou que o meio-fundista Lopez Lomong, sudanês de nascimento e ativista ferrenho do Team Darfur, seria o responsável por entrar no Estádio Nacional com a bandeira americana, liderando a delegação. "Os Jogos Olímpicos deveriam unir os povos, ser algo pacífico", provocou ele, já em solo chinês.
A postura iraniana de não reconhecer o estado de Israel também refletiu nos Jogos. Por recomendação do governo do Irã, o nadador Mohamed Alirezaei não disputou a eliminatória dos 100 m peito, prova em que teria de dividir a piscina com o israelense Tom Beeri.
Alirezaei obedeceu, e bem provável que seja recompensado por isso. Há quatro anos, em Atenas, o judoca Arash Miresmaeili recusou-se a enfrentar um israelense na primeira rodada da categoria meio-leve. Na volta para casa, recebeu como recompensa um prêmio de US$ 125 mil do governo local.







