
A rotina de trabalho e treinamentos impediu Gustavo Albuquerque de acompanhar com mais atenção a Olimpíada de Londres. Parar diante da tevê para assistir a algum evento inteiro, apenas na última semana de competições. Na tela, a reprise da cerimônia de encerramento. Só ali a ficha caiu. O ciclo olímpico de 2012 havia terminado. Estava aberto o ciclo do Rio-2016. O do retorno do rúgbi ao programa dos Jogos. E o da estreia de Rambo, seu apelido, no maior evento esportivo do planeta.
"Me arrepiei inteiro vendo a despedida de Londres e a apresentação do Brasil, de imaginar que daqui a quatro anos serei eu disputando uma Olimpíada. Lembrei de quando comecei no rúgbi e meus amigos perguntavam por que eu ia perder o sábado jogando aquele negócio. Eu respondia que logo eles me veriam na tevê jogando rúgbi. Só não esperava que fosse tão rápido", conta Gustavo, hoje com 21 anos.
Rambo começou no rúgbi em 2008, convencido por um amigo a montar um time em Maringá. "Ele me mostrou uns vídeos no YouTube. Nem era jogo, só pancadaria. Topei na hora", relembra. Depois de quatro anos no Hawks, de Maringá, passou, neste ano, a integrar a seleção brasileira de rúgbi seven a variação olímpica da modalidade. Lá tem a companhia de Eduardo Melotto, o Duka, também 21 anos, curitibano.
Os dois fazem parte dos planos da Confederação Brasileira de montar uma seleção permanente de rúgbi. Serão 25 jogadores, morando e treinando no CT da entidade, em São José dos Campos (SP), sob orientações de técnicos do neozelandês Crusaders, o mais forte clube do mundo na modalidade e novo parceiro do rúgbi brasileiro. Todos recebendo salário, ou seja jogadores profissionais de rúgbi no país do futebol. Um projeto ambicioso bancado por investidores privados e o governo federal.
O primeiro grupo de patrocinadores deve ser atraído pelo departamento de marketing da entidade, o mesmo que ajudou a bolar a premiada e divertida campanha que tinha como mote "rúgbi, isso ainda vai ser grande no Brasil".
O problema está no apoio estatal. Nos próximos dias, o governo federal anunciará iniciativas para destinar mais recursos a atletas, treinadores e estrutura física. Benefício fundamental para o país conseguir, em casa, o maior número de medalhas da sua história olímpica (em Londres foram 17). Mas restrito a quem, já hoje, ronda o pódio nas principais competições internacionais.
Novas bolsas
Serão três programas: os novos Plano Medalha e do Bolsa-Técnico, além do incremento do Bolsa-Pódio. Cada um seguirá um caminho diferente para aumentar as chances de ouro, prata ou bronze do Brasil. O Plano Medalha destinará recursos a construções e aparelhagem de centros de treinamento, com valores variáveis, de acordo com cada projeto. O Bolsa-Técnico terá como foco os treinadores; o Bolsa-Pódio, atletas. Nestes dois casos, o benefício mensal pode bater em R$ 15 mil. Uma quantia inédita para o esporte nacional, mas acessível a no máximo 100 profissionais. Receita que virá dos cofres das estatais e do Orçamento Geral da União.
"O nosso foco será em esportes em que o Brasil já tem chance de medalha", explica o secretário nacional de Alto Rendimento, Ricardo Leyser, envolvido diretamente com o projeto o cargo é ligado ao Ministério do Esporte (ME).
A linha de corte será determinada em conjunto entre ME e Comitê Olímpico Brasileiro (COB), com base em resultados. Serão elegíveis atletas individuais que ficaram entre os 20 primeiros nos Jogos de Londres, treinadores de equipes que subiram ao pódio ou ficaram perto dele. Também haverá investimento em jovens atletas, desde que já figurem entre os melhores do mundo nas suas categorias. Passarão do filtro não mais do que 15 modalidades, em um total de 34 que integram o programa olímpico.
"O hóquei sobre a grama, por exemplo, não vai receber um centavo a mais do que já recebe do governo [via Lei Agnelo-Piva]. O foco é em quem já tem chance. É muito difícil, partindo do zero, formar medalhistas olímpicos em quatro anos", justifica Leyser, sem medo de criar um abismo financeiro no esporte olímpico brasileiro e ciente do dano à imagem do país que será, dentro de casa, apresentar equipes fracas ou mesmo não disputar algumas modalidades. "Nem todos os esportes vão dar vaga ao anfitrião. Em algumas, se não classificar, não vai", diz o secretário.
Do lado pobre do abismo, junto com esportes que não tiveram bom resultado em Londres (leia texto na página 2), estarão os caçulas rúgbi e golfe. Enquanto no rúgbi seven o Brasil ainda não consegue nem mesmo passar de quarta força do continente (posição nos quatro últimos Sul-Americanos), o golfe, hoje, dependeria de convite para ter um participante no torneio olímpico.
"Não acredito que vamos ficar fora. Haverá um entendimento para que todos sejam beneficiados", torce Paulo Pacheco, vice-presidente da Confederação Brasileira de Golfe (CBG). É a torcida de todos os nanicos. E de Rambo, que espera uma estreia olímpica tão emocionante quanto a que ele visualizou sentado diante da tevê.
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Em vermelho, os atletas que ficaram acima da 20ª colocação.



