
Vanderlei Cordeiro de Lima é daquelas pessoas que guardam seus tesouros em um cofre, que só é aberto em ocasiões especiais. "Levei as duas para passear", conta, orgulhoso, o ex-maratonista paranaense de 45 anos. "As duas" são as medalhas de bronze olímpica e a Pierre de Coubertin. Relíquias preservadas na sede da BM&F Bovespa, em São Paulo, que, excepcionalmente nesta semana, passam a maior parte do tempo penduradas no pescoço do dono.
Há exatos dez anos, Vanderlei foi terceiro colocado na maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004. A exclusivíssima Pierre de Coubertin entregue a 17 atletas no mundo todo veio em consequência da conquista do bronze. O paranaense de Cruzeiro do Oeste liderava a prova até o quilômetro 36, quando foi agarrado pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan, conhecido por, dois anos antes, invadir a pista durante o GP da Inglaterra de F1. Vanderlei contou com a ajuda de um espectador, o grego Polyvios Kossivas, para se livrar do agressor e concluir a corrida. Não em primeiro, mas em terceiro.
"Quando eu comecei, não tinha nem um gato para puxar o rabo, como diz o ditado, mas tinha um sonho. Muita gana, determinação e, principalmente, vontade de vencer. Fui mais longe do que imaginava, e por isso estou aqui hoje. Só tenho a agradecer", disse ontem, em São Paulo, em uma entrevista coletiva interrompida algumas vezes por lágrimas. "Desculpa, prometi que não ia mais chorar".
Cerca de uma hora e meia depois, sem lágrimas, mas eufórico pela festiva semana dos dez anos da medalha olímpica, atendeu a Gazeta do Povo, por telefone. Estava no carro, a caminho de Campinas, para mais uma homenagem e mais uma comemoração pelo episódio que marcou sua vida.
Quanto aquela maratona ficou marcada para você?
Mudou tudo, principalmente em termos de reconhecimento. Deus colocou daquela forma para que eu pudesse ser mais valorizado, pois na cultura do brasileiro só importa o ouro. Sou o Vanderlei do padre, não o do bronze. Você se pergunta o que teria acontecido na prova sem o ataque do padre?
Não tem como avaliar. Eu preferia que nada tivesse acontecido e ganhar a medalha de ouro. Mas nem tudo acontece como a gente planeja e aquele dia acabou mudando a minha vida. Especialmente por ter sido na maratona, em Atenas, 108 anos depois da primeira Olimpíada lá. O mundo estava assistindo à prova.
Onde você guarda as medalhas?
Em um cofre da BM&F, mas estão sempre comigo. Levei as duas para passear hoje. Viraram dois filhos pelos quais criei muito carinho. Guardo tudo de Atenas. Tênis, short, camiseta, número, credencial... Fica em casa, convivo direto com as lembranças. Na medida do possível treino um pouco, pensando em qualidade de vida, não mais em competição. Hoje sou padrinho de clube, participo de um programa da Confederação Brasileira de Atletismo, tenho o meu instituto, sou padrinho de um projeto em Campo Mourão. Faço eventos particulares de empresas. O esporte transformou minha vida. Como você vê as chances de o Brasil entregar uma boa Olimpíada em 2016?
Estamos no caminho. O fundamental é que as coisas não terminem em 2016. O investimento feito precisa deixar um legado para 2020, 2024. E o esporte no Paraná?
Da última vez que comentei algo, acabei arrumando uma briga com as pessoas que estavam à frente do esporte no estado. Então prefiro não dar mais opinião. A gente procura dar uma opinião verdadeira e acaba ofendendo gente que às vezes quer usar o esporte em benefício próprio.
Você fala da pista de atletismo em Cascavel?
Então Estamos esperando todo aquele projeto até hoje. Não falei nada mais que a verdade.
[Nota da Redação: em agosto de 2013, Vanderlei, em entrevista à Gazeta do Povo, criticou o projeto do secretário estadual de Esporte, Evandro Rogério Roman, de criar um centro de excelência em atletismo em Cascavel, seu reduto político. Ele defendia um centro em Campo Mourão ou Paranavaí, cidades com tradição no atletismo.]




