Publicidade
esportes amadores

Sem dinheiro, canoagem nacional pede socorro

Canoístas têm de driblar a falta de ajuda da confederação, de dinheiro e estrutura para poder treinar e representar o país em competições

O cascavelense Roberto Maehler, ouro no Pan do Rio e bronze em Guadalajara, treina no Lago Municipal de Cascavel: atleta insinua uma ruptura com a confederação para poder ter mais estrutura de treino | Marcelino Duarte/ Divulgação
O cascavelense Roberto Maehler, ouro no Pan do Rio e bronze em Guadalajara, treina no Lago Municipal de Cascavel: atleta insinua uma ruptura com a confederação para poder ter mais estrutura de treino (Foto: Marcelino Duarte/ Divulgação)
A penúria da canoagem em três atos: a sede do antigo clube de Roberto Maehler está cercada por mato, sem água, luz e com equipamentos defasados |

1 de 3

A penúria da canoagem em três atos: a sede do antigo clube de Roberto Maehler está cercada por mato, sem água, luz e com equipamentos defasados

 |

2 de 3

 |

3 de 3

O começo de 2011 parecia promissor: em abril, a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) anunciou o patrocínio de R$ 10 milhões por ano do Banco Nacio­­nal de Desenvolvimento Eco­­nô­­mico e Social (BNDES) para as modalidades velocidade, slalow e paracanoagem. A liberação da verba, porém, esbarrou em dívidas da entidade, definhando a estrutura do esporte – sem crédito, a CBCa não conseguia sacar o montante via Lei de Incentivo ao Esporte.

A organização espera pôr fim à penúria hoje, quando está programado o anúncio da retomada da parceria. O banco pretende investir na modalidade anualmente até 2016, com foco na formação de novos canoístas e atletas para compe­tir na Olimpíada do Rio (2016). Será confirmada tam­­­bém uma seleção permanente de ca­­­noagem slalow em Foz do I­­guaçu.

Sem o dinheiro, a situação dos atletas era caótica. Medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara na disputa dos mil metros no caiaque com quatro atletas (K4 1000 m), o cascavelense Roberto Maehler e o paulista Celso de Oliveira se desdobram para dar "um jeitinho" e seguir treinando.

Aos 22 anos, Celso voltou do Pan sem patrocínio, contando apenas com o suporte da Bolsa-Atleta Internacional (R$ 1.850 mensais). "Até a ida para o México, treinamos em uma seleção permanente improvisada, em Piraju [SP]. Depois, tentei me manter em Cascavel, mas, agora, vim para Guaíra", conta o campeão sul-americano de 2010. A mudança para a cidade fronteiriça foi para poder comercializar produtos eletrônicos trazidos do Paraguai.

"Sempre passamos por algumas dificuldades. Mesmo quando conseguimos resultados, seguimos sem incentivos. É meio ridículo um atleta de alto nível ter um final de temporada tão complicado", diz o canoísta, que treina no Rio Paraná.

Já Maehler, 27 anos, segue em Cascavel, com a ajuda de patrocinadores locais. "Para almoçar, tenho apoio de alguns restaurantes", revela. Medalhista de ouro no Pan do Rio em 2007, também no K4, ele treina no Lago Muni­­cipal, com a estrutura de seu antigo clube, atualmente abandonado. "Não é o mar de rosas", ameniza. "O local não tem luz nem água. Sem falar no equipamento da academia", segue.

"Machuca muito ver situações como esta, mas não sou o dono do Banco Central. Lamento muito mais que os atletas os problemas administrativos que trancaram o patrocínio. Fomos beneficiados com um cavalo de Troia no passado, a lei dos bingos [a qual permitia que empresas do ramo repassassem a instituições esportivas parte da arrecadação]. Ficamos com as multas que essas empresas receberam", diz o presidente da CBCa, João Tomasini, há 23 anos no cargo.

Sem clube, Maehler paga do próprio bolso seu antigo técnico para treiná-lo. Juntou a verba do Bolsa-Atleta para comprar seus próprios barcos. O K2 custou cerca de R$ 10 mil. O K1, ainda não en­­tregue pelo fabricante, R$ 4,5 mil. "Pedi emprestado o que eu usava na seleção em Piraju, mas a Con­­federação quis de volta", conta.

Tomasini explica que não poderia emprestar os caiaques porque não seriam suficientes para todos os atletas. "Eles usaram as embarcações até o Pan. Depois, foram liberados para um recesso."

Só que, no início de deste mês, Curitiba sediou o campeonato nacional da modalidade, que serviu de ranking para a formação da seleção em 2012. "Levei o caiaque [da seleção para Cascavel] para treinar. Não poderia ficar tanto tempo parado. A CBCa poderia, ao menos, nos ajudar a comprar os barcos", fala o cascavelense.

"Tenho um orçamento de R$ 2,6 milhões por ano, vindos do repasse da Lei Piva, para quatro seleções. É pouco. Não posso me responsabilizar pela precariedade dos clubes. Não vamos fazer mais nada que aumente o déficit da confederação. Ou esperamos entrar a verba em caixa ou não se faz mais nada", diz Tomasini.

Ele explica que no dia 8 janeiro a CBCa convocará os atletas que formarão a seleção permanente de canoagem de velocidade. A sede será o Iate Clube de São Paulo, mantida com o patrocínio do BNDES –com previsão para ser liberado até abril. Os canoístas terão todos os custos pagos, entre estadia em São Paulo, equipe multidisciplinar, equipe técnica e salário.

"Sem estar classificado para a Olimpíada de Londres, vou tentar bons resultados para entrar em outros projetos, ligados ao Comitê Olímpico Brasileiro [COB], em que não dependa da CBCa", diz Maehler.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.